"Lusofonia dá musculatura a Portugal no contexto europeu"

Depois de seis anos em Lisboa, Mario Vilalva vai ser embaixador do Brasil em Berlim. Assistiu à crise financeira e aplaude que o país tenha saído dela. Mas relembra que "se a Europa se resfria Portugal vai espirrar". Descreve ainda como de grande compreensão mútua as relações luso-brasileiras

Chegou a Portugal em 2010, vésperas do pedido de assistência financeira. Deixa agora Lisboa, quando a troika já se foi embora e o pior da crise parece ter passado. Que diferenças nota no país?

Sou obrigado a recuar um pouco no tempo. A primeira vez que vim a Portugal em trabalho foi em 1980. Encontrei um país muito deprimido, sem rumo, um país que não tinha um projeto. Regressei a Portugal em 1991. Dessa vez já para viver. Morei cá com a minha família três anos. E encontrei um país diferente daquele que conhecera em 1980. Um Portugal aí sim já com um projeto. Um Portugal que tinha deixado de ser cinza e começava a ter cores. Quis o destino que eu voltasse passados uns anos como embaixador. E aqui cheguei em 2010. Encontrei um Portugal muito melhor do que aquele que eu conhecera em 1991. Mas é verdade que Portugal nesse momento se encontrava numa crise económica, uma crise típica de dívida soberana. E o Brasil tem escola nisso. Portugal soube, com remédios que foram dolorosos, administrar a sua crise. Passou momentos difíceis e felizmente vemos que o pior passou. Mas não podemos dizer que está livre de sobressaltos. Portugal está muito vinculado à Europa, portanto se a Europa se resfria Portugal vai espirrar.

Como sul-americano, como olha para esta crise de identidade da União Europeia, desde as divisões sobre a ajuda ao Sul e os refugiados até ao brexit? Surpreende-o?

Sim e não. A Europa sempre foi modelo para os países da América do Sul. O processo de integração europeia de certa forma foi emulado com o Mercosul. Talvez por ser mais antigo e pelo facto de nós sermos herdeiros da cultura europeia. Era uma razão de inspiração para o nosso processo de integração. Claro que houve, como vocês dizem aqui, determinadas derrapagens. Mas aí é que vem aquela parte que é necessário compreender. O processo iniciou-se em 1957. Então, durante estes anos todos, era de supor que em algum momento houvesse um período de crise, sobretudo tendo em conta que começou com seis países e hoje são 28. Países com culturas, línguas e histórias completamente diferentes. É normal que em algum momento houvesse esse tipo de crise. E nós estamos aprendendo também. O Mercosul, criado em 1991 e desde 1994 união aduaneira, tem enfrentado uma série de crises. Que ocorreram porque não houve uma expansão. Os mecanismos de integração precisam de oxigenação ou atrofiam. Essa oxigenação dá-se pela expansão vertical, mais membros, ou pela expansão horizontal, novos acordos. No caso da União Europeia está a acontecer uma crise típica de um processo que há anos vem dando só resultados positivos e que em algum momento haveria de enfrentar dificuldades. Vemos isto com alguma preocupação na medida em que a União Europeia é o principal parceiro do Brasil. E olhamos também para evitar os mesmos erros. Vou dar um exemplo: quando a Europa introduziu o euro, no Mercosul começámos a falar da hipótese de uma moeda única. Agora já se colocaram freios nesse debate.

Foi nomeado embaixador na Alemanha. Passa de um país do Sul pobre para a locomotiva da Europa. Vai assistir em 2017 às eleições que podem dar o quarto mandato à chanceler Merkel. Acredita que o próximo ano pode definir o caminho da Europa?

Acho que sim, porque a Alemanha tem um papel fundamental no processo de integração europeu. A Alemanha desempenha um papel de liderança e não há nada de errado nisso. É bom que países assumam lideranças nos seus contextos geográficos. E nós só desejamos que tudo dê certo. No caso específico do Brasil, a Alemanha é o principal parceiro na União Europeia. Temos um comércio altíssimo. Há mais de 1600 empresas alemãs que operam no Brasil. O Brasil também já tem algum investimento lá. Estou muito confiante pessoalmente no futuro imediato da Alemanha.

E acredita que em 2017, aconteça o que acontecer na Alemanha e também na França onde há presidenciais, o eixo Berlim-Paris continuará a ser central na Europa?

Esse eixo pode mudar um pouco tendo em conta a saída do Reino Unido. Haverá uma espécie de embaralhamento das cartas, acomodações de poder dentro da União Europeia. Creio que a Itália vai ter um papel mais preponderante. E outros países maiores, como a Espanha e a Polónia, também vão querer dar outro tipo de contribuição.

Esta sua presença em Portugal também coincide nos extremos com o último ano de Lula presidente, com o Brasil a crescer 7,5%, e o ano da destituição da presidente Dilma, no meio da crise económica. Como vê o futuro do Brasil?

Nós passámos por uma crise política muito séria. No entanto, fico muito feliz que essa crise política tenha sido resolvida dentro do marco constitucional e dentro do marco democrático. Tudo foi feito com enorme lisura e transparência. As democracias são assim: se um governante não é capaz de liderar um processo é natural que haja movimentos no sentido de remover esse governante. É assim também nos regimes parlamentares, talvez de uma forma mais suave. No sistema presidencialista há o impeachment, que é longo, custoso, envolve a Câmara e o Senado. Nos regimes parlamentares basta um voto de desconfiança ou uma moção de rejeição e o governo cai e forma-se um outro. O regime parlamentar nesse aspeto é mais sábio. Mas o importante é que no Brasil tudo foi feito, apesar do traumatismo do processo, com transparência e democracia. E portanto há um ânimo renovado no país. Julgo que temos agora as condições políticas necessárias para enfrentar a crise económica que se instalou no país nos últimos anos.

Como estão hoje as relações entre Portugal e o Brasil e o que pode ainda ser feito para melhorá-las?

Devo dizer que as relações entre o Brasil e Portugal passam por um período de grande compreensão mútua. Eu diria até de um certo entusiasmo pelo que nós podemos construir juntos. Isto porque Portugal, por um lado, se deu conta de que o futuro dele não está apenas na União Europeia. Pela crise que passou, pela forma como a União Europeia agiu e reagiu, tudo isso levou Portugal a se dar conta de que devia resgatar um pouco do seu passado. Portugal não tem interesse em ser um pequeno país da Europa. Não quer ser uma Bélgica ou um Luxemburgo, sem nenhum demérito para esses países. Portugal tem um passado glorioso, de um grande império. Então é bom que Portugal hoje veja os países de língua portuguesa, a lusofonia, como um grande instrumento de alavancagem para o seu futuro. Ele é maior no contexto europeu na medida em que se apresenta como membro de uma comunidade que comporta países como Angola, como Moçambique, como o Brasil. Isso lhe dá musculatura no contexto europeu. Do nosso lado, o presidente Temer já esteve aqui várias vezes, e certamente também dará o seu contributo ao aprofundamento dessas relações. O futuro passa pela valorização do elemento lusófono.

Está a falar de laços económicos?

Sim. É claro que quando dizemos que precisamos de tornar a nossa língua um idioma internacional, nós só podemos fazer isso se lhe dermos substrato económico. Ninguém vai aprender uma língua se não vê nela uma oportunidade comercial. Então o esforço todo que estamos a fazer bilateralmente e com os demais países de língua portuguesa é no sentido de aumentar o nosso comércio, os nossos investimentos, a nossa cooperação em ciência e tecnologia, como estamos já a fazer. Portugal e Brasil constroem aviões, estamos fazendo biotecnologia juntos, cooperam na área do petróleo. Na área académica, hoje temos nove mil alunos brasileiros estudando em Portugal. Houve também nos últimos anos uma quantidade imensa de brasileiros que começaram a visitar Portugal. Graças aos voos da TAP para muitas cidades, é muito mais fácil visitar Portugal. E notamos que o brasileiro está encantado com Portugal. Havia uma imagem antiquada sobre Portugal. Agora os brasileiros descobrem que aqui há um país moderno, que é pujante de cultura, que tem um clima maravilhoso e que trata bem os estrangeiros.

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