"O grande privilégio de ser filho de Mário Soares jogou sempre contra mim"

Almoço com João Soares, deputado do PS

Tínhamos combinado o encontro no Pão de Canela, café da Praça das Flores onde faz os intervalos do dia, mas João Soares achou melhor não retardar a chegada à Tasquinha dos Arcos, ali logo na Rua de São Marçal. Em dia de mão de vaca, os clientes fazem fila e o atraso do meu táxi podia resultar numa desafortunada perda de mesa. Acabámos por entrar no timing perfeito e "Sérgio, arquiteto convertido à restauração" - que com o irmão, jurista, toma conta da casa onde a mãe é cozinheira de mão cheia -, trata de nós em menos de nada. Pão e azeitonas na mesa, copo de branco e cerveja a caminho, pedido de mão de vaca com grão antecipado - e eu tenho de o travar para escolher antes o fígado de vitela. Com o à-vontade de quem se senta ali à mesa quase diariamente - é perto e de bom caminho quer da Assembleia quer de casa -, João Soares cumprimenta e é cumprimentado por quase todos quantos entram na Tasquinha dos Arcos, sempre pelo nome (irrita-o que todos neste país sejam doutores e faz questão de dizer que não o é, uma vez que foi expulso da Faculdade de Direito antes de se formar) e sem cerimónias.

Desde a sua passagem pelo governo de António Costa e passado o momento difícil que foi a morte dos pais, Maria Barroso e Mário Soares, João está totalmente dedicado à vida parlamentar, mas não põe de parte que possa encontrar algum desafio novo que seja interessante. Nada que passe, porém, pelo governo ou pela câmara. "É aquela máxima do nunca volte aos sítios onde foi feliz, e eu fui muito feliz em todos os sítios por onde passei. Não estou virado para voltar ao governo. Fiz a experiência, foi interessante, participei ativamente, como sabem os que lá estão, e tenho orgulho no trabalho que fiz." E diz sem hesitações que o atual ministro da Cultura é um substituto à altura, apesar de a brusquidão da sua própria saída parecer causar-lhe ainda algum desconforto. "Não me magoou, porque eu não sou de mágoas e honestamente acho que estive bem - passe a imodéstia, que herdei do meu pai. Não tenho problemas com isso. Foi pena, mas também é um sinal de como está o mundo e foi uma lição para mim, para o Costa, para todos."

Apesar de tudo, é fã confesso das redes sociais - "dá-me imenso gozo corrê-las todas as manhãs e comentar o que leio"- e até brinca com a situação que o afastou do lugar de ministro ao fim de pouco mais de quatro meses. "Repare que eu tenho um palmarés que é raro, devo ser o único governante que saiu por três linhas no Facebook que ninguém leu."

O sentido de humor é um dos seus trunfos, a par de não se levar demasiado a sério - ter-se-á habituado, dada a sua própria exposição, sempre inevitavelmente comparada a duas figuras de peso como o foram os pais. Dir-me-á que nunca sentiu essa pressão em casa, que o fizessem crer que tinha de estar num determinado patamar, mas não nega que tê-los por pais influenciou a sua vida e o seu percurso. Lá chegaremos.

Por agora, recebe a tão publicitada mão de vaca - que não me convence a provar, apesar da insistência, mas se estiver tão boa quanto o fígado merece todos os elogios - com prazer e uma pontinha de culpa. "Tenho estado a fazer grandes restrições gastronómicas e já emagreci uns 12 quilos." Um diagnóstico de pré-diabetes em que não faz muita fé mas que "teve um efeito pedagógico", fê-lo pôr travões à forma de comer desregrada. E ainda que defenda que desporto e dieta são "coisas horríveis", passou a ter algum cuidado. Lembra que o pai, amante confesso da gastronomia portuguesa, sempre comeu o que lhe apeteceu. Recorda os pais muitas vezes durante a nossa conversa - ainda estão muito presentes.

Pergunto-lhe se é difícil ser o filho de Mário Soares e Maria Barroso. "É um grande privilégio. Nunca senti pressão para estar à altura ou outras aflições dessas. Mas ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, foi algo que sempre me foi prejudicial, do ponto de vista público e profissional. As redes sociais, de que eu gosto, são uma espécie de válvula de escape onde se escreve de tudo e de vez em quando lá vem um comentário contra qualquer coisa minha com que não se identificam, a dizer que eu sou filho do papá. O que é profundamente injusto - não me chateia... mas sim, prejudicou-me, na vida política, até no PS." Há aqui uma componente de autolimitação: "É matéria de facto. Eu tenho a idade do Guterres, do Arons, do Ferro, mas nunca exerci nem quis exercer nenhum cargo no partido enquanto o meu pai foi secretário-geral, achei que não podia nem devia. Quando ele saiu, comecei a fazer coisas, mas isso continuou a pesar."

Militante desde a fundação do Partido Socialista, a sua primeira disputa interna foi a Federação de Lisboa, um pouco antes de Vítor Constâncio subir a líder do PS (1986). Apoiava Jaime Gama contra os constancistas, entre os quais se contavam António Guterres, Jorge Sampaio "e tipos de tradição histórica como o Tito de Morais e o Manuel Alegre". É então que fixa o seu maior objetivo, o sonho político de ser presidente da Câmara de Lisboa, onde chega em 1995 e se mantém até 2002. "O PS não ligava muito às autárquicas - curiosamente, apresentou o seu primeiro presidente eleito depois do 25 de Abril, o Aquilino Ribeiro Machado (que liderou a autarquia de 1977 a 1980), que era filho do Aquilino Ribeiro, que cheguei a conhecer e considero um dos maiores escritores do século XX português, e neto do Bernardino Machado."

O editor que leva na alma nunca serenou, ainda que se diga numa fase "não praticante", por isso gosta de passear pela história, sobretudo quando os livros se metem pelo meio. "O livro ainda me apaixona", confessa o cofundador da editora Perspectivas & Realidades, que lançou em 1975 com Vítor Cunha Rego e da qual se mantém proprietário.

Enquanto vamos avançando no petisco, conta-me que lhe doeu um bocadinho perder Lisboa para Santana Lopes, mas ainda mais dura foi a derrota em Sintra. "Custou-me ser derrotado pelo Fernando Seara - que é bem mais inteligente do que deixa transparecer, um homem culto. Contra o Santana, sempre admiti que podia perder... era a história da cigarra e da formiga - o meu papel era o da formiga e era um pouco ingrato. Embora eu não tenha nenhuma antipatia por ele e reconheça que ele tem visão - aquilo depois é sempre muito caro. Mas também precisamos desse toque às vezes. Algumas pessoas de quem gosto têm essa dimensão que está para além da nossa terra." Admite-se patriota, não gostava de ser outra coisa que não português, mas lamenta que este povo tenha "um lado terrível: quando nos viramos para ser pequeninos, somos pequeninos mesmo, quando a nossa maior qualidade é a grandeza".

Somos interrompidos pela filha Mafalda, que lhe reconheceu o falar ao passar na rua e entrou para lhe dar um beijo. Aos 68 anos, João é pai de cinco filhos - "três da primeira edição e dois da segunda", com idades entre os 41 e os 11 anos, uma arquiteta, uma médica e um advogado entre os mais velhos. Conta-me, divertido, que quando a mulher Annick (de origem belga e que conheceu numa organização de cidades europeias, quando já estava na câmara) se mudou para Lisboa teve de lhe explicar alguns conceitos que só os portugueses entendem: "Não há outro povo no mundo que tenha o conceito de "cinco minutos" enquanto medida de tempo que pode ir de 30 segundos a uma eternidade, nem o de "estou a chegar", que na verdade tem que ver com a vontade de partir do sítio onde se está. E ela já se aportuguesou e agora usa isso contra mim!" Liga esse traço de portugalidade ao que considera simultaneamente o nosso maior defeito e qualidade: "Como povo somos incapazes de avaliar de forma fria e racional o que quer que seja, há sempre uma componente de coração que na maioria das vezes é negativa (odiamos, detestamos), mas também pode ser de amor, de amizade e apaga tudo o resto. É isso que torna tão difícil a um português dizer que não, que algo é impossível. Eu aprendi como é importante dizer que não." Aprendeu-o nos anos de editor à custa de muitos armazéns cheios de livros por vender, fruto do excessivo otimismo dos autores, e diz ter sido uma grande lição que aproveitou no seu tempo de autarca (1995 a 2002). "Quando um tipo que tem responsabilidade e diz "ah, sim, é interessante, vou ver", a pessoa acha que está decidido a seu favor."

Seguimos para a sobremesa e João tira-me qualquer ilusão sobre a possibilidade de ser eu a pagar o almoço. "Nem se ponha com coisas, que eu é que convido, e pode chamar-me machista se quiser." Assunto arrumado e venha uma laranja para mim e maçã com casca para ele, enquanto empurro a conversa de novo para os Paços do Concelho, para lhe sentir o pulso ao trabalho de Fernando Medina. "Eu tenho camisola, penso pela minha cabeça, mas gosto e sou apoiante firme dele e da sua equipa." Destaca Duarte Cordeiro como exemplo de uma nova geração de socialistas, "socialistas a sério", em que inclui também Pedro Nuno Santos. E recorda depois um gesto do atual presidente da câmara que o deixou "enlevado": "Dar o nome da minha mãe a uma escola lindíssima, num sítio carregado de simbolismo que é a Boa-Hora, onde era a zona prisional do tribunal." A inauguração da Escola Básica Maria Barroso, em maio, contou com a presença do primeiro-ministro e de outros históricos socialistas. "Depois deste gesto, mesmo que fosse preciso fazer alguma entorse fazia."

Recorda Maria Barroso entre a óbvia saudade e uma incrível admiração, lembra o seu percurso político, social e também a carreira de atriz. "Até me fica mal dizê-lo, mas o filme Mudar de Vida, que ela fez com o Paulo Rocha, foi incrível. Era muito bonita e elegante e nunca perdeu nada de si até ao último dia." Sublinha essa admiração que é transversal. "Eu levo sempre com aquele velho provérbio "se não foste tu foi o teu pai", mas com a minha mãe nunca houve disso. Há uma coisa notável: apesar da imagem e da personalidade assumidamente política que ela teve, nunca disseram mal dela. Isso tocou-me quando ela morreu."

Já com os primeiros cafés à frente, recordo-o que ele próprio teve uma experiência como ator. "Já nem me lembrava disso, foi uma brincadeira... Sou muito amigo do Jorge Paixão da Costa e há muitos anos, quando ele fez A Ferreirinha, desafiou-me para um personagem curto que era o juiz. Eu aceitei, desde que ele não usasse o meu nome, tinha umas barbas grandes e uma peruca, e nem a minha mãe me conheceu. A única pessoa que me identificou foi a mãe do Costa, a Maria Antónia Palla, que é muito minha amiga." Os palcos não são, porém, coisa sua, como não o são as salas de aula, ainda que dê algumas a convite. Diz que a sua passagem pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, em que chegou a presidente da Assembleia Parlamentar (2008 a 2010), foi das coisas que mais prazer lhe deram - "acho que fui útil ao país e a várias zonas do mundo".

Aos segundos cafés, já quase de saída, critica o "disparate da conversa de um novo aeroporto". "É um filme que se repete desde os anos 1960... Talvez pudesse haver melhor organização e aproveitamento... mas isso dava toda uma outra conversa." Fica a promessa de voltarmos a encontrar-nos um dia destes.

Tasquinha dos Arcos

Couvert

Mão de vaca com grão

Fígado de vitela grelhado com batatas fritas

Salada

Laranja

Maçã

Água

Copo de vinho branco

Imperial

4 cafés

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