Portugal "não está imune a atos terroristas"

A indigitada secretária-geral do Sistema de Informações da República (SIRP) definiu como uma das suas prioridades a "luta contra o terrorismo internacional"

Durante uma audição com as comissões de Assuntos Constitucionais e da Defesa Nacional, no parlamento, em Lisboa, Graça Mira Gomes afirmou confiar nos serviços e nos seus quadros para esta missão e prioridade estratégia, "se vier a ser nomeada" para o cargo.

Nenhum país está imune a estes atos terroristas. Ninguém poderá garantir que em Portugal não se verificarão atos violentes desta natureza ou que não venha a ser utilizado para preparação ou fuga de terroristas

Outras prioridades defendidas por Graça Mira Gomes são a prevenção de atos espionagem e sabotagem, combate à criminalidade internacional organizada, narcotráfico ou o tráfego de seres humanos, a cibersegurança e o combate à proliferação de armas de destruição massiva.

A indigitada secretária-geral do SIRP, que coordena o trabalho do Serviço de Informações de Segurança (SIS) e Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), evitou responder à pergunta sobre uma eventual fusão

No entanto, defendeu uma cooperação com a Assembleia da República, que elege o conselho de fiscalização, e que os serviços devem também cooperar com as Forças Armadas na troca de informações.

Ainda ao nível interno, a embaixadora, que disse estar orgulhosa por ter sido escolhida a primeira diplomata e mulher no cargo, pediu para que não se encarem "os gastos nos serviços de informações como despesa, mas sim como um investimento".

"[É] um investimento na segurança, na defesa dos cidadãos, na proteção dos interesses nacionais, na defesa do Estado de direito"", afirmou.

Por último, e numa altura em que o anterior secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira, chegou a admitir a falta de meios, Graça Mira Gomes fez ainda a defesa de recrutamento e formação regular de quadros nos dois serviços.

Maria da Graça Mira Gomes cumpriu hoje uma obrigação decorrente da Lei Quadro do SIRP, a audição na Comissão de Assuntos Constitucionais, que se juntou aos deputados da comissão de Defesa Nacional, mas a nomeação e escolha cabe ao Governo.

O cargo de secretário-geral do SIRP é equiparado ao de secretário de Estado

A nova secretária-geral do SIRP exercias funções de embaixadora portuguesa junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Viena, cargo que ocupa desde 2015 e, nessa qualidade, presidiu em 2016 ao Fórum para a Cooperação na Segurança e à Comissão Consultiva e ao Tratado "Open Skies".

Diplomata de carreira, licenciada em Direito pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa, com pós-graduação em Estudos Europeus da mesma Universidade, o Governo defende que a embaixadora Graça Mira Gomes "possui larga experiência em questões relacionadas com a política externa e de segurança e defesa".

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.