Advogado de Delgado que ganhou projeção internacional

Crime. O assassinato do general Humberto Delgado, que Franco queria ver esclarecido, deu a Soares uma dimensão cosmopolita que, de outra forma, dificilmente atingiria

"Altas horas, telefona-me e visita-me, em minha casa, o encarregado de Negócios de Espanha, para tratar de matéria urgente, e grave", anotava no seu diário, a 27 de abril de 1965, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira, como se lê em Um Político Confessa-se. "Diz: recebera de Madrid um telegrama informando que em território espanhol, entre a fronteira portuguesa e Badajoz, haviam sido encontrados dois cadáveres, sendo um de Humberto Delgado e outro da sua secretária brasileira." Mais tarde, "comunico a Salazar a conversa com o representante espanhol" (idem).

E, no mesmo diário, dois dias depois, regista: "Desenrola-se a campanha internacional em torno do caso Delgado. Já são mil versões, e todas contraditórias; e não parece ter--se firmado uma corrente hostil ao governo. (...) O advogado oposicionista Mário Soares tem procuração da viúva para se ocupar do caso, e quer ir a Espanha; e isso foi-lhe facilitado." Após o assassinato, e a seu pedido, Mário Soares passaria a representar a família, graciosamente, nas investigações, com o objetivo de provar que se tratara de um crime cometido pela PIDE. "Percebi, desde o início, que seria o mais importante processo da minha vida política" (Um Político Assume-Se). E dirigiu-se, no seu pequeno Volkswagen, a Badajoz, "levando o esquema dentário do general, que [lhe] foi cedido pelo seu dentista, (...) para melhor se poder identificar o cadáver" (idem).

Mas, conforme se lê em Assassinato de Um Herói , "o advogado português não podia atuar perante as autoridades espanholas" e, a 20 de maio, "concedeu plenos poderes" ao advogado espanhol Mariano Robles Romero--Robledo ( que escreveu este livro, em co-autoria com José António Novais), pois já conhecia "a [sua] ideologia socialista" - Mário Soares escreverá que foi uma sugestão de Tierno Galván, político espanhol que então não conhecia e de quem se tornaria amigo já no exílio (Um Político Assume-se).

"As declarações de Franco Nogueira, em Londres [a 11 de maio, à saída de uma reunião da NATO, o ministro dissera que o assunto "é integralmente da competência das autoridades espanholas"], não agradaram nada ao Governo espanhol" (Assassinato de Um Herói). Dois dias volvidos, Salazar regista na sua agenda a audiência ao embaixador de Espanha, que lhe transmite "a determinação de o Generalíssimo Franco levar até às últimas consequências o inquérito sobre o assassinato de Humberto Delgado" (António de Oliveira Salazar - Uma Cronologia, de Fernando de Castro Brandão).

A 16 de agosto, anota Franco Nogueira: "Intrigas e mais intrigas do lado de Espanha a propósito do assassinato de Humberto Delgado. Insinuações não têm conta, mas não exibem provas, porque as ocultam com fins misteriosos, ou não as possuem; e inculcam a ideia de que não descobrem mais porque as nossas autoridades não colaboram o bastante" (idem). Mas, pela agenda de Salazar, vai-se sabendo das suas audiências com os ministros do Interior e dos Negócios Estrangeiros, o diretor e o subdiretor da PIDE, para se tentar criar um muro de silêncio sobre os assassinatos da brigada da polícia política. "Está em curso uma campanha internacional sobre o caso Delgado. (...) Formam-se comissões internacionais de juristas [como a da Federação Internacional de Direitos Humanos], de políticos, de defensores dos direitos humanos [Ligue des Droits de L"Homme]", regista Franco Nogueira na biografia de Salazar.

"Durante a instrução do processo, Mário Soares faz várias viagens a Madrid e a Badajoz, sabendo embora que em cada viagem arriscava a sua liberdade"(Assassinato de Um Herói ). Para os advogados "interessa que fique bem claro que nenhum membro da oposição portuguesa [como sustentava o regime salazarista] está implicado no crime". E, "na reconstituição", para a qual o juiz espanhol tinha convidado Soares, "um polícia espanhol disse ao advogado: " São uns amadores. Foram deixando rastos por toda a parte"" (idem). A 10 de setembro, quando se dirigem para o funeral, Mário Soares, Abranches Ferrão, Catanho de Meneses, Pires de Lima (que também tinham o patrocínio do caso) e o diretor do jornal República, Raul Rego, foram detidos na fronteira pela PIDE e encarcerados em Elvas, seguindo daí para Caxias.

Como advogado do caso, refere Juliet Antunes Sablosky , "dirigiu uma campanha internacional destinada a levar a julgamento os agentes do crime, empresa que o obrigou a viajar por diversos países europeus e onde travou conhecimento com dirigentes socialistas" (O PS e a Transição para a Democracia). Afinal, ao partir para o exílio, em 1970, leu a notícia: "Maître Mário Soares, advogado da família Delgado, foi outra vez expulso do seu País e compelido a partir para o exílio." E concluía, em Um Político Assume-se, ter ficado contente, pois "três linhas no Le Monde eram nesse tempo, para mim, a glória".

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