"Nunca sofri um susto a voar helicópteros. Não nos podemos assustar lá em cima"

Vida de militar. Entrevista a João Miguel Carita, Tenente-coronel piloto-aviador da Força Aérea. Com 6150 horas de voo em helicópteros e sem punições, tem particular orgulho no prémio internacional de serviço humanitário com que a Esquadra 751 foi distinguida em 2015.

O que é que o levou a escolher a carreira militar?

Com nove anos prestei provas de ingresso para o Colégio Militar e com 10 estava na formatura de Compromisso de Honra dos novos alunos. Jurei um Código de Honra e senti que foi o meu primeiro dia como militar. Claro que a passagem por aquela escola militar iria ser a influência natural da minha escolha de querer servir nas Forças Armadas. Os valores e princípios intemporais que adquiri fizeram com que os quisesse continuar a seguir na vida profissional.

Isso também o levou a preferir a Força Aérea aos outros ramos?

Antes de finalizar o 12º ano no Colégio Militar conversei com ex--alunos que tinham ingressado na Academia da Força Aérea, na Academia Militar, na Escola Naval, também na Escola Superior de Polícia, e concluí que a forma mais prestigiante e meritória para mim seria servir o País na Força Aérea.

Quando é que entrou?

Em 1990, para piloto-aviador.

Porquê helicópteros em vez de caças ou aeronaves de transporte?

Sempre tive uma paixão pelo voo das aeronaves de asa rotativa. À medida que observava e estudava o helicóptero, mais me apaixonava pela sua versatilidade e capacidades únicas. Os pilotos-aviadores são pilotos de aviões, mas só alguns são também de helicópteros. Lembro-me de no 2.º ano de Academia ter apanhado uma boleia em Tancos, no Alouette III, e no final do voo ter decidido que era mesmo helicópteros que eu queria voar. Mais tarde fui-me apercebendo do seu papel importantíssimo na Busca e Salvamento e senti o dever de me empenhar a fundo no estudo e na pilotagem para ajudar a salvar outras pessoas.

Sofreu algum susto?

Sustos? Só de viação... Nunca sofri nenhum "susto" a voar helicópteros. Não nos podemos assustar lá em cima. Temos de ter sempre uma reação válida, eficaz, racional e decisiva, que não é susto, de forma a resolver problemas. Assustar tira--nos essa faculdade racional de reagirmos da melhor forma ao inesperado, porque é algo emotivo. Todos temos licença de condução de veículos, mas nem todos são pilotos de Formula 1. Tem de haver um estudo regular, completo e rigoroso da máquina que voamos.

Que estão sempre a evoluir...

Na vida, quanto mais se vive mais se aprende. Na aviação, quanto mais se aprende mais se vive. A tecnologia está sempre a evoluir na aviação e, com ela, os procedimentos de se fazerem as coisas. O que hoje são verdades e nos dão segurança, amanhã poderão ser ações que nos poderão matar aos comandos de outra máquina detentora de tecnologia diferente. A aviação está em constante evolução e não podemos cair na tentação de fazermos com que a experiência adquirida seja a repetição do mesmo erro.

Que diferenças entre o Puma e o EH-101?

Na sua génese nenhuma. O pilotar é feito da mesma forma. O EH, por ser uma máquina mais complexa com toda a sua tecnologia e computação inerentes, tem capacidade de voar sozinho e de acordo com pequenos inputs que o piloto lhe dá. Mas nessa fase de voo automático o piloto não voa. Simplesmente supervisiona, sendo ele um gestor de sistemas. No Puma tinha sempre de ter as mãos nos comandos, obrigá-lo a voar. No EH-101, se estiver a voar em modo manual é igual.

Quais foram as suas experiências mais marcantes?

Todas as vezes que salvei uma vida no mar foram uma experiência marcante e sem exceção. Mas não esqueço a noite de Natal do ano 2000, em que estava de serviço no Montijo como piloto comandante e com o Puma salvámos 22 náufragos do navio Coral Bulker, que se afundava ao largo de Viana do Castelo numa noite de grande temporal. Se não fôssemos nós todos eles teriam possivelmente morrido. O mais negativo de todos estes 20 anos ao serviço de Portugal foi ter visto a minha filha crescer às prestações. A minha família passou muitos natais e os demais momentos familiares importantes sem a minha presença, em virtude de estar a exercer o meu dever como militar e piloto da Esquadra 751. Como o tempo não volta atrás perdi muita coisa com os meus, sempre em favor de outros e da instituição que sirvo.

Que diferenças encontra entre ser militar e civil?

Desde os nove anos que sou militar e sei muito bem o que é ser militar, por conseguinte nunca soube o que era ser civil. Acredito que o que está escrito no Estatuto dos Militares das Forças Armadas espelhe bem o que é ser militar, especialmente em termos de direitos e deveres extraordinários. Quem na vida normal não tenha esses deveres e direitos extraordinários é um não militar, nos quais se inserem os civis. Por comparação deve residir aí a diferença...

Como vê o papel das Forças Armadas num país como Portugal?

Vejo-as como pilar essencial da própria soberania. São um instrumento de ação do Estado, sendo que no caso português tem sido mais frequente a sua intervenção nas operações de apoio à paz. A frequência dessas intervenções militares e a capacidade demonstrada nas variadas tipologias de missões são uma afirmação do país no plano internacional. Nunca poderemos esquecer que temos a obrigação e o dever de preservar a Pátria, segura de terceiros ou de interesses de terceiros que não os nacionais. Se assim não for... desde o ano de 1143 que muitos portugueses morreram em vão.

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