Oficial português dançou com guerrilheira. ONU não gostou

O Estado-Maior aguarda a comunicação das Nações Unidas. O militar é observador da missão de paz e está junto às FARC

Um oficial das Forças Armadas Portuguesas, integrado numa missão de paz na Colômbia, foi alvo de críticas das Nações Unidas, por ter dançado com uma guerrilheira das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC), na noite de fim de ano. O caso envolveu dois militares da missão internacional, o outro era do Paraguai, mas só ontem à tarde ficou confirmada a identidade do português, que é capitão-de-fragata da Marinha. É o primeiro incidente a envolver um português depois de António Guterres ter tomado posse como secretário-geral da organização.

O gabinete do chefe do Estado-Maior da Armada remeteu comentários para o gabinete do chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que é o responsável pela missão, que por sua vez não quis adiantar que medidas vão ser tomadas ou se o militar terá de regressar a Lisboa. "Ainda não tivemos qualquer contacto oficial da ONU a condenar a situação e por isso para nós é um não assunto. Não temos dados objetivos para tomar uma decisão", sublinhou o porta-voz oficial.

Tudo poderia ter passado por uma simples operação de diplomacia soft power, tão típica dos portugueses quando se relacionam com outros povos, mas o bailarico foi filmado e gravado pela EFE (a agências de notícias espanhola) e as imagens provocaram indignação logo na Colômbia. A oposição criticou a conduta dos observadores, alegando que punha em causa a imparcialidade da missão.

A pressão sobre a ONU foi aumentando com as redes sociais e as televisões a repetirem e a ampliarem as críticas. Na segunda-feira, a reação do chefe da missão em Bogotá foi de clara condenação: "Este comportamento é inapropriado e não reflete os valores de profissionalismo e de imparcialidade da missão das Nações Unidas."

No mesmo comunicado oficial, intitulado "Comportamento de dois observadores internacionais nos pontos de pré-agrupamento", é dito que "a missão da ONU na Colômbia vai tomar as medidas adequadas". Contactada pelo DN, a porta-voz da missão confirmou que estão neste momento "a estudar e a analisar as medidas que serão tomadas".

Estão outros sete militares portugueses nesta missão, que teve início em dezembro de 2016 e tem prevista a duração de um ano. O objetivo é supervisionar o cessar-fogo acordado em agosto do ano passado, para pôr fim aos mais de 50 anos deste conflito armado. Uma das funções de que estão encarregados os portugueses é vigiar a entrega de armas dos guerrilheiros das FARC, nestes pontos.
Apesar da insistência junto ao CEMA e à ONU em Bogotá para um contacto direto com o militar, tal não foi possível. Fontes próximas do militar, no entanto, contaram ao DN que o capitão-de-fragata desconhecia, até ser contactado por Lisboa, o impacto da situação. Está numa região com pouco sinal de rede e com acesso limitado à internet. Terá explicado que ele e dois seus colegas foram indicados, pelo chefe da missão, para representarem a delegação na celebração de fim de ano, em resposta a um convite pessoal do comandante local das FARC. Estariam presentes no caliente réveillon não só guerrilheiros mas também alguma população local.

Terão chegado ao local depois de jantar, já a festa estava a decorrer. Numa primeira fase mantiveram-se sentados, mas, garantem as mesmas fontes, perante a insistência dos convites para dançar das guerrilheiras, acabaram por ceder, com receio de serem malvistos e de poderem prejudicar a boa relação que já tinham estabelecido anteriormente com as FARC. O oficial da Marinha tem 52 anos, é casado, e tem uma larga experiência em missões internacionais.

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