Mulheres de estivadores em luta por sugestão de Raquel Varela

Criaram blogue com o objetivo de "humanizar" luta dos maridos, após reunião com historiadora. Esta nega autoria da ideia

"Há flores no cais." O nome do blogue lançado a 15 de maio por um grupo de mulheres que, "na primeira pessoa", se identificam como a retaguarda familiar dos estivadores em luta glosa o título do célebre filme de Elia Kazan, Há lodo no cais, sobre a ligações dos sindicatos de estivadores à mafia. "Escolhemos este nome porque é o título de um texto da Raquel Varela, com a autorização dela, e porque nós somos as flores da vida dos nossos maridos", explica Patrícia Rosa, 39 anos, administrativa de contabilidade, uma das autoras. "E para contrariar a ideia do lodo, porque nos sentimos revoltadas com o que aparece na comunicação social sobre os estivadores." A ideia do blogue, conta, surgiu depois de Varela ter ido a um plenário de estivadores e "incentivado" que elas "se juntassem à luta como mulheres, como mães, como donas de casa como a Raquel também é."

Foi o marido de Patrícia, 38 anos, a trabalhar há oito como eventual no porto e desde novembro "em casa sem trabalho" que, depois do plenário (que era fechado só a trabalhadores), contou à mulher "a ideia da Raquel Varela." A seguir, narra Patrícia, "o presidente do sindicato agendou uma reunião com ela. Eu nem sabia quem era, não vejo TV. " Na reunião, prossegue, a historiadora e comentadora televisiva "deu-nos umas luzes. Porque nós não sabemos nada de economia. E disse o que pode acontecer a nível político." Patrícia adianta que quanto ao blogue e à página no Facebook a ideia foi sua, mas Susana Gueifão, 40 anos, desempregada há três (anteriormente foi operadora de caixa), atribui a inspiração à historiadora. "Ela disse que podíamos criar uma página."A voz falha-lhe. "Isto é uma pressão... A gente a passar na rua e sempre a ouvir que os estivadores não fazem nada, que são uns brutos. Não sei quem se saiu com essa ideia dos cinco mil euros por mês [refere-se à ideia de que os estivadores ganham salários altíssimos], que é tudo treta. Fico revoltadíssima com isto."

Raquel Varela, a dar aulas no Brasil, conta uma história diferente. "Elas vieram ter comigo porque estavam desesperadas e queriam fazer alguma coisa. Contactaram-me perguntando se havia situações históricas semelhantes, em que mulheres tivessem entrado na luta sindical dos maridos. No meu grupo de trabalho fizemos um apanhado de vários casos, nomeadamente o apoio à greve na General Motors, na década de 30 do século passado, os comités de mulheres dos mineiros, no início da década de 80, em Inglaterra, e a greve dos estivadores de Liverpool, em 96/97. Não me lembro de lhes ter sugerido nada disso, de criação do blogue e Facebook. Quando muito sugeri que elas fizessem ouvir a sua voz."

Esclarece que a sua participação no dito plenário, aliás filmada e colocada online, ocorreu porque é coordenadora do estudo do trabalho portuário do Instituto de História Contemporânea, num projeto que decorre há vários anos e que é financiado pelo Sindicato dos Estivadores e pela Universidade Nova. "Não é o único projeto financiado por ordens profissionais, isso é aliás bastante comum", comenta. Não se lembra se na sua intervenção falou no papel das mulheres; na verdade, se a intervenção está integralmente online, não falou. E não tem explicação para o facto de as autoras do blogue serem unânimes a atribuir-lhe a ideia de haver uma participação das mulheres dos estivadores no braço de ferro que protagonizam com as concessionárias dos portos e que desde segunda-feira contempla a ameaça de despedimento coletivo.

"Não estávamos à espera desta bomba", reconhece Susana Gueifão. "Fomos apanhados de surpresa." Mulher de estivador efetivo e com dois irmãos no mesmo ofício, Susana segura as frases numa linha trémula. Fala de turnos de 16 horas, de escalas comunicadas no próprio dia, de dias e dias em que os filhos não veem os pais. "As pessoas falam à toa, do que não sabem. Não sei como é a vida dos outros, mas duvido que haja outras pessoas que trabalhem à chuva, ao frio, com máquinas. Se há trabalho mais duro não sei, não conheço." Escreveu um a carta ao primeiro-ministro, para publicar no blogue e a filha de 15 anos (tem outro filho de nove) também. "Ainda não saíram para não ser tudo ao mesmo tempo." Ninguém as ajuda a escrever, garante, nem contam com qualquer financiamento. Para o logótipo pediram ajuda a uma tipografia de amigos e no vídeo em que sete delas se apresentam foi um familiar seu da área que ajudou. Os conselhos da mãe de Susana, que foi sindicalista numa fábrica têxtil, também têm sido, garante esta, muito úteis.

O objetivo? Está escrito no blogue: " Queremos mostrar que os estivadores também têm famílias, esposas e filhos..." Conseguir empatia, combater o que identificam como preconceito. "Não sei quem criou esta imagem aos homens", desabafa Susana. "Não tenho um animal em casa, tenho uma pessoa, graças a Deus."

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