Pacheco junta socialistas, comunistas e bloquistas

No lançamento de mais uma biografia de Cunhal, só faltou António Costa "porque estava num jantar com o presidente da Irlanda"

Poucas circunstâncias conseguiriam reunir na mesma sala o conjunto de personalidades tão diversas como aquele que ontem à noite aqueceu as paredes frias do Forte de Peniche.

Mas o lançamento do quarto volume do da biografia não autorizada de Álvaro Cunhal, pela mão de José Pacheco Pereira, conseguiu essa proeza, a começar pela mesa: ao lado do autor estava o ministro da Cultura, João Soares, que ali representava António Costa, o primeiro-ministro, e Fernando Rosas, o historiador a quem coube fazer a apresentação do livro. Zé, João e Fernando são amigos de longa data, passaram todos pelo PCP, num tempo tão distante quanto o período relatado no livro, quanto aquele - de má memória - que guardam as paredes do forte. De resto, é ali que começa a história deste volume, pois foi dali que Cunhal fugiu, em 1960, para a liberdade, ou melhor, para o retorno à clandestinidade.

"Não é um livro fácil, mas é incontornável para compreender a história do PCP, da oposição portuguesa ao salazarismo e do próprio país", disse Fernando Rosas, que admitiu ter lido as cerca de 360 páginas "de rajada", muito por causa do estilo "despojado e fluente do autor", a quem atribuiu uma capacidade invulgar de relacionar e contextualizar documentos, factos e posições. Desta vez - tal como em dois dos três anteriores volumes, Pacheco viu simplificada a tarefa de construir a narrativa, já que quando escreveu o primeiro Cunhal ainda estava vivo, e não raras vezes convencia alguns dos antigos camaradas a não falar ao autor.

Pacheco Pereira chegou cedo ao Forte de Peniche, muito a tempo de receber todas as personalidades que marcaram presença no lançamento, da esquerda à direita, mais da esquerda do que da direita. Marcelo Rebelo de Sousa chegou tarde, mas ainda a tempo de ouvir o autor - e ainda companheiro no PSD - sublinhar que "tanto Sampaio da Nóvoa como Marisa Matias tinham intenção de aqui estar, mas por estes dias têm de lutar pela mediatização noutros sítios". Ante a gargalhada geral, a sala repleta de gente "que muito provavelmente seria difícil reunir noutra qualquer circunstância", ouviu atentamente toda a explicação de Pacheco Pereira sobre aqueles anos (1960-1968) em que Álvaro Cunhal saboreou, pela primeira vez, alguma vida pessoal (o primeiro casamento e o nascimento da filha), o quotidiano em Moscovo e em Paris. É esse retrato que o livro descreve "com rigor e detalhe", como considera Fernando Rosas.

As honras da casa foram feitas por António José Correia, presidente da Câmara de Peniche, único concelho dos 16 do distrito de Leiria, liderado pela CDU. Foi ele que lembrou os 2481 presos que por ali passaram, entre 1934 e 1974, entre os quais Álvaro Cunhal, que dali encetou a fuga, ao cabo de 11 anos preso em Peniche. O autarca apelou ao novo ministro da Cultura (e à secretária de Estado, também presente) que, em conjunto com o município, possa preservar aquele espaço de memória, que é o museu. João Soares ouviu e anotou, mas a hora era de enaltecer "a obra absolutamente magistral", bem como a "capacidade de investigação notável" do autor.

O socialista fez questão de lembrar o papel "absolutamente decisivo dos comunistas contra a ditadura", antes de voltar aos elogios ao antigo colega de faculdade, que é Pacheco Pereira. Na verdade, choveram elogios de todo o lado, neste tempo marcado pela polémica em torno da sua militância no PSD. Pacheco Pereira desvaloriza as vozes críticas que o querem ver fora do partido e insiste na necessidade de se manter "num espaço de centro direita" em Portugal. De resto, foi muito claro: "Eu já disse várias vezes que a silly season acaba normalmente em agosto. Por isso é sempre errado comentar, porque os comentários tendem também a ser silly. Quanto ao apoio a Marcelo, escusou-se a revelar se pode ou não contar com ele. "Participarei em debates promovidos por qualquer candidatura, tenho agendadas iniciativas com Sampaio da Nóvoa e Marisa Matias - sobre questões que tenham que ver com o futuro de Portugal e dos portugueses. O que não significa que apoie uma outra."

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