Moedas: Défices português e espanhol ocupam pouco tempo à Comissão

Carlos Moedas relativizou a importância dada pelos media aos défices português e espanhol, assegurando que a Comissão Europeia tem debatido muito mais outros temas, como os refugiados

O terrorismo e os refugiados ou as situações políticas na Polónia e Hungria foram exemplos dados pelo comissário europeu para a Ciência. "Há alguma responsabilidade da Comunicação Social em privilegiar" os casos português e espanhol, adiantou, na entrevista ao DN com que se encerrou esta quinta-feira a conferência sobre o Futuro da Europa.

Carlos Moedas observou ainda que as divisões no seio da Comissão colocam-se ao nível das divisões entre grupos de países e não no plano partidário.

O comissário europeu lamentou as dificuldades criadas à UE pela necessidade constante de saber se as soluções para os problemas são dadas a nível comunitário ou nacional, comparando a rapidez dos EUA em responder à crise financeira de 2008 com os quatro a cinco anos que a Europa demorou a encontrar soluções para o mesmo problema.

"Será que resolvemos a nível nacional ou europeu? Europeu ou nacional?" são as questões que impedem a rapidez das respostas políticas na UE, insistiu o comissário.

Carlos Moedas questionou também a falta de informação partilhada entre os Estados membros e que, por exemplo, dificulta o combate ao terrorismo, como se viu nos ataques do início do ano em Paris por terroristas que no regresso à Bélgica foram parados e depois deixados seguir.

Este foi um dos exemplos da falta de solidariedade entre estados-membros que tem consequências práticas, pois mostrou que o problema "não é a fronteira" ou a livre circulação permitida pelas regras de Schengen. O problema, salientou, "é a falta de informação" que fez com que na fronteira não soubessem com quem estavam a lidar.

Sobre a área que tutela, o comissário português frisou que Portugal "está bem posicionado na área da Ciência e da Inovação" e sustentou que o país deve aproveitar a experiência adquirida com a boa utilização dos fundos estruturais para retirar o máximo benefício do novo quadro comunitário de apoio.

Frisando que "a grande revolução" em curso está na transformação do espaço físico pelo mundo digital - em áreas como a saúde, a energia, a água ou o agroalimentar -, Carlos Moedas defendeu que Portugal tem de "saber vender" os seus produtos.

"Devemos trabalhar muito o nosso ego" face ao valor que Portugal tem para apresentar face aos outros países, insistiu o comissário europeu, concluindo a entrevista ao DN a elogiar o projeto europeu com uma citação do belga Herman Van Rompuy, antigo presidente do Conselho Europeu: a "política enfadonha" entre os membros da UE "é o preço a pagar" para todos ganharem e para garantir a paz.

Moedas "espantado" com Ecofin

Antes de se iniciar a entrevista com André Macedo, o comissário Carlos Moedas afirmou aos jornalistas presentes na conferência do DN que ficou "espantado" com o facto de vários ministos ministros das Finanças se terem pronunciado antes do último Ecofin contra sanções a Portugal opu Espanha mas depois na reunião nada terem dito.

"O meu sentimento foi de espanto. E é pena porque os cidadãos não percebem", explicou.

Moedas desvalorizou ainda a centralidade da Comissão Europeia numa decisão sanções dizendo que os "decisores" são os países e respetivos responsáveis com assento no Conselho Europeu. "A Europa são os países, não a Comissão".

O comissário europeu reafirmou também críticas a Durão Barroso por este ter decido aceitar ser presidente não executivo da Goldman Sachs International. "Eu não teria tomado essa decisão. Não farei isso quando deixar a Comissão", afirmou.

Moedas sublinhou no entanto que Durão Barroso "foi um grande presidente" da Comissão e Portugal esteve através dele durante dez anos "no topo" do processo de decisão europeu.

Na entrevista, o comissário português alertou que outro dos problemas graves da UE é o da "falta de solidariedade" entre os estados-membros.

Segundo Carlos Moedas, essa falta de solidariedade manifestou-se por exemplo quando a Alemanha recebeu um milhão de refugiados e vários países disseram "isso é problema da Alemanha".

O comissário contou ainda que depois de uma entrevista em França onde defendeu o dever da Europa de receber refugiados recebeu milhares de mensagens criticando-o por essa posição.

E neste aspeto, salientou, Portugal faz a diferença (dado que o Governo se ofereceu à Alemanha para a aliviar do problema dos refugiados). "Portugal é exemplo de tudo, de partilha, de solidariedade", afirmou.

Enfim, "todas estas crises" - como também a do Brexit - resultam de "falta de solidariedade" e de uma noção, no seu entender errada, de soberania. "As fronteiras físicas já não existem - são metafísicas", disse. E a noção de soberania já não pode ser a original, da autonomia na cunhagem de moeda ou no estabelecimento de fronteiras. "A soberania é dar educação às pessoas, saúde, serviços básicos - isso é uma noção positiva de soberania."

O comissário português Carlos Moedas assumiu ainda que a "complexidade" do funcionamento da UE continua a ser um dos seus principais na sua relação com os cidadãos.

"Eu próprio continuo a ter dificuldade com as regras europeias, nomeadamente as regras financeiras", sendo que até teve que estudar o assunto a fundo nos últimos anos por causa das suas funções no Governo PSD/CDS, antes de assumir funções na UE.

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