Os refugiados que escolheram Penela para verem os filhos crescer

A jovem Samia quer ser médica, o irmão jogador de futebol. Sameer, engenheiro químico, não desiste de criar a sua própria queijaria. O grupo de refugiados que escolheu Portugal para morar fez um balanço ao DN, nas vésperas da quadra natalícia, sobre estes dois anos: um porto seguro, longe da guerra

O frio de dezembro não atrapalha Samia Ibrahim de 15 anos, desenvolta a subir a escadaria de cimento que cruza toda a urbanização da Camela, em Penela, onde há dois anos moram três famílias de refugiados. Vem esperar-nos à entrada do prédio calçada de havaianas, sem agasalhos, como se fosse imune às condições climáticas que fazem os outros usar casacos, gorros e luvas, naquela paisagem serrana. De férias escolares, tem agora todo o tempo do mundo para trocar mensagens com as amigas no WhatsApp, para ajudar a avó Hawa nas tarefas domésticas, ou para rezingar com Ossam, o gémeo, enquanto o outro irmão, Bellal, trabalha numa empresa de construção civil.

Não cresceu muito (fisicamente) desde que a vimos a última vez, há mais de um ano, nessa altura bem menos faladora. Samia usa agora todos os jargões dos adolescentes, expressa-se sem dificuldade e tem traçado um plano de futuro muito concreto: "Quero ser médica de família." Já sabe que para isso não pode descurar as notas, que precisa de melhorar numa ou noutra disciplina. O primeiro período correu bem. "Não tive nenhuma negativa!", apressa-se a contar, ela que é aluna do 8.º ano no Agrupamento de Escolas Infante D. Pedro, em Penela. Estamos na sala do apartamento onde a família Ibrahim mora há dois anos, desde que chegou a Portugal. Ao lado, Ossam não desvia os olhos do ecrã da TV, onde joga incessantemente um Fifa"18. Está um ano atrasado, o irmão. Quando for mais velho quer ser jogador de futebol, o que não espanta os vizinhos que o veem jogar, cá fora. Os dois gémeos tinham apenas cinco anos quando fugiram da guerra, no Sudão, com a avó. O pai morreu em combate, da mãe falam pouco. Apenas contam que continua a viver no Sudão, com os outros três filhos. Samia, Ossam, Bellal e Hawa fugiram para o Egito, e foi de lá que vieram para Portugal, ao abrigo do programa de recolocação de refugiados da União Europeia, eles e outras três famílias, num total de 20 pessoas.

Nas férias de Natal Samia não tem grande coisa para fazer. Por isso, naquele dia espera uma chamada de Hugo Vaz, o psicólogo que os acompanhou na chegada a Penela (e que continua ligado à comunidade, a título pessoal). "Vou a Miranda do Corvo ajudar a traduzir, porque há lá famílias que chegaram há pouco e não sabem nada de português", conta a rapariga que cobre a cabeça com um lenço laranja e gosta de ouvir os últimos sucessos dos irmãos Mickael e David Carreira. Na escola, Samia destaca-se por outros motivos: soma medalhas no desporto escolar, seja no lançamento, no salto com vara ou em comprimento. Agora descansa e prepara--se para receber a tia, também refugiada da guerra do Sudão, atualmente a viver na Suíça. A família recebe-nos com café e a fruta que tem em casa, sempre preocupada em bem receber. Bellal não está, naquele dia levou almoço para o trabalho e só volta à noite. A irmã não se cansa de sublinhar que "o trabalho dele é muito duro", mas que ainda assim "teve sorte em encontrar um trabalho aqui", na vila, quer dizer. De resto, os Ibrahim gostam de Penela: "As pessoas tratam-nos bem, são simpáticas, e aqui podemos andar à vontade." É esse registo de segurança que passa nas conversas com todas as famílias de refugiados. Penela é uma pequena vila com pouco mais de três mil habitantes, sede de um concelho que, nos últimos censos, registava cerca de seis mil pessoas. Quase todos se conhecem entre si, e por isso "é um sítio bom para os meninos crescerem", como há de dizer Sameer Mohammad, que privilegia a segurança e a tranquilidade na educação dos quatro filhos. "Muitas vezes os mais velhos já vão sozinhos para a escola."

Dez meses é pouco tempo

As famílias chegaram a Penela em novembro de 2015 (três vindas da Síria e uma do Sudão) num projeto a cargo da Fundação Assistência Desenvolvimento e Formação Profissional, de Miranda do Corvo, que durou apenas dez meses. À distância do tempo, todas as entidades envolvidas concordam que "foi muito pouco tempo", como reconhece Natalya Bekh, antiga diretora técnica da ADFP, que informalmente continua a acompanhar algumas destas famílias. A ligação é maior com os sírios Aya e Mahmoud, pais de quatro crianças, três rapazes e uma menina, Jana, que nasceu em Portugal, há 15 meses.

No dia em que o DN esteve em Penela a família não estava. Mahmoud foi operado à coluna no ano passado, e a recuperação ainda não está concluída. E por isso é o único que ainda nunca trabalhou. De resto, Belall (que tem apenas 24 anos) fez-se o sustento da casa, Sameer prepara um projeto para abrir a sua própria unidade de fabrico de queijo sírio. Engenheiro químico de formação, trabalhou nessa área na Síria, e em Portugal fez um contrato numa empresa do Rabaçal, concelho de Penela. Fontes conhecedoras desse processo dizem ao DN que a empresa terá sabido da intenção do sírio em formar o próprio negócio, e por isso o dispensou. Sameer já comprou um carro, e está empenhado em avançar com o projeto da queijaria. É em Portugal que quer criar os fi-lhos e "viver em paz". Fouad trabalha numa fábrica têxtil em Seia, mas ultimamente os amigos não têm tido notícias dele. "Esperamos que esteja bem", diz Sameer. De todos, este último foi o único que partiu com a família, findo o projeto. Os outros acabaram por ficar, por sua conta e risco. Pagam cerca de 165 euros de renda social à Câmara Municipal de Penela, por cada apartamento.

Novas famílias em Coimbra

Entretanto, três famílias chegaram no final de novembro a Coimbra, num total de 24 pessoas, a maioria crianças e jovens. Este grupo de refugiados da Síria veio pela mão da Associação Pacefull Parallel, criada por Nataliya Bekh, a antiga diretora técnica da Fundação de Miranda do Corvo que liderou o processo dos refugiados de Penela, há dois anos. Este é o primeiro grupo que a associação recebe, no âmbito do programa europeu de recolocação de refugiados, criado em 2015. Portugal foi dos países que mostrou maior disponibilidade para acolher esses cidadãos que fogem da guerra, perseguição ou pobreza extrema, e estará ainda longe de alcançar o número atribuído pela União Europeia, que ascende a 4500.

O grupo que o Ministério da Administração Interna (MAI) e a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) destinaram para Coimbra inclui quatro famílias sírias, sendo que a última deverá chegar na próxima semana. "São famílias muito numerosas, algumas delas estavam já à espera há muito tempo", disse ao DN Nataliya Bekh, a ucraniana que dirigiu o Centro de Refugiados de Penela, no âmbito de um projeto de acolhimento orientado pela ADFP.

No ano passado acabou por criar uma associação, com o propósito de acolher refugiados. Para já, ainda não tem uma sede física, embora garanta que "está já reservado um espaço, no centro de Coimbra", onde em breve começará a funcionar. "Tudo o que estamos a fazer neste momento é assente no voluntariado", sublinha Nataliya, que fala em nome de um tradutor, um médico e uma assistente social. É assim que estão a garantir os primeiros dias em Portugal das três famílias, com 7 ou 8 filhos, acabadas de chegar, um deles com paralisia cerebral. Falamos de 18 menores, no total, instalados para já em apartamentos alugados pela associação, ao abrigo do programa.

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