"Isto é um depósito. Abandonam aqui muitas ninhadas de cães"

Aveirenses reclamam a criação de um canil no município. A existência de animais errantes pode pôr em causa a saúde pública e a segurança de pessoas, animais e bens

M. já perdeu a conta aos cães que abandonaram no terreno ao lado da sua casa. "Abrem as portas dos carros e atiram-nos. E quando são pequenos vêm dentro de caixas", diz ao DN, acrescentando que chegaram a andar pela zona "30 ou 40 cães abandonados". Vive na freguesia de Eixo, no concelho de Aveiro, onde, à semelhança do que se passa em vários municípios do país, não existe Centro de Recolha Oficial de Animais (CROA). Ao DN, os populares dizem que há cães maltratados, envenenados, atropelados.

O movimento Mobilização de Cidadãos por Um Canil Municipal em Aveiro acusa o município de "incúria e incumprimento" da legislação na área animal. "Não há nenhuma solução para os animais errantes em Aveiro. Estão à sua sorte na rua", diz a porta-voz do movimento, Marta Dutra, salientando que as associações estão lotadas. "Não há canil, nem são feitas esterilizações, pelo que a situação está a degradar-se de dia para dia", denuncia, alertando que há "colónias de gatos descontroladas, animais encontrados no lixo e atropelados com muita frequência". Recentemente, conta, foi envenenada uma matilha de dez cães na freguesia de Cacia.

Câmara diz querer canil

Esta é uma situação que se arrasta desde 2013, altura em que o canil municipal foi encerrado por falta de condições, e que tem merecido a atenção do PAN (Pessoas-Animais-Natureza). Cristina Rodrigues, da Comissão Política Nacional do partido, considera que a situação em Aveiro "é gritante". "Desde 1925 que é obrigatório os municípios terem canis", frisa. A não existência de CROA levanta, segundo a representante, vários problemas: "Não é possível fazer um controlo efetivo da população. Há animais em estado de errância que não são recolhidos, o que levanta problemas de segurança, bem-estar dos animais e saúde pública." Como grande parte dos animais não estão esterilizados, "há o problema de se reproduzirem".

Contactado pelo DN, Ribau Esteves, presidente da Câmara Municipal de Aveiro, contrapõe dizendo que "não está em lei nenhuma que é obrigatório ter canil". No entanto, prossegue, "o município quer ter um canil".

Em Eixo, o DN soube que um grupo de moradores reuniu verbas para que uma cadela fosse esterilizada. E, embora o regulamento municipal não o permita, são também os populares que compram ração para os animais errantes. "As pessoas colmatam as falhas da autarquia", critica Cristina Rodrigues.

Em várias zonas da freguesia, é possível encontrar abrigos, onde os moradores deixam água e comida. "Já conhecemos a matilha. Não fazem mal a ninguém, mas quase toda a gente se queixa que perseguem bicicletas e que atacam os gatos", diz ao DN A., que reside na zona há cerca de sete anos. "Quando me mudei, tinha dois cães. Agora tenho seis. Fiquei impressionada com esta realidade", adianta, sob anonimato.

Só no final de 2019

Tanto o PAN como o movimento criado em Aveiro alegam que o município está em incumprimento. Cristina Rodrigues cita o artigo 19.º do Decreto Lei n.º 276/2001, de 17 de outubro, "ainda em vigor": "Compete às câmaras municipais a recolha, a captura e o abate compulsivo de animais de companhia, sempre que seja indispensável, muito em especial por razões de saúde pública, de segurança e de tranquilidade de pessoas e de outros animais [...]."

De acordo com Ribau Esteves, presidente da câmara, o município integra o projeto da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA) para a criação do Centro Intermunicipal de Recolha Oficial de Animais, que prevê a criação de três polos em Aveiro, Águeda e Ovar, estando a decorrer a fase de elaboração do projeto. Segue-se depois o concurso público para a obra, que "deverá estar concluída entre o final de 2019 e o início de 2020".

Nos últimos anos, o município, garante, "tem procurado soluções junto das associações, cidadãos e clínicas para suprir a carência de não ter canil". Além disso, adianta Ribau Esteves, está a decorrer a Operação Animais de Companhia: campanhas de sensibilização contra o abandono, de legalização de animais, vacinas, entre outras medidas.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Adelino Amaro da Costa e a moderação

Nunca me vi como especial cultor da moderação em política, talvez porque tivesse crescido para ela em tempos de moderação, uma espécie de dado adquirido que não distingue ninguém. Cheguei mesmo a ser acusado do contrário, pela forma enfática como fui dando conta das minhas ideias, tantas vezes mais liberais do que a norma, ou ainda pelo meu especial gosto em contextualizar a minha ação política e governativa numa luta pela liberdade.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Crónica de Televisão

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.