ONU: Segunda votação de Guterres com menos uma adversária

Candidata croata Vesna Pusic, pior classificada na primeira votação informal do Conselho de Segurança, desistiu ontem.

Hoje continuará a ser cedo para tirar conclusões dos resultados da segunda votação nos 11 candidatos ao cargo de secretário-geral da ONU, mas uma segunda vitória de António Guterres reforçará significativamente as probabilidades do ex-primeiro-ministro português, assinalaram ontem diversas fontes ouvidas pelo DN.

Naquela que é a primeira votação no mês de agosto para a escolha do secretário-geral das Nações Unidas, a candidatura de António Guterres viu desistir ontem a ex-ministra croata Vesna Pusic, que teve o pior resultado na contagem de 21 de julho (com 11 votos negativos).

"Depois da primeira votação no Conselho de Segurança da ONU tornou-se claro que a eleição do novo secretário-geral vai privilegiar um candidato oriundo da própria organização - alguém que trabalha ou trabalhou nas Nações Unidas", escreveu Vesna Pusic na declaração citada pela imprensa croata.

Guterres é um desses nomes, pois foi alto-comissário da ONU para os Refugiados. E a sua candidatura será quase imbatível se voltar a não ter qualquer voto negativo entre os 15 membros do Conselho de Segurança - ele que foi o único a consegui-lo na votação anterior. "É significativo que [a Rússia] manifestasse não ter opinião sobre Guterres", admitiu uma fonte diplomática do Conselho de Segurança citada pela Reuters, concluindo: "Se houver outro voto de não desencorajamento [de Moscovo], penso que é ele o mais que provável novo secretário-geral."

Acresce que o embaixador russo junto da ONU, questionado sobre se Moscovo poderia hoje desencorajar António Guterres, respondeu com um sorriso: "Porque deveria fazê-lo? Ele é um homem bom."

A exemplo da votação de julho, ainda não será hoje que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - com poder de veto - irão exibir os cartões coloridos que tornarão públicas as respetivas posições sobre cada candidato, mantendo-se ainda a lógica de os "encorajar", "desencorajar" ou "não ter opinião" sobre eles.

"Penso que só na terceira ou quarta votação é que começaremos a ter uma perceção mais clara" de quais serão os candidatos mais fortes, referiu por sua vez o embaixador de Angola junto da ONU, Ismael Gaspar Martins.

Fonte diplomática portuguesa, ouvida pelo DN sob anonimato, fez um exercício de memória: "Se olharmos para as votações anteriores" a um cargo que já teve oito titulares, "alguém que logo de início tem grande apoio de um conjunto largo de países tem grandes chances de continuar na corrida". Contudo, deixou um alerta: "O problema é que não queremos ser demasiado otimistas."

Mónica Ferro, ex-deputada e académica especializada no tema da ONU, revelou tranquilidade quanto à chegada de António Guterres à etapa final do processo de seleção do sucessor do sul-coreano Ban Ki-moon: "Teria de haver um volte-face muito grande nas votações. Os sinais são de enorme encorajamento e, nos contactos feitos por António Guterres, temos visto múltiplos apoios públicos."

"Para muitos candidatos foi surpresa [o resultado de António Guterres na primeira votação], porque se dava importância ao critério da rotação geográfica - privilegiando alguém da Europa de Leste - e o fator de género, o dever ser uma mulher", assinalou a professora universitária, elogiando particularmente a "forma excecional" como o anterior alto-comissário para os Refugiados assumiu "o compromisso da paridade de género nas escolhas para cargos sob sua responsabilidade".

Não por acaso, uma das mais importantes vozes femininas envolvidas no atual processo de eleição tomou há dias uma posição claramente favorável a António Guterres. Natalie Samarasinghe, diretora executiva da Associação das Nações Unidas no Reino Unido, escreveu um texto - intitulado "Porque é que as feministas não devem dizer que o próximo secretário-geral da ONU tem de ser mulher" - onde afirma: "Devemos apoiar a pessoa que nos convença de que, ela ou ele, trabalhará incansavelmente para proteger os direitos das mulheres, combater a discriminação e a violência de género e envolva homens e rapazes nesta luta."

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