"Não gosto de consensos norte-coreanos. É contra o que o partido precisa"

Entrevista a Filipe Lobo d' Ávila, porta-voz da Comissão Executiva do CDS e deputado

Vai amanhã ao Congresso com uma moção provocatória, na qual pressiona a futura liderança para assumir os valores mais tradicionais do CDS. Lobo d"Ávila nunca escondeu que preferia Nuno Melo como líder

Acreditou até ao limite que Nuno Melo seria o próximo líder do CDS. O que falta a Assunção Cristas?
Não me parece que falte nada à Assunção Cristas. Eu limitei-me, quando ninguém o tinha feito, a manifestar uma preferência, de forma livre e sem qualquer condicionamento. E voltaria a manifestar preferência por Nuno Melo, exatamente da mesma forma. Olhando para o momento do CDS e do País, manifestei essa preferência pela positiva e pelo perfil de combatividade que ele asseguraria. Isto não quer dizer que a Assunção Cristas não tenha excelentes qualidades e que não possa assumir-se como uma excelente Presidente do CDS. Se Assunção Cristas tiver sucesso como Presidente do CDS ficarei muito satisfeito.
Cristas também é uma das vice-presidentes de Paulo Portas. "Uma das nossas", como me dizia um deles há dias. Isso justifica este consenso quase "norte-coreano" em torno da sua candidatura?
Não gosto de consensos norte-coreanos, nunca gostei, e até acho que vai contra aquilo que o Partido hoje precisa. O "portismo" encerra o seu ciclo com a saída do Paulo Portas da liderança do CDS, um ciclo de sucesso, e a nova líder terá que conseguir unir toda a diversidade que hoje está no CDS. Não há os nossos e os outros. Essa é uma perspetiva completamente errada do Partido. Para além de errada, é uma perspetiva demasiado pequena.
Nuno Melo continua a ser um candidato na sombra?
O Nuno Melo continua a ser aquilo que sempre foi. Uma referência do CDS. Reconhecidamente um dos melhores. Entendeu não ser candidato e tenho a certeza que dará o seu melhor para que o novo ciclo seja de sucesso. Não é candidato e não me parece que vá estar na sombra.
Os apoiantes de Nuno Melo vão estar com Cristas de que forma?
Cada um é livre de fazer aquilo que bem entender. É tudo adulto e vacinado. Quisemos apresentar ideias, dar o nosso contributo na moção que subscrevo, "Juntos pelo Futuro". Não sou líder de fação, nem de uma qualquer oposição. É uma moção que é sobretudo um exercício de liberdade. Se entender estar neste novo ciclo estarei. Se entender não estar não estarei. Julgo que cada um fará a sua própria avaliação, em função das suas próprias circunstâncias. É assim que quero estar, é assim que sempre estive e é com isso que o Partido pode contar da minha parte. Pela positiva, mesmo quando for preciso ter consciência crítica, mesmo quando for preciso discordar. Vamos ver. O povo é sereno e há sempre muitas formas de participar.
Há dias numa entrevista ao DN, Assunção Cristas manifestou a sua opinião sobre qual deve ser a atitude de Portas em relação ao partido: "dar-lhe liberdade para iniciar um novo ciclo". Concorda?
Concordo, com uma pequena nota. O Paulo Portas é e será sempre uma referência fundamental do CDS. Nunca vi talento igual na política, mas como ele próprio o disse "tudo na vida tem o seu tempo".Terá agora que enfrentar o desafio de se libertar daquela que foi a sua vida ao longo dos últimos 30 anos e iniciar uma nova fase. Mas não é apenas o Paulo que terá que ter essa liberdade, o Partido também terá que aprender a viver sem a sua monitorização permanente.
Como deve ser esse novo ciclo que quais as prioridades?
A prioridade deve ser afirmar o CDS como principal partido de oposição ao Governo do PS e mostrar diferença relativamente ao PSD. Como já referi, entendo que o CDS não se pode diluir nem se pode misturar com os outros Partidos. Temos que fazer um caminho de afirmação, de diferenciação e de oposição responsável e frontal. Entendemos que o caminho passa por reforçar a identidade do CDS, por afirmar os valores que sempre defendemos. A opção preferencial pelos mais pobres, a defesa da vida, a defesa da família ou a defesa de uma economia social de mercado. A força do CDS sempre esteve na conciliação dos seus valores com o seu pragmatismo. Não se trata de valores abstratos. São valores concretos de afirmação de uma marca que sempre diferenciou o CDS dos outros partidos. Neste caminho, o CDS terá que ser sempre um baluarte de oposição a este Governo. Tem que ser distinto do PSD, não se diluir nem ser muleta ou parceiro de ocasião de qualquer outro partido. Não é para isso que o CDS existe.
Esse novo ciclo passa por um corte radical com o passado, simbolicamente marcado pela mudança da própria sigla, como defende na sua moção?
Passa por fazer os ajustamentos que são necessários. O CDS é o CDS. Já ninguém se refere ao CDS como CDS-PP. Essa sigla faz parte da nossa história mas há que introduzir as mudanças que, mesmo que simbólicas, possam ajudar a colocar o CDS no caminho certo.
Na sua moção defende medidas para dissuadir os despedimentos de pessoas com mais de 45 anos... Que espécie de medidas exatamente e porque não as propôs quando faziam parte do Governo?
Cada um de nós, nas nossas vidas, nas nossas famílias, nas nossas profissões, encontra casos concretos que necessitam de respostas concretas. As pessoas com mais de 45 anos são, infelizmente, na sociedade em que vivemos, aqueles que enfrentam um maior risco de desemprego de longa duração. Um Partido que defende a família deve estar atento a estas situações, deve defender a formação e valorização permanente ao longo da vida e deve propor alterações às leis laborais que incentivem a contratação destes profissionais e que desincentivem o seu despedimento. Há diferentes formas ativas de o fazer, seja na concessão de benefícios fiscais ou mesmo na atribuição de diferentes apoios sociais e societários. Porque é que não fizemos mais cedo no Governo? O CDS teve 12% nas últimas eleições, não teve 30%. O CDS foi parceiro de Governo, não foi Governo por si só. A estabilidade governativa, num momento dramático para Portugal, esteve acima de tudo. E nisso, tanto PSD como CDS, estiveram à altura das circunstâncias. Tanto assim foi que ganharam as eleições.
Maria Luís Albuquerque agiu bem ao aceitar o emprego na Global Arrow"s?
É uma decisão que é dela. Terá ponderado seguramente todos os prós e contras e decidiu conforme bem entendeu.
O que faria no seu lugar?
Não estou no lugar dela. Se estivesse ponderaria e faria a minha própria reflexão. Provavelmente não aceitaria, mas cada um sabe de si.
Deve continuar deputada?
Será uma decisão que ela própria terá que tomar.

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