Maya: "2017 não vai ser fácil. Será um ano para sermos racionais"

A taróloga, empresária, relações públicas e apresentadora fala sobre a sua vida e deixa um aviso: 2017 será um ano mais da razão do que do coração

Que fique já o aviso: este não é um almoço como os outros. Na verdade, nem sequer houve comida, mesa, ou mesmo um cafezito apressado ao balcão para garantir a fidelidade ao espírito desta rubrica. O nosso encontro estava marcado para ontem, num restaurante de Campolide, perto da casa que a taróloga mantém em Lisboa - "para quando eu ou o meu filho temos trabalho até mais tarde e já não apetece fazer a viagem até Sesimbra". Mas uma série de imprevistos a uma hora do nosso encontro - problemas de saúde de alguém muito próximo, um carro avariado... - parecia condenar este espaço ao abandono. Não fosse Maya uma pessoa que detesta falhar compromissos e seria impossível remediar a situação. Mas passada a surpresa e posta a andar a solução para os estorvos inesperados no dia em que, dir-me-ia mais tarde, ia reunir a família para festejar os 94 anos da mãe, eu receberia a mensagem que me devolvia a respiração: "OK. Havemos de conseguir." E um par de horas mais tarde o telefonema acontecia.

A vantagem de ser Maya a estar do outro lado é que na voz lhe transparece o estado de espírito - "é uma das minhas imagens de marca, a par do nariz e das unhas", brinca. Ainda há algum stress no tom, mesmo que as palavras lhe saiam com o sorriso que raras vezes lhe foge dos olhos: "Pronto, podemos falar. Estou totalmente disponível."

Nascida Eunice Cristina Maia Morais de Carvalho há 56 anos - tornada Maia para não expor a família e quase instantaneamente Maya para resolver uma coincidência de nome profissional -, "menina do papá" e mulher de família, tem no filho Vasco, de 23, o maior orgulho. Sente-lhe a falta desde que trocou Lisboa por Poznan (Polónia), onde estuda Gestão Hoteleira, mas está agora a matar as saudades justificadas pela primeira separação numa vida a dois - "divorciei-me do pai dele tinha o Vasco 3 anos e sempre estivemos juntos. Somos muito diferentes, eu mais extrovertida e exuberante, ele mais contido e discreto, mas não tomamos decisões sem falarmos um com o outro".

Encontrar soluções para acomodar os "diferentes vetores" que a sua vida assume é algo que Maya encara com naturalidade - coisa fácil para quem já conciliou rumos tão distintos como a carreira de professora do Ensino Básico e a de taróloga. No entanto, isso exige esforço e sacrifícios, sobretudo quando chega o final do ano e ao trabalho costumeiro - além das consultas de tarô e da televisão, onde tem um programa diário, faz assessoria de imprensa e comunicação de empresas como a clínica de José María Tallon, o designer de joias Gil Sousa ou a agência de management que trata da imagem "do nosso campeão europeu Nani" e garante que está a preparar "grandes projetos para 2017" - junta a composição do guia astrológico para o ano seguinte.

"Só a televisão obriga a horas rígidas, de resto vou gerindo o tempo conforme posso, entre consultas, reuniões, as Cartas da Maya, os horóscopos... e como também não durmo muito - sou eu e o Presidente, cinco horas bastam-nos - consigo ir encaixando." Do rol fazem ainda parte as respostas aos comentários que lhe deixam nas redes sociais - do melhor e do pior, faz questão de não deixar nenhum sem resposta. "Até aos humoristas que me caricaturam e brincam com maior ou menor elegância." Entende que quem vive do público tem de encarar as reações e por isso até faz questão de gerir a sua carreira também nas redes sociais.

Não durmo muito - sou eu e o Presidente, cinco horas bastam-nos

Reconhecida na rua pelo papel que tem na televisão ou pela ligação às cartas, Tia Maya para o pessoal com quem faz festas - "do barman ao porteiro, todos me tratam assim" -, não guarda opiniões para si. Não lhe custa por isso admitir que, ainda que seja "de direita" - chegou a liderar a Juventude Democrata-Cristã, aos 19 anos - e "tenha votado PSD", nas últimas legislativas votou em António Costa. "Por uma questão de confiança pessoal: ele foi meu professor em Direito (licenciatura que não chegou a completar) e é uma pessoa extraordinariamente habilitada." E não se arrepende: "Estou particularmente agradada com a gestão que a geringonça tem feito do país, vê-se melhorias nas empresas, as pessoas estão mais confiantes e deixámos de viver com políticas de medo para termos políticas mais convergentes, onde cabem todos." E o Presidente tem complementado esta evolução, "representando todos muito bem". Por isso conclui, quando lhe pergunto sobre o ano político que aí vem, que "estamos bem entregues".

Mas nem por isso o ano que amanhã arranca é livre de perigos. "Estamos a recuperar, mas há riscos, temos de subir degrau a degrau. 2017 não vai ser um ano de folga, não vai ser um ano fácil para ninguém, mas será equilibrado; todas as cartas que representam os 12 signos o revelam. A carta que domina o ano é a do Julgamento, que nos obriga a estarmos atentos, a olhar, avaliar e interpretar os sinais, usando mais a cabeça do que o coração. Todos gostamos de sonhar, mas este será um ano para pôr os pés no chão, para sermos mais racionais."

E o Benfica, vai conseguir o tetra? "Claro que sim!" É entusiasmo, não previsão. Mesmo porque Maya, benfiquista dos quatro costados, sobre futebol recusa fazer perguntas às cartas: "Tenho de sofrer e de vibrar. Mas tenho os meus feelings e gosto muito deste meu Benfica das papoilas saltitantes. Os jogadores estão alegres e não pressionados, e estão muito bem orientados pelo Rui Vitória." Por oposição a Jorge Jesus - que "nasceu a 500 metros de mim, na Amadora, mas que perdeu a dignidade toda quando ajoelhou no Dragão" -, para o atual treinador só tem elogios.

Estou particularmente agradada com a gestão que a geringonça tem feito do país

A tensão na voz já quase desapareceu. Maya fala agora com a tranquilidade adquirida também com a ajuda de "uma fórmula de fuga ao stress": trocar a vida em Lisboa por uma casa em Azeitão. "Aquilo é Sesimbra", precisa, para explicar como conseguiu viver com mais tranquilidade graças à paisagem da Arrábida, ao peixe fresquíssimo que por ali consegue comer e ao sossego do seu espaço, num condomínio fechado, que partilha com quatro cadelas - "uma resgatada, uma adotada, uma grand danois que me ofereceu o criador e mais uma que na verdade é do meu irmão, que também é meu vizinho; temos custódia partilhada", brinca. O ambiente é essencial para repor energias e Maya precisa disso mais do que outras pessoas: "Se não estiver bem, não posso fazer consultas." Explica que já chegou a ter de cancelar clientes: "Quando tenho ataques de rinite preciso de tomar anti-histamínicos, e não fico na posse das minhas faculdades..." Também o estômago sensível já lhe pregou partidas - "é o órgão onde fica o centro de inteligência emocional" e tem de estar apto a filtrar energias.

Maya aceita sem reservas aquilo que lê nas cartas e quando é este o assunto assume um tom mais sério mas também mais emocional, entusiasma-se. Diz que não faz astrologia porque a considera "uma coisa muito mais vaga, enquanto o tarô dá respostas objetivas, pragmáticas, ou é ou não é; ou dá ou não dá". Mas sublinha que "não é uma ciência, é uma arte esotérica". E implica que haja alguma disposição para fazer "uma concessão àquilo que é material e imaterial", a reconhecer-lhe validade "ainda que não haja aqui um nexo causal".

Concede, porém, que "as pessoas podem achar chocante" o que faz. Conta que a própria família teve muitas reservas, e durante muito tempo, sobre esta sua atividade. "Faço isto há mais de 20 anos e com grande exposição mediática, e já eu estava na SIC há algum tempo quando o meu irmão - que é uma pessoa muito marcante na minha vida - aceitou um cargo naquele canal e tinha de gerir as linhas das Cartas da Maya. Só nessa altura é que ele percebeu que aquilo não era uma loucura, brincadeira, que era coisa séria."

O tarô não é uma ciência, é uma arte esotérica

O ceticismo tinha razão de ser: nunca ninguém da sua família se interessara por semelhantes artes - "até estranharam, rejeitaram", razão pela qual não duvida que a veia lhe vem de outras vidas. "Acredito convictamente na reencarnação. Temos uma sabedoria que não pode vir apenas desta vida. Por que carga de água é que eu olhei para as cartas e senti que já as conhecia?" O exemplo vale para outros talentos intrínsecos, empatias, pressentimentos. "Até há estudos feitos na Sorbonne sobre regressão e vidas passadas."

Para Maya, não é difícil aceitar realidades que não são visíveis. Sabe que não é assim com toda a gente, mas diz que os anos lhe têm dado razão. "Há um caso histórico que mudou a minha vida: eu tinha dito à Maria João Pires que tivesse cuidado com o coração, que estava com problemas, mas ela não levou aquilo a sério. Até que se sentiu mal antes de um concerto no Brasil e por lhe vir à cabeça o que eu tinha dito foi ao hospital. Talvez seja por isso que está viva." Pergunto-lhe se nunca errou previsões. Responde sem hesitar: "Presumo que sim. Tenho sempre essa dúvida quando faço uma consulta e nunca mais vejo a pessoa: será que não voltou porque resolveu o que tinha a resolver ou porque a minha orientação falhou?"

Explica que as previsões têm validade de anos e que não aceita que clientes repitam consultas sem ter decorrido o prazo - "estaria a dizer-lhes o mesmo, não faz sentido; mas há hoje muita ansiedade, as pessoas querem antecipar tudo" -, mas tal como tem clientes regulares tem-nos de uma única visita. "E por esta ser ainda uma atividade a que se recorre de forma velada, muitos não se queixam porque não querem assumir que recorreram a uma taróloga." Não é preciso fazer perguntas para ouvir-lhe alguma exasperação na voz quando diz que há quem ache que quem lê as cartas tem "dons mágicos"; "isso não existe, não há nada de divino, o que temos é mais sensibilidade e capacidade de interpretação do tarô". E logo volta a escutar-se-lhe o sorriso e a confiança: "Nisso eu continuo a achar que sou muito boa e quando deixar de ser vou fazer outra coisa qualquer."

Acredito convictamente na reencarnação. Temos uma sabedoria que não pode vir apenas desta vida

E ideias não lhe hão de faltar, ainda que já tenha feito de tudo um pouco, do circo (foi amazona no Victor Hugo Cardinali) à revista (no Maria Vitória), do ballet praticado em miúda - sem chegar a cumprir o sonho de ser prima ballerina - ao teatro. "Sou uma péssima atriz, porque não sei fingir, mas gostava muito de fazer cinema, assim uma personagem histórica, uma Padeira de Aljubarrota, uma Maria da Fonte... ou uma Rainha Santa Isabel" - depois recua - "rainha não, que não tenho veia para isso, mas uma das outras gostava".

À hora a que falamos, Maya já despiu há horas o fato de apresentadora do programa da manhã da CMTV, mas nem por isso deixa de lado a oportunidade de falar de um papel que tem especial prazer em assumir. Conta-me que em fevereiro Nuno Eiró passará a ocupar o lugar de Duarte Siopa ao seu lado e explica que foi a oportunidade de construir algo novo que a levou a deixar a SIC, ao fim de uma década. "Lá eu era mais uma, aqui fiquei para a história, sendo pioneira de um canal. E estou muito feliz porque assim posso deixar um legado para mim, para o meu filho e para os meus netos, quando os tiver."

Esses serão anos em que Maya já pensa, com um misto de expectativa e (uma grande dose de) nostalgia. "Não há nada bom em envelhecer", diz-me. O cansaço a fugir-lhe, a chegar-me em tom de desabafo: "A idade não traz nada de positivo." E logo a animar-se de novo: "Exceto sabedoria. E isso ajuda a reduzir a margem de erro." É esta a imagem que mais se lhe cola à pele: Maya - Eunice só para amigos e família - a transbordar confiança, a sorrir, a procurar o melhor ângulo, mesmo para o que parece redondamente mau.

Se ela diz que 2017 não vai ser fácil... venha o champanhe para ao menos nos prepararmos.

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