Marinha volta a permitir tatuagens. "Evoluímos", diz porta-voz

Regulamento anterior era "demasiado restritivo". Marinha quer "ser um reflexo da sociedade portuguesa"

A Marinha portuguesa voltou a aceitar recrutas com tatuagens - com exceção das tatuagens nas mãos, pescoço e cabeça, conforme avançou o Correio da Manhã. A medida entrou em vigor na semana passada, através de um despacho de 2 de agosto que revogou um de 2015. O anterior foi considerado "demasiado restritivo" e até "pouco igualitário", segundo explicou comandante Pedro Coelho Dias, porta-voz da Marinha, ao DN.

O despacho de 2015 determinava que não eram permitidas "tatuagens ou outras formas de arte corporal" que fossem "visíveis no uso de qualquer uniforme, incluindo o usado na prática de educação física e desportos" como a natação. Isto significava que os recrutas apenas podiam ter tatuagens em partes do corpo tapadas pelos calções de natação - no caso dos homens - ou pelo fato de banho - no caso das mulheres.

Para Pedro Coelho Dias isto era um fator "diferenciador de género", já que "as mulheres podiam ter mais tatuagens do que os homens". Além disso, o despacho previa que os militares que já tivessem tatuagens as retirassem, o que é "clinicamente difícil" e até "inexequível", continua o comandante.

O novo "regulamento menos restritivo" foi apresentado após um debate interno, uma comparação com as marinhas de outros países de referência - como Holanda, França, Reino Unido e Estados - e depois da análise de um estudo social norte-americano cujos resultados podem ser transpostos para a "realidade portuguesa".

Leia aqui o novo regulamento

O estudo, do Pew Research Center, descreve as "tatuagens como imagens de marca da geração milénio" - a que pertencem as pessoas nascidas entre 1980 e 2000 - e, como tal, excluí-las seria excluir parte significativa da população, continua o comandante.

Conforme explicou Pedro Coelho Dias, estima-se que 47% dos jovens sem frequência universitária tenham tatuagens e são estes os jovens que a Marinha quer recrutar para praças em regime de contrato.

O despacho de 2015 "eliminava 50% dos candidatos", explica o comandante, acrescentando que a Marinha pretende "ser um reflexo da sociedade portuguesa".

Em 2016, apenas 45% das mais de 800 vagas existentes para entrada na Marinha foram preenchidas por voluntários. O objetivo é alcançar os 90% neste ano e os 100% em 2020.

Quanto às questões de saúde, um dos argumentos para a aprovação do despacho anterior, Pedro Coelho Dias, garante que qualquer problema clínico é logo despistado nos exames na fase de recruta. "Evoluímos", acrescenta.

Ainda assim, o comandante realça que "há uma diferença entre liberdade e libertinagem" e que nem todas as tatuagens serão permitidas. "Proibimos conteúdos ofensivos" e tatuagens que discriminem em "função do género, religião, raça, nacionalidade ou etnia, ou que evidencia afiliação a grupos políticos e sociais", explicou o porta-voz.

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