Tabaco mata 32 pessoas por dia. Impostos não cobrem despesas

Os impostos sobre o consumo têm vindo a subir, mas não chegam para fazer face ao que o Estado Português gasta com as doenças relacionadas com o consumo de cigarros. Há cada vez mais mulheres a fumar

Fumar é a principal causa de morte evitável em Portugal. Provoca nove em cada dez cancros de pulmão e é responsável por uma em cada cinco mortes de pessoas entre os 45 e os 64 anos. Apesar de os dados apontarem para uma diminuição de 5% no consumo desde a alteração da legislação (entrou em vigor a 1 de janeiro deste ano), há cada vez mais raparigas a fumar, o que está a provocar um aumento no número de casos de cancro do pulmão no sexo feminino. E o que o Estado recebe com os impostos sobre o tabaco não chega para cobrir os gastos com o tratamento de doenças relacionadas com o consumo de tabaco.

O relatório "Portugal - Prevenção e controlo do tabagismo em números 2015" revela que, em 2013, o consumo de tabaco matou mais de 32 pessoas por dia. Foram 12 mil num ano. No sexo masculino, o tabaco é responsável, em média, pela perda de 13 anos de vida saudável. E embora morram cinco vezes mais homens do que mulheres, estas são as principais vítimas da exposição ao "fumo ambiental".

De acordo com o presidente da Pulmonale - Associação Portuguesa de Luta contra o Cancro do Pulmão, António Araújo, o consumo diminuiu 5% desde a alteração da legislação, que veio determinar, entre outras medidas, que os maços de tabacos passariam a apresentar "advertências combinadas de saúde", ou seja, texto e fotografias a cores. Apesar dessa quebra, a associação está preocupada com o aumento que se tem vindo a verificar entre o sexo feminino.

"O consumo do tabaco, com a mudança da lei, diminuiu cerca de 5% e verifica-se neste momento que, em termos de juventude, os rapazes fumam menos e as raparigas mais, e isto poderá ter impacte nos próximos anos em termos de incidência de cancro de pulmão", afirmou ao DN o presidente da Pulmonare. Nove em cada dez cancros de pulmão estão relacionados com o consumo de tabaco e a incidência continua a aumentar, muito "à custa do cancro do pulmão na mulher", que começou a fumar mais tarde e, portanto, os cancros começam a aparecer mais tarde.

Embora seja mais facilmente associado ao cancro do pulmão, o tabaco é responsável por muitas outras neoplasias, doenças cardiovasculares e doenças respiratórias crónicas, o que tem custos significativos para o Estado. O último estudo sobre essas despesas foi feito em 2007 e apontava para 1400 milhões de euros, um número que ficará aquém da realidade. "É um estudo que não abrange todas as doenças provocadas pelo tabaco e os gastos nas famílias. É um valor que está sobredimensionado", ressalva Emília Nunes, diretora do Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo da Direção-Geral da Saúde.

Se o valor fosse esse, andaria muito próximo daquilo que o Estado recebe dos fumadores. De acordo com o último relatório sobre o tabagismo, em 2014, o Estado arrecadou 1372 milhões de euros com os impostos sobre o tabaco. Mas, segundo as pessoas ouvidas pelo DN, os custos diretos e indiretos relacionados com o tabaco são bem mais elevados. Reforçando que o valor de referência só tem em conta os principais indicadores, Hilson Cunha Filho, do conselho executivo da Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo, diz que "a situação tem vindo a piorar e o peso da doença vai-se acumulando." Segundo o especialista em tratamento da dependência do tabaco, "se não houver uma diminuição significativa no número de fumadores, os custos relacionados com o tabaco têm tendência a ser cada vez maiores".

Apesar de já existirem em Portugal mais ex-fumadores do que fumadores - 1,9 milhões contra 1,78 milhões em 2014 -, Hilson Cunha Filho diz que é preciso ter em conta que "os ex-fumadores permanecem com o risco de doença". A diminuição no consumo não é tão significativa quanto o desejável, explica, porque "as políticas relacionadas com o tabaco foram introduzidas de uma forma lenta". Para a COPPT, "a redução de exceções à proibição de fumar e a inclusão de toda a proteção possível das populações ao fumo de tabaco, nomeadamente no que concerne os grupos mais vulneráveis, como crianças, doentes e idosos, deve ser uma prioridade" do governo.

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