Vidas suspensas. Recém especialistas deixam SNS

Mais de 700 médicos concluíram a sua especialidade em 2017. Governo não abre concurso e cerca de 40 já rescindiram contrato

Com a vida suspensa, à espera de um concurso, médicos recém-especialistas foram ontem ao Parlamento apelar aos deputados que possam interceder por eles junto do Governo. Afinal, desabafou o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, os clínicos "já não acreditam neste ministro da Saúde". E, fartos de esperar, 6% destes médicos já rescindiram contrato com o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Em abril e outubro do ano passado, 710 médicos concluíram a sua especialidade, mas ainda aguardam que Saúde e Finanças abram os concursos para os colocar no SNS. Ao contrário do que estabelece a lei, o Governo deixou na gaveta os concursos. "Neste momento, por razões que nos ultrapassam, não podemos ajudar o país", desabafou a recém-especialista Inês Mesquita.

"Estamos nos hospitais onde fizemos a formação e não nos hospitais que precisam de nós", afirmou a médica, enumerando aquilo que lhes está vedado. Não podem realizar consultas de especialidade, não podem operar ou anestesiar, são médicos com uma formação diferenciada "de 11 a 13 anos", sem que o Estado recorra aos seus préstimos. O presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, explicou que, com este travão ao concurso, o Estado está a gastar mais dinheiro. Já há "casos pontuais" de hospitais que, por falta de especialistas, recorrem à "subcontratação de médicos, pagos à hora, onde se chega a pagar o dobro do que se pagaria" aos médicos que aguardam colocação.

Questionado pelo DN sobre o número de médicos que já foram à procura de outras soluções, Carlos Cortes notou que, num levantamento feito, "30% dos médicos já assinaram contratos diretos" - são cerca de 210 clínicos: a maioria no âmbito de contratos individuais de trabalho, originando assim também situações desiguais entre estes médicos e ainda entre hospitais que podem ou não contratar nestes termos; e 6% (uns 40 médicos) já saíram do SNS, grande parte para o setor privado e quase uma dezena foi "para fora, emigraram".

Carlos Cortes acrescentou ao DN que a não colocação destes profissionais coloca outro problema: as unidades formativas de médicos "estão nos grandes centros", deixando os "periféricos", ou seja, "hospitais distritais", "à espera" destes profissionais.

A assinatura que falta...

Aos deputados da Comissão Parlamentar da Saúde, Guida Ponte, dirigente sindical da FNAM, notou que aquilo que o Estado gastou em formação com estes médicos está a ser aproveitado por outras instituições, e José Carlos Almeida, do SIM, avisou que, sem a entrada destes especialistas, "há uma maior sobrecarga para os médicos" que estão nos serviços.

Interpelado esta semana pelos jornalistas, antes da entrega da carta aberta no Parlamento, o ministro da Saúde sacudiu a água do capote. "São precisas duas assinaturas e um despacho conjunto", disse. "Este ano há um atraso maior porque o processo está no Ministério das Finanças à espera de ser concluído", afirmou o ministro Adalberto Campos Fernandes, citado pela Lusa.

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