O cidadão que não chegou a Presidente da República

Sampaio da Nóvoa diz que Marcelo Rebelo de Sousa é o seu presidente, pediu consensos no futuro e regressa à vida universitária

Maria Antónia Palla saiu antes de Sampaio da Nóvoa terminar o discurso, visivelmente emocionada. Ao repórter da RTP deixou muitos elogios a Sampaio da Nóvoa e acabou por confessar que gostava de ter tido o seu filho a apoiar o antigo reitor da Universidade de Lisboa. Pormenor: o seu filho é António Costa, secretário-geral do PS e primeiro-ministro.

Acabou por ser este o diabo que esteve nos detalhes das conversas de muitos que, desde as 20.00, às primeiras projeções, começaram a perguntar-se que força era esta que morria na praia. Ana Gomes já tinha dito aos jornalistas que "o PS é a chave para o sucesso de uma candidatura de esquerda e para isso precisa de estar unido". E não esteve.

Já António Costa falaria de São Bento na qualidade de primeiro-ministro, telefonando também ao candidato que grande parte do seu partido apoiou oficiosamente - o presidente do PS, Carlos César, a secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, e cinco ministros que manifestaram, em ações de campanha, o seu apoio ao candidato. Sem que ontem à noite tenham aparecido pela sede da candidatura, na Rua D. Luís I, muitos socialistas. Passaram por lá os mais indefetíveis dos 15 dias de campanha: Ana Gomes, Correia de Campos, Edite Estrela, Elza Pais, Gabriela Canavilhas ou Inês de Medeiros, entre outras caras que acompanharam a candidatura.

Sampaio da Nóvoa também não quis comentar quem não esteve com ele. Esta candidatura, repetiu o antigo reitor da Universidade de Lisboa, foi lançada há muitos meses, "sem pedir autorização a ninguém". Desde a primeira hora, insistiu, Nóvoa contava com os apoios de todos. Não teve o do PS. Eram 21.46 quando o candidato entrou na sala e foi abafado pelos gritos dos apoiantes. "Obrigado, obrigado", e Nóvoa juntou a sua voz às das dezenas de pessoas e gritou também "obrigado".

"Esta candidatura foi lançada há muitos meses, não esperou por ninguém, não esperou por nenhum apoio", disse. E o que nasceu em abril do ano passado acabou agora, sentenciou Sampaio da Nóvoa. "O caminho que fizemos em conjunto termina aqui", atirou, pedindo aos apoiantes que prossigam este trabalho "nos partidos, nos movimentos sociais, nas associações" em que estão envolvidos.

"Pela primeira vez" na história da democracia portuguesa "um cidadão independente", disse Nóvoa, ter estado "perto de passar à segunda volta" e de ter ultrapassado 20% (teve 22,8%) e um milhão de votos, "dando um sinal forte da nossa democracia". Em 2006, Manuel Alegre obteve 20,74%, mas mais votos que Nóvoa (1138297 votos contra 1046793 votos). Mas a nuance nas palavras do agora candidato derrotado é o "independente".

António Sampaio da Nóvoa disse que fez a sua campanha pela positiva, recusando afrontar aquele que é agora o seu Presidente da República. Foi assim que falou de Marcelo, professor da Universidade em que foi reitor, e a quem telefonou para o felicitar pela eleição para Belém antes de se dirigir aos portugueses. "A partir de hoje, Marcelo Rebelo de Sousa é o meu Presidente e o de todos os portugueses", sublinhou, dizendo que esta sua atitude se baseia na campanha que fez, "pela positiva". "Portugal precisa muito de união, Portugal tem muitas fraturas hoje. É preciso pôr fim a esse período de austeridade e na pluralidade das nossas opiniões sermos capazes de nos unirmos", explicou-se depois aos jornalistas.

No mais, Sampaio da Nóvoa foi igual a ele próprio, endereçando um agradecimento sentido a todos os que estiveram ao lado dele. "A campanha correu como tinha que correr", disse, para depois lamentar o pouco que faltou. "Tenho pena que não tenhamos passado à segunda volta, iria ser muito esclarecedora", disse. Uma ideia que já tinha antecipado no fecho da campanha, quando argumentou que, com uma segunda ida às urnas, Marcelo Rebelo de Sousa seria obrigado a vir a jogo, explicar o muito que deixou por dizer durante a campanha. Mas recusou sempre alongar-se no comentário sobre os outros candidatos. "Sei que fizemos o nosso trabalho. Sobre outras candidaturas e percentagens deixarei isso para comentários futuros."

"Vivi, vivemos em conjunto, vivi eu um tempo extraordinário da minha vida, um tempo forte e intenso, de aprendizagem e luta pelas ideias em que acredito", explicou-se o antigo reitor da Universidade de Lisboa. "Foi um tempo que eu não trocaria por nada desta vida", apontou, recebendo mais aplausos de quem também viveu dias diferentes. E que o dizia nas conversas que se multiplicavam.

"Não tenho palavras para vos agradecer", acrescentou, para logo assumir que "o pouco que faltou" para outro resultado foi da sua "inteira responsabilidade". E a estas palavras, a plateia respondeu com um prolongado "nãoooooooooo" - o "nós" coletivo que Nóvoa assumiu na campanha era agora assumido por todos os seus apoiantes. "É uma marca que não se apaga da nossa democracia, a da nossa cidadania", insistiu. "Espero que este tempo novo seja, um tempo de cultura, de diálogo, de compromissos, da igualdade", as armas de um argumento que usou durante a campanha.

A noite acabou por ser de desânimo, sobretudo quando das primeiras projeções (ver texto secundário). Mas nunca se sentiu qualquer ambiente fúnebre. O diretor de campanha, Pedro Delgado Alves, tinha desejado que a noite fosse de "festa da democracia". Sobrava a emoção de uma noite curta: eram 22.10, os televisores sintonizados davam conta da chegada de Marcelo Rebelo de Sousa à Faculdade de Direito de Lisboa e Nóvoa passeava-se pela sala da sua candidatura a distribuir cumprimentos pelos presentes, quando os jornalistas o mergulharam em mais perguntas.

Sampaio da Nóvoa tinha pedido a "mobilização máxima". No fecho da campanha, o candidato que tinha recebido o apoio dos três ex-presidentes da democracia não teve medo das comparações e pediu para repetir a história. "Mário Soares também partiu com 25%, contra 46%, e acabou acima dos 50%. Vamos repetir 1986, 30 anos depois. A segunda volta é possível e está a um pequeno passo de distância." Assim não foi.

No fim da noite, nos bastidores da sede (onde estavam instalados os gabinetes da candidatura) cantou-se o F-R-A, o hino académico, e depois na sala os jovens da comitiva tiraram uma fotografia com o candidato derrotado. Apesar de um discurso muitas vezes virado para os jovens, atento aos seus problemas, foram os jovens os mais ausentes da sua campanha. "Estamos bem-dispostos", dizia uma das pessoas da candidatura já no final da noite, com os cenários já desmontados.

De outros futuros, como o seu, Sampaio da Nóvoa fechou a porta. "Vou voltar à minha vida universitária", disse, mas não enjeitando que manterá a sua "intervenção cívica", a de um cidadão que sonhou ser presidente. Este foi o primeiro dia do resto da sua vida com que alimentou a esperança de um pouco mais de um milhão de portugueses.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG