Marcelo, a alma negra e uma aventura nas Desertas

Marcelo fez questão de visitar pela primeira vez uma parte do território nacional que nunca tinha sido pisado por um Presidente

O mar estava picado, as ondas altas, o vento muito forte, os planos tiveram de ser alterados. Por questões de segurança, os jornalistas não embarcaram nos botes que os levariam às Desertas para acompanhar o Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente do governo regional, a ministra da Administração Interna, o secretário de Estado da Defesa e um responsável da Secretaria Regional do Ambiente são os únicos a embarcar numa lancha da Polícia Marítima, quando a fragata D. Fernando de Almeida se aproxima das ilhas situadas a 22 milhas (cerca de 30 km) do Funchal.

"Foi a bater mais para lá, contra as ondas. Para cá, foi a surfar, vínhamos com o vento por trás e com as ondas no bom sentido", descreveria mais tarde o Chefe de Estado, já depois de voltar ao navio, onde enfatizou, por três vezes durante a conversa com os jornalistas, que era a primeira vez que um Presidente da República ia às Desertas."Um Presidente da República não pode deixar de ir a todas as frações do território português e aqui às Desertas era estranho que nunca tivesse vindo", sublinhou.

A outra razão para esta visita tem a ver com questões ecológicas e ambientais: "Este foi um parque natural premido como um dos melhores da Europa e do mundo em termos de proteção da natureza". "Vimos a "alma negra", um pequeno pássaro com um mês e outro com um mês e meio, o sítio de reprodução dos lobos marinhos e umas grutas", especificou.

Para esta terça-feira, Marcelo reservou as Selvagens, onde Cavaco Silva esteve em 2013. Ali, a questão é outra, "não é apenas curiosidade científica, mas jurídico-política", lembra. Mas não existe nenhum problema do Presidente com questões de soberania: "Não estou nada preocupado com os interesses espanhóis".

De manhã, Marcelo Rebelo de Sousa tinha passeado na Calheta, fazendo aquilo em que se sente mais à vontade: distribuindo afetos. Quase como se fosse uma arruada de campanha eleitoral. Demorou perto de uma hora a fazer um percurso de cerca de 200 metros. Parou para cumprimentar todas as pessoas que encontrou, uma a uma. Entabulou conversas, tirou fotografias. O chefe de Estado está sempre disponível para tirar fotografias. Mesmo que não lhe peçam. "Quer tirar uma selfie? Venha cá tirar uma selfie comigo".

Vestia um casaco quente, com ar de inverno, mas não dava sinais de que a boa disposição pudesse ceder ao calor tórrido da Calheta. Ao fundo, os banhistas aproveitavam para se refrescarem no mar e, de vez em quando, Marcelo atirava-lhes um olhar de inveja. Os seguranças deixam circular todos à vontade, ninguém é barrado. A mais alta figura do Estado ziguezagueia o passeio de um lado para o outro como uma criança irrequieta.

Do outro lado do passeio, gritavam por ele: "Senhor Presidente, venha cá que também somos gente". Marcelo não deixa ninguém sem resposta. "Espere lá que também vou aí". Fala sobre todos os assuntos, tem sempre troco, nunca se furta a um comentário. Uma mulher de 74 anos pede-lhe que olhe pelos idosos, tem uma reforma "que não dá para nada", e por isso só come massa.

Marcelo apalpa-lhe a barriga. "Parece que estou grávida, não é? Mas já não tenho idade para isso. É da massa, a reforma não dá para mais". O Presidente alimenta a conversa ("Tem que ter cuidado"), depois o tema passa a ser a prole (10 filhos, 16 netos e 2 bisnetos) para derrapar para a língua solta e para um marido que "maquinava bem", porque lhe fez cinco rapazes e cinco raparigas. Marcelo replica, diz-lhe que ela também contribuiu, mas ouve a tirada da pensionista madeirense: "A gente dá-se o forno e eles é que metem a pá". "Pronto, pronto, pronto", atira-lhe um Presidente da República em jeito de fim de conversa.

Enviada DN/TSF

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