O "todo-o-terreno" do Bloco que pode chegar onde quiser

Jorge Costa, vice da bancada do BE, vai oleando o acordo parlamentar com Pedro Nuno Santos

É uma espécie de all rounder do Bloco de Esquerda (BE) ou, se alargarmos o campo de visão e nos referirmos à nova maioria, à já célebre geringonça, um autêntico todo-o--terreno. Mas o seu a seu dono (ou dona, neste caso): "todo-o-terreno" foi a expressão escolhida por Catarina Martins quando desafiada pelo DN a falar de Jorge Costa, o deputado e dirigente bloquista que já é visto como o seu braço direito.

A líder do partido não regateia elogios ao vice-presidente do grupo parlamentar e reconhece que Jorge é uma peça-chave, tal como Pedro Filipe Soares ou Mariana Mortágua, na gestão dos equilíbrios com o PS. É certo que a negociação - uma constante no novo quadro político português - é feita pelo coletivo, mas não é menos verdade que há um nível de articulação imediato, no Parlamento, que é assegurado a dois, por Jorge Costa e Pedro Nuno Santos.

São eles que evitam congestionamentos de maior nas agendas (e nos contactos de telefónicos) de António Costa e Catarina Martins. E são eles que, com menor dose de formalismo, põem a máquina a mexer.

Ao trabalho discreto e eficaz que têm vindo a realizar - tal como Pedro Filipe Soares faz com Carlos César ou Mariana Mortágua com a equipa de Mário Centeno - não será alheio o facto de há muito se conhecerem. O secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e o dirigente do BE estiveram do mesmo lado da barricada há 22 anos, no movimento associativo. Há registo, por exemplo, de terem estado juntos num protesto diante da Embaixada do México em Lisboa contra a repressão de zapatistas em Chiapas.

Costa e Catarina também colhem os frutos da afinidade entre Jorge e Pedro Nuno, sobretudo nas fases mais conturbadas e nas negociações mais exigentes. Ou que assim se anunciam, como no caso do Programa da Estabilidade (se vier a incluir qualquer plano B ou C - medidas de austeridade, leia-se) ou na criação de um veículo de resolução que expurgue da nossa banca o "monstro" do crédito malparado - contra a qual a líder do Bloco já engrossou a voz e que também a Jerónimo de Sousa suscitou a dúvida incontornável: quem paga?

Ainda o acordo de governação dependia de entendimentos programáticos e o braço-de-ferro já era intenso em temas como o aumento do salário mínimo à razão de 5% ao ano. Vingou a posição do Bloco. E o mesmo sucedeu na afinação do Orçamento do Estado para este ano, em que também prevaleceu a vontade bloquista de alargar a um milhão de famílias a tarifa social de energia.

Mas quem é, afinal, o broker Jorge Costa? Tendo Francisco Louçã como inspiração - como tantos outros miúdos da sua geração -, despertou cedo para a consciência política com acontecimentos como a queda do Muro de Berlim, o massacre da Praça Tiananmen ou a primeira Guerra do Golfo. Filiado desde os 15 anos no Partido Socialista Revolucionário (PSR), esteve na fila da frente em manifestações contra a invasão do Iraque, a aquisição dos caças F16 por parte do Estado português ou na contestação ao governo de Cavaco Silva devido à polémica prova geral de acesso (PGA), tal como foi ativo no jornal Combate, que o ex-coordenador do Bloco dirigiu.

Jornalista de formação, Jorge colaborou, como freelancer, com várias redações. Durante três anos, investigou e escreveu e, mais tarde, até converteu em livro uma grande reportagem, feita em parceria com Paulo Pena e Gabriela Lourenço, sobre a oposição estudantil ao Estado Novo. Dois anos antes, em 1999, juntou-se ao Bloco. Foi o primeiro assessor de imprensa do partido e integrou desde o primeiro momento a Mesa Nacional, o órgão máximo entre convenções. Sempre com um pé na política, chegou a deputado em 2010, na antecâmara do período de chumbo da troika. Substituía um dos fundadores do BE, Fernando Rosas, na reta final da governação de José Sócrates. "Experiência curta", conta Jorge, que até voltar a ser eleito para o hemiciclo, em 2015, não parou. Transformou em documentário - uma das produções nacionais mais vistas de sempre - o livro Donos de Portugal, que retrata a proteção do Estado às famílias mais ricas do país e as estratégias cruzadas para conservação desse poder. Escreveu mais obras, como Os Burgueses e Donos Angolanos de Portugal, ambos com Francisco Louçã e João Teixeira Lopes, e Privataria, em conjunto com Mariana Mortágua.

Fã do norte-americano Frank Zappa desde os 14 anos, apreciador do teórico francês Daniel Bensaïd, e um cinéfilo que gosta de ver espelhado no grande ecrã aquilo que abomina no sistema financeiro (como no filme O Lobo de Wall Street ou no documentário Inside Job), Jorge Costa, casado há seis anos, tem como principal prazer estar com os dois filhos e com os sobrinhos. Apesar disso, não conta o tempo que dispensa à política. "Quem a faz por gosto e militância não conta as horas", graceja. Para Catarina Martins , "o Jorge será o que quiser. E não precisa que eu o diga".

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