Um ano agitado no Grande Oriente Lusitano

Fernando Lima já é o grão-mestre mais duradouro desta obediência maçónica desde o pós-25 de Abril

A realização em Lisboa da Aliança Maçónica Europeia (AME) representa o culminar de um ano de grande agitação para a organização anfitriã, o Grande Oriente Lusitano (GOL), a mais antiga obediência maçónica portuguesa.

A organização foi a votos e, pela primeira vez desde que há memória, o processo eleitoral foi renhido ao ponto de terem de se organizar duas voltas. Há ainda outra novidade: o grão-mestre reeleito, o advogado Fernando Lima, iniciou agora um terceiro mandato, algo que não tem acontecido: os líderes do GOL até Lima fizeram apenas, no máximo, cada um, dois mandatos.

Mas na verdade nada nos estatutos da organização estabelece limitação de mandatos. E assim Fernando Lima decidiu recandidatar-se, enfrentando duas candidaturas concorrentes que se revelaram fortes. Uma, a do economista Daniel Madeira de Castro, muito conhecido internamente mas nada no mundo exterior; outra, a do professor universitário e comentador político Adelino Maltez, personalidade de grande projeção mediática mas internamente controverso devido a algumas das suas opções políticas (é monárquico, por exemplo, algo heterodoxo numa organização com fortes ligações à instauração da República).

Seja como for, na primeira volta das eleições para grão-mestre, em junho, Adelino Maltez ficou à frente, com 445 votos, contra 414 para Fernando Lima. Passaram assim os dois à segunda volta, deixando para trás Daniel Madeira de Castro (374 votos). Mas até estes números serem estabelecidos ocorreram recontagens, anulação de votos, decisões das instâncias jurisdicionais internas. Num primeiro momento, a ordem dos dois mais votados foi revelada como sendo a inversa: Lima à frente, Maltez em segundo. Acabou por ser ao contrário.

A segunda volta foi no fim de semana de 24 e 25 de junho. Fernando Lima viu os "irmãos" reconduzirem-no no posto de grão-mestre, que ocupa desde 2011, com 661 votos - apenas mais 122 do que os obtidos por Adelino Maltez (539 votos). Os apoios obtidos na primeira volta por Daniel Madeira de Castro terão sido decisivos para Lima vencer novamente. Fonte do GOL disse que, de um ponto de vista geográfico, Lima teve em Lisboa os seus melhores resultados, enquanto Maltez se mostrou forte nas lojas maçónicas do Centro e do Norte do país (mais longe do poder central da organização, sediada no Bairro Alto, em Lisboa).

Numa mensagem aos "irmãos", José Adelino Maltez reconheceu que "o povo maçónico, posto perante uma escolha para a mudança tranquila, optou pela continuidade". "Contudo, quem aceita as regras do jogo vigentes - das que se cumprem às que se defraudam -, não tem de fazer análises dos resultados nem prognóstico sobre o futuro do governo da Nossa Augusta Ordem. Apenas deve concluir pela deliberação da vontade de todos e reparar que este seu ciclo de emergência maçónica chegou ao termo", acrescentou o politólogo.

No essencial, estava em causa na disputa entre Maltez e Lima um confronto entre uma visão de mais abertura para a Maçonaria (Maltez) e de menos abertura (Lima). Venceu a visão tradicionalista, do grão-mestre reeleito.

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