Mês quente na rua. CGTP e UGT exigem aumentos do salário mínimo

As duas centrais sindicais celebraram o 1.º de Maio separadas por mais de 180 quilómetros, mas com duas bandeiras comuns: o aumento do salário mínimo e a contestação que vai em força para as ruas. A diferença mantém-se na forma: a UGT quer discutir 615 euros em concertação social, a CGTP exige 650 euros a 1 de janeiro

Separados por mais de 180 quilómetros de distância, os líderes das duas centrais sindicais apontaram ontem, nas respetivas manifestações do 1.º de Maio, ao mesmo alvo: o aumento do salário mínimo nacional já a 1 de janeiro de 2019. A única diferença (e substantiva) é o valor pedido - 615 euros para a UGT, 650 para a CGTP-IN. O Governo, já se sabe, aponta aos 600 euros.

Para Carlos Silva, secretário-geral da UGT, esse valor é possível de atingir em sede de concertação social. "Estamos convictos", atirou, no seu discurso em Figueró dos Vinhos, que "será possível ir além do valor acordado em sedes partidárias". E defendeu o diálogo entre empregadores e trabalhadores: "Porque é nesta sede que se promove a paz social entre quem emprega e quem trabalha."

A fasquia está colocada lá bem alto: no "maior 1.º de maio dos últimos anos", como o caracterizou Arménio Carlos, o secretário-geral da CGTP exigiu que o salário mínimo tenha um "aumento especial".

"Este movimento de reivindicações e luta é para continuar e ampliar", apontou no palco da Alameda, em Lisboa, no final de uma manifestação que levou milhares Avenida Almirante Reis acima. "Reivindicamos o aumento dos salários de todos os trabalhadores, nos setores públicos e privado, mas também o aumento especial do salário mínimo nacional", antecipando "a reclamação de que, no dia 1 de janeiro de 2019, o salário mínimo nacional deve passar para 650 euros". Sem margem para falhar: "Se quiserem [o Governo] ir por esse caminho, contam com a CGTP, se quiserem optar por outro caminho, podem contar com a oposição da CGTP", acrescentou.

Mais: a luta é para sair à rua e fazer de maio um mês quente. Carlos Silva disse que chegou a hora. A UGT - sublinhou - "nunca teve receio de lutas, preferindo que as mesas de negociação sejam o palco preferido. Mas quando a via do diálogo conduz a resultado zero, então chega o momento de ir para a rua. E é isso que acontecerá nos próximos dias", avisou Carlos Silva, referindo-se à greve convocada pela FESAP (Federação de Sindicatos da Administração Pública e de Entidades com fins Públicos).

Arménio Carlos alinhou idênticos argumentos. "Temos de intensificar a ação e a luta em todos os locais de trabalho e fazer de maio um mês quente, um mês de luta intensa. Uma luta para a qual estamos todos convocados e que irá convergir numa grande manifestação nacional, em Lisboa, no dia 9 de junho, do Marquês de Pombal para os Restauradores", antecipou o líder da CGTP.

Outra exigência de Arménio Carlos é a de que, "urgentemente", "o Governo assuma publicamente" que, no Orçamento do Estado para 2019, "vai lá colocar uma cláusula de que vai mesmo haver aumentos" no próximo ano, para todos os trabalhadores do privado e do público.

Recordando que Marcelo Rebelo de Sousa disse, no 25 de Abril, que a democracia tem de ter equilíbrios, o líder da CGTP avisou o "senhor Presidente da República" que "este é o tempo do Governo acabar com os desequilíbrios que existem na legislação do trabalho e assegurar que os direitos, liberdades e garantias constitucionais não fiquem à porta das empresas".

A secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, saiu ao caminho de Arménio Carlos, ainda a manifestação estava parada no Martim Moniz, para lhe pedir que não dê um passo maior que a perna. "Não podemos dar todos os passos ao mesmo tempo para chegar ao fim. É um passo de cada vez para alcançar a meta", disse a socialista ao sindicalista.

"O que queremos fazer no próximo ano é continuar o caminho da melhoria de vida dos nossos trabalhadores. Se aumentámos os rendimentos, fomos capazes de aumentar as pensões e devolver a dignidade no trabalho nos últimos dois anos e meio, no próximo ano e meio é para continuar esse trabalho", explicou-se Ana Catarina Mendes aos jornalistas, com Arménio Carlos a ouvi-la. Pouco convencido, como se perceberia hora e meia depois de desfile.

Taxa a 0% de IRC para Interior

Já o secretário-geral da UGT defendeu a redução do IRC à taxa de 0% (durante um período inicial de três anos, passando gradualmente para uma taxa reduzida) como forma de garantir a atração de empresas para o Interior. A ideia é ter "como contrapartida a obrigação de criar postos de trabalho, sendo que uma parte deles deve ser com contratação sem termo", sublinhou Carlos Silva.

"Mais do que falar do passado, importa hoje falar do futuro, do que importa fazer para que outras populações sejam atraídas para o interior do país e alterem este ciclo de muitas décadas de desertificação, de envelhecimento das populações e de baixa natalidade, de falta de investimento público e privado que fixe os jovens e atraia outros", apontou, num dos concelhos mais fustigados pelos incêndios de 2017.

"Por que não atribuir uma taxa de IRC [Imposto Sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas] de 0% durante um período de início de implantação das empresas", propôs Carlos Silva, que falava à agência Lusa à margem das comemorações da UGT do 1.º de Maio, em Figueiró dos Vinhos, distrito de Leiria.

O cartaz é uma arma

Longe destas reivindicações, ontem, pela Avenida Almirante Reis acima, muitos disseram de si, em cartazes que fugiram às palavras de ordem ensaiadas nos altifalantes dos carros de som. Uns que resumem que a "liberdade é poder fumar o que quiser", que querem a sua freguesia de volta ou uma "campanha por outra lei da nacionalidade", com um recado simples: "Quem nasce em Portugal é português - e ponto final!".

Nem os tropeções entre seguranças da organização e alguns militantes do Bloco de Esquerda tirou chama à manifestação. E aos empurrões do tipo de auricular, a senhora respondeu-lhe: "Sectário!"

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