Morreu José Manuel Tengarrinha, combatente pela democracia e historiador do jornalismo

Fundador do MDP-CDE, preso pela PIDE durante o Estado Novo, era militante do Partido Livre desde 2015. Foi também académico e historiador, autor da grande obra sobre o jornalismo em Portugal

Foi já com 82 anos que José Manuel Tengarrinha - que morreu esta sexta-feira, aos 86 anos, em Lisboa - decidiu retomar uma vida política ativa há muito adormecida, aproximando-se do então recém-criado Partido Livre durante a campanha de 2014 para as eleições europeias. "Disse-me que queria apoiar o Partido Livre porque se sentia livre naquele momento", recorda Rui Tavares, líder deste partido, confessando que antes disso até já tinha pensado em abordar o histórico fundador do Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE) mas que lhe "faltara a coragem".

Partiu assim de Tengarrinha a aproximação, que resultaria em filiação formal no partido no ano seguinte. Uma decisão que, diz Rui Tavares, foi um motivo de enorme orgulho. "Nasci numa casa onde o político mais admirado era ele, dois anos antes do 25 de Abril, e nunca imaginei um dia estar ao lado dele num projeto político", explica. "Fomos mais uma das organizações que com o seu papel na cultura, na ação cívica, ele tocou com a sua profunda generosidade, sentido humanista e empenho cívico", diz, lembrando que no último congresso do partido - em que Tengarrinha já não esteve presente, por razões de saúde - foi decidido que "o partido terá provavelmente um centro de estudos com o nome dele".

Entre a política e a academia

Professor jubilado da Faculdade de Letras e historiador, durante vários anos trocou a política ativa pelo regresso à academia e à investigação, onde se destacou como um historiador dedicado especialmente ao liberalismo e ao século XIX. Foi dele, lembra Rui Tavares, "a grande síntese sobre a história da imprensa em Portugal".

Em causa está a obra História da Imprensa Periódica Portuguesa, publicada pela primeira vez em 1989.Mas também, sobretudo, a Nova História da Imprensa Portuguesa - Das origens a 1865, publicada em 2013.

Guilherme Oliveira Martins, professor universitário, ex-ministro da Educação e antigo presidente do Tribunal de Contas , destaca também esse duplo legado de José Manuel Tengarrinha como combatente pela democracia mas também como académico.

"Conheci-o sobretudo das lides de reflexão política no Centro Nacional de Cultura", conta ao DN. "Era um homem que teve um papel muito importante, antes de mais como resistente político, mas também como historiador. E foi um estudioso muito importante no domínio designadamente da história da imprensa e de todo o século XIX, no que se refere à construção do constitucionalismo liberal".

Além disso, acrescenta Oliveira Martins, era também "um cidadão exemplar" que mesmo nos períodos de distanciamento da política ativa não deixou de se envolver em causas: "Participei com ele em várias iniciativas, designadamente em Cascais, em Universidades de Verão sobre os temas mais diversos, e por isso recordaria em primeiro lugar o cidadão empenhado e resistente".

Da obra sobre o jornalismo a que se dedicou já perto do final da vida, Oliveira Martins considera trata-se de um trabalho "monumental", do qual confessa também ter beneficiado enquanto autor.

"Das últimas vezes que falei com ele, foi a propósito de um pequeno livro que fiz sobre o essencial do Diário da República, livro esse que é um tributário muito grande de toda a obra de investigação do José Manuel Tengarrinha", conta.

O primeiro-ministro, António Costa, também já reagiu ao anúncio da morte do fundador do MDP/CDE , considerando que José Manuel Tengarrinha se distinguiu em Portugal como um "lutador antifascista", tendo sido um "exemplo de cidadão civicamente ativo" e um "historiador ilustre".

Liberdade e outras causas

Nascido em Portimão, em 1932, José Manuel Tengarrinha teve um papel particularmente importante na oposição ao Estado Novo, que lhe valeu a detenção pela PIDE na cadeia do Aljube. Fundador do MDP/CDE, em 1969, com o objetivo de concorrer às legislativas, viria já depois do 25 de Abril a integrar a Assembleia Constituinte.

Mas o seu legado de cidadania foi além da atividade política, tendo fundado o Centro Internacional para a Conservação do Património e liderado o instituto de Cultura e Estudos Sociais, com sede em Cascais, onde promoveu "cursos breves" sobre vários temas.

No plano académico, doutorou-se em História, fazendo carreira na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da qual era professor catedrático jubilado. Foi criador, diretor e professor de diversos cursos de mestrado em Portugal e no estrangeiro.

Enquanto investigador, além da atenção dedicada á história da imprensa e do liberalismo do século XIX, interessou-se também pelos movimentos populares agrários em Portugal a partir da segunda metade do século XVIII.

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