Onze dias pelo país de dentro, onze impressões de viagem

O DN percorreu mais de três mil quilómetros pelo interior raiano de Portugal, desde Alcoutim, no Algarve, a Cambedo da Raia, em Vila Real. Impressões gerais de uma viagem onde umas vezes se confirmou que o Interior é como Lisboa o retrata mas outras vezes não

Diário de bordo. Do Algarve a Trás-os-Montes

Esta viagem começou no dia 18 de setembro, rumando de Lisboa a Alcoutim, vila algarvia nas margens do Guadiana com a espanhola San Lucar em frente, do outro lado. Depois foi-se subindo, passando por Barrancos (distrito de Beja), Reguengos de Monsaraz (Évora), Crato (Portalegre), Segura e Alcains (Castelo Branco), Almeida (Guarda), Sendim e Rio de Onor (Bragança), Vilar de Perdizes e Cambedo da Raia (Vila Real). Com as ligações de e para Lisboa percorreram-se ao todo 3090 quilómetros.

Quem emprega? O Estado e a economia social

Obviamente que há exceções - por exemplo em Alcains, no concelho de Castelo Branco, onde uma grande empresa de confeções, a Dielmar, é o maior empregador da vila, com quase 400 funcionários. Mas no país interior que o DN foi visitando as grandes forças empregadoras são duas: o Estado, através das câmaras municipais, escolas e centros de saúde; e a chamada "economia social", através, por exemplo, das Misericórdias ou das associações humanitárias de bombeiros voluntárias, muitas das quais detêm lares.

A guerra permanente entre ecologia e seres humanos

Nesta viagem o DN percorreu três das grandes áreas de proteção ambiental em Portugal: o Parque Natural do Tejo Internacional (Castelo Branco), o Parque Natural do Douro Internacional (Bragança) e o Parque Natural de Montesinho (também em Bragança). Em todos eles constatou uma péssima relação das comunidades abrangidas por esses parques e as regras por eles impostas às suas populações. Em Rio de Onor, Bragança, o espanhol Juan Fernandes (na foto principal), reformado, de 70 anos, sintetizou o problema: "Os lobos [que têm de ser preservados a todo o custo] matam-te a ovelha. E depois quem te paga a ovelha?" Já no Tejo Internacional, o problema que nos relatam relaciona-se com a caça: pode fazê-la nas margens do rio que ficam do lado espanhol mas não se pode do lado português. Nos três sítios, o DN constatou uma situação de divórcio puro e duro entre as gentes e os parques naturais. De parte a parte ninguém procura contacto.

Onde não há água não há nada

Nesta viagem o DN foi ouvindo queixas e mais queixas sobre o abandono do Interior pela administração central - nomeadamente pela extinção de muitas freguesias ou até pelo desaparecimento da presença de regimentos do Exército português nalguns pontos (no distrito de Castelo Branco). Como por exemplo, mesmo em sítios onde a terra não dá nada podem fazer-se coutadas de caça que atraem algum turismo e dão algum emprego. Só não é mesmo possível esperar que uma comunidade sobreviva quando à falta de agricultura e de pecuária se some a falta de água. Esse é o fator decisivo. Umas vezes por causa da meteorologia, outras - como em Segura, no concelho de Castelo Branco - onde alguém decidiu fazer um açude que secou o rio da aldeia e lhe tornou impossível dinamizar algum turismo (desportos náuticos, concursos de pesca, etc.).

Um ódio comum à União Europeia

A adesão de Portugal à CEE, agora União Europeia, em 1986, destruiu vários negócios de fronteira. O contrabando era uma poderosa indústria que dava rendimento a milhares de famílias, com trânsito de mercadorias nos dois sentidos (por exemplo: café de cá para lá e tabaco de lá para cá). O princípio da livre circulação de pessoas e mercadorias tornou o negócio anacrónico. Centenas de contrabandistas perderam a fonte de rendimento - e em Trás--os-Montes, por exemplo, o principal contrabando era mesmo de pessoas, de Portugal para Espanha. Ser agente da Guarda-Fiscal também deixou de ter sentido - em Alcoutim o posto local serve agora de serviço de Finanças. E com a moeda única também perderam o emprego muitos bancários que nas fronteiras faziam os câmbios (aconteceu isso em Vilar Formoso). Várias vezes ao longo desta viagem ouvimos o desabafo: "O que deu cabo disto foi a Europa." É um ódio unânime. Quanto ao contrabando, há quem diga que foi substituído por vários tráficos, puros e duros: drogas, pessoas, armas.

O turismo e a ética da qualidade

A oferta turística vai aumentando no Interior por via, por exemplo, de um cada vez maior número de praias fluviais (até o Algarve tem uma, em Alcoutim). Nota-se ao mesmo que vai fazendo caminho a ideia de que a qualidade é um imperativo para o sucesso: ninguém consegue vender a sua mercadoria - turismo rural, restauração, enchidos, vinho, o que for - se não for de qualidades. Os meios digitais de difusão de oferta hoteleira, que funcionam também como verdadeiras redes sociais de avaliação da oferta, são neste aspeto decisivos. O DN conheceu uma casa de turismo rural na remota Vilar de Perdizes (distrito de Vila Real) que recebe clientela do mundo inteiro por via de uma classificação de "excecional" (9,9 numa pontuação máxima de 10) no Booking.com. O turismo cria emprego, mas quem espera emprego qualificado que se desiluda: esse não está lá.

Os reformados que voltam também importam

Nesta viagem o DN conheceu vários casos de reformados naturais de aldeias do Interior que, depois de uma vida inteira a trabalhar nas grandes cidades, decidem na aposentação voltar à sua terra natal, para lá terminarem os seus dias. Em todos eles - sem exceção - encontramos forças dinamizadoras do emprego local, pondo a energias que têm e as poupanças que amealharam ao serviço de projetos criadores de emprego - e colocando-lhes em cima as mundividências que adquiriram durante a vida. Os reformados do Interior foram também, em muitos casos, quem sustentou os filhos e os netos atingidos pela crise 2011-2014.

Duas exceções num país bem servido de estradas

Nos caminhos percorridos constatou-se uma evidência: o país está genericamente muito bem servido de estradas. Há porém duas exceções: Beja e Portalegre. São as duas únicas capitais de distrito (das visitadas pelo DN nesta jornada pelo Interior) que não têm uma autoestrada à porta. O caso de Beja é mesmo verdadeiramente impensável: como não há ainda uma autoestrada que ali passe ligando o porto de Sines à fronteira? Quem passar de Portugal para Espanha pela fronteira de Barrancos percebe pela qualidade da estrada que mudou de país: a estrada portuguesa é péssima; a espanhola é ótima.

Dialetos que se ensinam e dialetos que se aprendem

Em Barrancos (distrito de Beja) e em Sendim (Miranda do Douro, Bragança) falam-se dialetos locais, o barranquenho e o mirandês, respetivamente. O barranquenho é verdadeiramente uma língua de comunicação entre as pessoas, percebendo-se que até as crianças o usam. Já o mirandês não: há quem fale mas não se pode dizer que seja uma língua de comunicação. O fenómeno é tanto mais extraordinário quanto se sabe que o mirandês é ensinado nas escolas e o barranquenho não (porque não tem escrita, é apenas oral).

Autárquicas: a política que chega a todo o lado

Ao longo dos quase 3100 quilómetros percorridos foi possível também constatar outra evidência: as eleições autárquicas são verdadeiramente as únicas que chegam a todo o lado, desde os grandes centros urbanos às aldeias mais remotas. Mas neste mapa interior evidentemente que nunca nos cruzámos com nenhum líder nacional . Porém...

A importância das "figuras nacionais"

O país interior passa bem sem líderes nacionais, mas não dispensa aos seus candidatos que estes mostrem ter do seu lado figuras que não sendo líderes têm no entanto peso nacional nos respetivos partidos. Em Almeida, na Guarda, cruzámo-nos com Santana Lopes; e no Crato, Portalegre, com o líder parlamentar do PCP, João Oliveira.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG