O socialista que gostava de retratar os outros políticos com humor

José Lello morreu ontem aos 72 anos, vítima de cancro. A cerimónia fúnebre decorre hoje pelas 16.30 na Igreja do Cristo Rei, no Porto.

No plenário ou nas comissões parlamentares, José Lello quebrava o tédio dos longos debates a desenhar caricaturas dos seus pares. Não gostava de as mostrar, mas de vez em quando lá as deixava espreitar. E como eram impregnadas de bom humor. Foi, aliás, esse traço de personalidade que o levou a escrever durante anos no Expresso, pelo Natal, uma coluna em que revelava com ironia as prendas que ofereceria a vários políticos no ativo. O antigo deputado socialista morreu ontem, aos 72 anos, vítima de cancro.

Engenheiro de formação, José Lello nasceu em 18 de maio de 1944, no Porto. Foi secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e ministro da Juventude e Desporto nos governos de António Guterres, além de deputado eleito pelo PS em todas as legislaturas desde 1983, tendo mesmo chegado a presidir ao conselho de administração da Assembleia da República.

Uma das suas áreas de especialidade foi a da Defesa e no PS apoiou as candidaturas (fracassadas) de Jaime Gama à liderança do PS (primeiro contra Vítor Constâncio e depois contra Jorge Sampaio). Entre 2007 e 2008 foi presidente da Assembleia Parlamentar da NATO. Nas últimas eleições já não foi candidato a deputado (costumava ser eleito pelo círculo do Porto).

Foi apoiante desde a primeira hora da ascensão de José Sócrates à liderança do PS, em 2004.

Manteve-se como um dos seus mais leais apoiantes, mesmo depois de Sócrates ter deixado a liderança do PS e quando esteve preso preventivamente no âmbito da Operação Marquês. Depois da libertação de Sócrates, José Lello manteve-se sempre no núcleo restrito dos amigos que nunca o abandonaram.

A direção do PS manifestou ontem "profunda consternação" pela sua morte, lembrando que prestou "relevantes serviços" ao seu partido e a Portugal.

Do socialista que se dizia monárquico, o presidente da Assembleia da República e seu camarada de partido, Ferro Rodrigues, destacou a "frontalidade" das suas posições políticas e a dedicação às comunidades portuguesas.

A mesma ideia foi expressa por Marcelo Rebelo de Sousa, que, numa nota da página da Presidência da República, frisou que "José Lello viu em vida reconhecido o seu valor e contributo para a causa pública, tendo recebido condecorações da parte de muitos países. Destaque particular, naturalmente, para a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, com que Portugal assinalou a importância da sua vida e obra".

Já o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, destacou as qualidades humanas de José Lello. "Devo recordar um camarada de grandes afetos, de grande fraternidade na relação com os seus amigos e com os seus camaradas. Depois, a sua lealdade e a forma como se batia lealmente pelas suas convicções, na defesa dos seus amigos, na defesa das suas causas políticas, na defesa dos seus ideais", disse.

À direita, o socialista também era respeitado. O deputado do CDS João Rebelo relembrou-o ontem como um político "muito combativo" e com "grandes qualidades", entre as quais a de ser um "facilitador de consensos".

As cerimónias fúnebres decorrem hoje, pelas 16.30, na Igreja do Cristo Rei, no Porto.

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