Marcelo volta a fumar por causa de António Guterres

O último dia de visita a Cuba incluiu uma visita à fábrica da Cohiba. Na bagagem, o Presidente, que já não fuma "há muitos, muitos anos", levou charutos para fumar "quando Guterres prestar juramento nas Nações Unidas"

Marcelo Rebelo de Sousa já foi fumador. "Há muitos, muitos anos, fumei charutos e cigarrilhas, mais até do que cigarros", lembra o Presidente quando os jornalistas lhe perguntam se pensa levar charutos para algum amigo em Portugal. De Cuba, na bagagem, Marcelo leva mesmo charutos, mas não são para oferecer, são "para fumar quando Guterres prestar juramento nas Nações Unidas. Nesse dia, que é também o meu aniversário (12 de dezembro), sou capaz de voltar a fumar um charuto". A resposta improvisada acontece em plena visita à fábrica de charutos da Cohiba, o primeiro ponto na agenda do Presidente para o último dia da visita de Estado a Cuba.

Ao entrar no antigo palacete tornado fábrica de uma das mais conhecidas e mais caras marcas de charutos, o cheiro a folha de tabaco é bastante intenso, demasiado para quem lá chega às dez da manhã. O cansaço começa a ser evidente na cara do Presidente, que ainda assim percorre cada sala e ouve todas as explicações com a curiosidade que lhe é natural. As paredes estão repletas de fotografias de Fidel e Raúl Castro, mas também de Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela que manteve até ao fim uma excelente relação de amizade com Cuba.

El Comandante fala muito

O contexto para falar sobre o encontro com Fidel Castro não podia ser mais apropriado. A primeira descrição vem no jornal oficial do Partido Comunista Cubano, Granma, e Marcelo, que já a tinha lido, não podia estar mais de acordo. "Foi uma conversa sobre o passado, o presente e o futuro", explica o Presidente que, sem querer entrar em detalhes, sempre vai adiantando que se falou "muito de política internacional, de memórias e do estado das relações bilaterais entre Portugal e Cuba".

Para quem, como Marcelo, está mais habituado a falar do que a ouvir, foi estranho o encontro. "As pessoas não vão lá para falar, vão para ouvir", explica com a descontração de quem conseguiu um dos principais propósitos desta viagem que era conhecer pessoalmente o líder histórico da revolução cubana. "Coloquei questões e ouvi a experiência e o ponto de vista de alguém com uma vida muito cheia", concluiu.

A Fidel "coloquei questões e ouvi a experiência e o ponto de vista de alguém com uma vida muito cheia"

O dia do encontro com Fidel Castro não podia ter sido mais acertado. Quando Marcelo chegou à residência, secreta, onde mora o líder da revolução cubana, já as Nações Unidas tinham aprovado, só com duas abstenções, a resolução contra o bloqueio económico a Cuba. O assunto foi discutido entre os dois, mas o Presidente não quis alongar-se. "Foi uma conversa privada", disse - ainda que "seja óbvia a alegria dos cubanos com a resolução".

De irmão para irmão

Assume que não levou presente a Fidel, mas recebeu um livro de fotografias, devidamente autografado. Folheou-o a caminho do Palácio da Revolução, onde se encontrou com Raúl Castro. Uma reunião que correu tão bem que "era para ter durado 45 minutos e acabou por se prolongar por uma hora e meia", explica o Presidente. Falou-se sobretudo de economia, das relações comerciais entre Portugal e Cuba e dos "projetos que as empresas portuguesas têm para o país, nomeadamente na zona franca de Mariel". E Marcelo saiu satisfeito, "porque falámos de coisas muito concretas". E sobre política? "Sim, também falámos sobre política, mas não vou fazer comentários sobre esses assuntos."

Marcelo faz claramente um esforço para cumprir a diplomacia. E isso sente-se. A cheirar a tabaco, a comitiva seguiu caminho para a Universidade de Havana, onde era orador convidado para uma palestra sobre as relações entre Portugal e América Latina. Marcelo ainda quis alterar o tema para assuntos constitucionais, mas foi desaconselhado - nada que o tivesse impedido de o focar, ainda assim. Revisitou a Constituição portuguesa, de cuja elaboração fez parte, e deu Portugal como exemplo de democracia que tem crescido de forma madura e sustentada. O discurso escrito ia mais longe - falava das vantagens do multipartidarismo, mas à última hora decidiu não o fazer. E limitou-se a lembrar que em Portugal os governos são eleitos pelo povo.

Depois, deixou-se ficar longos minutos a responder aos estudantes. E uma vez mais sentiu na pele a diferença entre ser Presidente e comentador. Quando questionado sobre as relações entre Cuba e Estados Unidos, claramente atrapalhado, lembrou que na qualidade de Presidente não pode, não deve, comentar temas como esse. "Antes de ser Presidente, fui professor e comentador e devo confessar que vivemos tempos muito interessantes de análise política", afirmou, numa espécie de fuga para a frente.

Recorrentes foram também as perguntas sobre António Guterres, amigo de longa data que descreve como "um homem muito inteligente, que discursa, fala e escreve muito bem", mas cuja maior qualidade "é o coração enorme que tem". Foi também por isso, disse, que acabou por ganhar a corrida a secretário-geral das Nações Unidas.

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