"Não está em cima da mesa afastar" o governador

Depois do próximo congresso do PS, a número dois do partido, Ana Catarina Mendes, quer um terço dos órgãos compostos por não profissionais - "pessoas normais"

Vê condições para a "geringonça" chegar ao fim da legislatura?

Vejo. A partir do momento em que foram firmados os acordos, acreditei na possibilidade da duração para uma legislatura. Temos dados significativos na consolidação desta estratégia e deste compromisso a quatro. As coisas têm corrido bem e vão continuar a correr bem.

Há comentadores que dizem que o elo mais fraco desta plataforma de esquerda é a questão bancária - e a necessidade de eventualmente ser posto mais dinheiro público a acudir a problemas bancários.

Quem está a governar o país não ignora as dificuldades do sistema financeiro e as pressões da União Europeia nesta matéria. Isso não significa que não haja uma forte convergência nos compromissos assumidos e que as divergências entre cada um dos partidos também estão assumidas. E sobre essas não vale a pena estarmos a fazer grandes bichos papões: existem e são conhecidas e têm de ser geridas nestes quatros anos.

No caso do Novo Banco pode acontecer ser necessário um novo esforço dos contribuintes. Nem o governo o nega. E aí será muito difícil sanar divergências na esquerda. No Orçamento retificativo sobre Banif, o PCP, o BE e o PEV votaram contra.

Espero que não haja mais custos para os contribuintes. Faz falta o reforço da união bancária a nível europeu e essa união só se pode reforçar se houver verdadeira supervisão bancária. Uma supervisão que funcione - não é fazer de conta que é uma supervisão bancária. Os contribuintes não podem continuar a pagar os colapsos dos bancos. O Estado não pode ser conivente com o que acontece aos bancos. A ligeireza com que o anterior governo atuou no caso Banif é absolutamente deplorável - porque transportou para os portugueses o que não podia transportar. O mesmo digo em relação ao BES. Não devia ter acontecido e não podia ter acontecido. E o governador do Banco de Portugal até tinha dito, depois do BPN, que nunca mais se repetiria um caso assim porque com ele a supervisão funcionaria de modo intrusivo. É precisa uma efetiva fiscalização do setor bancário e reforçar os mecanismos de supervisão.

O governo e o PS recuaram nas críticas ao governador do Banco de Portugal. Isso pode criar problemas nos apoios à esquerda, visto que o PCP e sobretudo o BE pedem a cabeça do governador imediatamente.

O governador do Banco de Portugal tem o seu mandato. Foi reconduzido à pressa pelo anterior governo, quebrando mais uma vez os consensos que poderiam existir nesta matéria. Não vale a pena perder tempo nesse domínio. O que devemos discutir é como o Estado português, tendo uma voz mais ativa na Europa, pode influenciar uma maior cooperação entre os Estados e uma maior integração no sistema bancário. Para que não sejamos sistematicamente surpreendidos com mais um buraco. A minha avaliação do governador do Banco de Portugal não é positiva. Estive na segunda comissão de inquérito ao BPN. Assisti ao senhor governador dizer que, com ele à frente do Banco de Portugal, nunca mais aconteceria um caso BPN - e depois aconteceu o BES e depois o Banif. A supervisão intrusiva do senhor governador não funcionou. Temos de reforçar os mecanismos de supervisão bancária.

Usa, na qualificação da atuação do governador, aquela expressão-chave "falha grave"?

Falhou redondamente na supervisão.

E o governo pode arriscar afastar o governador e com isso "comprar" uma guerra com o Banco de Portugal?

Não está em cima da mesa.

Não está em cima da mesa o quê? Afastar o governador?

Não está. Não me parece que esteja.

O Presidente da República sugeriu vários consensos. O facto de o PS governar apoiado à esquerda complica consensos com os partidos à sua direita, nomeadamente com o PSD?

Governar significa criar as melhores condições de vida para as pessoas e para as empresas. E fazer tudo para que haja estabilidade política e social. De 2011 a 2015, o PSD, na sua senda neoliberal, quebrou o contrato social e deixou uma crispação muito grande na sociedade portuguesa. Sinto que hoje a sociedade portuguesa está mais distendida, quer pela ação deste governo, com o apoio à esquerda, quer pela ação do Presidente da República, que também tem ajudado a distender o ambiente político. Mas o líder da oposição não despe o fato de primeiro-ministro e demite-se totalmente de apresentar propostas no Orçamento do Estado. É um líder da oposição que apresenta um rol de propostas sobre o Programa Nacional de Reformas que mais não é do que o retomar tudo o que os portugueses já haviam registado. E este episódio da escola pública versus colégios privados é bem ilustrativo do preconceito ideológico a que Passos Coelho está agarrado. E não se faz oposição com processos de intenção sobre um qualquer governante.

O que está a dizer é que eventuais consensos com o PSD não são inviabilizados pelo facto de o PS governar apoiado na esquerda mas pelo próprio PSD?

Passos Coelho continua num mundo virtual, de austeridade, que rejeitamos. A procura de consensos que o Presidente pede é desejável mas tropeça no líder do PSD. Passos Coelho é, neste momento, o fator de crispação na vida política portuguesa.

Sócrates. É ou não tolerável que o antigo primeiro-ministro e antigo líder do PS esteja há um ano e meio à espera de acusação?

Não gosto de comentar casos concretos. É inadmissível que em Portugal a justiça continue a demorar, que faça primeiro o julgamento na praça pública e só depois faça a peça processual. Acho inadmissível que qualquer cidadão possa ser preso, libertado, julgado na praça pública e passem tempos e tempos sem acusação. E é violador dos direitos humanos.

Que PS espera que saia deste congresso?

Um PS mais participado, mais mobilizado e sobretudo mais aberto à sociedade. E isto não como um enunciado mas como efetivação dessa maior abertura do PS.

Tradução orgânica para isso?

Tem uma tradução que já começou com esta preparação nas várias conferências que estamos a fazer convidando movimentos sociais, independentes e simpatizantes, para connosco discutirem os vários movimentos de atualidade. E acho muito importante que o PS reveja a forma de vinculação ao PS independentemente das quotas. As quotas [que cada militante paga para manter a filiação] já demonstraram que têm perversões e por isso faz sentido que o Partido Socialista discuta no próximo mandato a forma de vinculação, numa perspetiva de maior abertura. E nos órgãos do partido deveríamos ter um terço dos membros que fossem políticos não profissionais: que não sejam deputados, autarcas, membros do governo. Isto é, que sejam cidadãos normais. Porque é isso que o PS é: um partido de cidadãos normais.

Haverá alterações estatutárias propostas pela direção do PS?

Não. Mas a questão da vinculação ao partido será matéria para os próximos órgãos nacionais discutirem.

Seria importante que os que no PS têm uma visão crítica dos acordos à esquerda, Francisco Assis ou Sérgio Sousa Pinto, participassem no congresso?

O PS tem essa grande vantagem no espectro político português: é o único partido em que a divergência é claramente assumida por todos os seus protagonistas. Não deve haver temas-tabu e nunca houve delito de opinião no PS. São bem-vindas todas as vozes, seja para convergir seja para divergir.

O PS quer que o "espírito" dos acordos à esquerda se alargue às autárquicas?

O PS tem uma forte implantação autárquica. Tem a presidência da ANMP e da Anafre. O objetivo do PS é ganhar as próximas eleições autárquicas e manter aquelas duas presidências.

É desejável em Lisboa tentar ensaiar uma aliança de esquerda?

Temos um excelente candidato em Lisboa, Fernando Medina, que tem produzido um ótimo trabalho. Estou absolutamente convencida de que irá reforçar a votação do Partido Socialista. Avançar com esses cenários não me parece que estejam neste momento em cima da mesa. A seu tempo se discutirá cada uma das soluções. O PS tem todas as condições para ganhar Lisboa.