Ser seguido pelo mesmo médico pode reduzir o risco de morte

Especialistas em medicina geral e familiar destacam os benefícios da continuidade dos cuidados médicos, mas realçam que a relação com a mortalidade é apenas baseada em estudos observacionais

Quem é acompanhado sempre pelo mesmo médico tem tendência a aderir melhor aos tratamentos, a seguir com mais atenção os conselhos do profissional de saúde e a visitar menos vezes as urgências hospitalares. Até aqui, nada de novo. Agora, um grupo de investigadores ingleses diz que a continuidade dos cuidados de saúde também pode reduzir o risco de morte. É pelo menos esta a convicção dos autores de uma análise que se baseou em 18 estudos feitos em nove países desde 2010.

Dos 726 artigos identificados nas pesquisas, os investigadores selecionaram 22 que se encaixavam nos critérios, dos quais 18 mostravam uma ligação entre a continuidade de cuidados médicos e uma redução da taxa de mortalidade. Um fenómeno que tanto se aplica aos médicos de clínica geral como aos especialistas, cirurgiões e psiquiatras.

No estudo publicado na revista médica britânica BMJ, os autores de St Leonard"s Practice, na Universidade de Exeter (Reino Unido), destacam que esta revisão demonstra que, apesar dos numerosos avanços técnicos das últimas décadas, a continuidade dos cuidados é uma característica importante da prática médica e potencialmente "uma questão de vida ou morte". Ressalvam, no entanto, que estes são estudos observacionais e que é difícil provar que o acompanhamento feito pelo mesmo médico pode, efetivamente, reduzir a mortalidade.

Em causa poderá estar o facto de os pacientes se sentirem mais à vontade para falar com os médicos sobre o que sentem, o que permite que os profissionais acumulem mais conhecimento sobre os mesmos e os tratem melhor.

Para Jorge Brandão, vice-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), os resultados vão ao encontro do conceito de "cuidados em continuidade", uma "norma" entre os clínicos desta especialidade, "que se contrapõe com os cuidados esporádicos". Quando estes existem, prossegue, "há um maior conhecimento do médico em relação ao utente e vice-versa", o que "permite que haja um diagnóstico mais precoce de um conjunto grande de doenças".

Segundo o médico de medicina geral e familiar, é também de realçar "a existência de programas de prevenção de patologias". Com tudo isto, avança, "é possível que haja uma redução da mortalidade e da morbilidade".

Quanto mais tempo um utente é seguido pelo médico, maior é a confiança com o clínico, o que também é um fator muito importante na prevenção e diagnóstico de doenças. "Muitas vezes, o doente vem com uma queixa e por trás existem outros problemas, por vezes até de caráter emocional". Com "a continuidade, o acompanhamento e a relação", criam-se condições "para que se sinta à vontade para falar". "Isso pode ser muito útil", sublinha o médico.

"Agudizam menos"

O acompanhamento pelo mesmo profissional de saúde tem vindo a ser associado a melhores adesões às terapêuticas, a uma maior atenção aos conselhos médicos, a menos urgências hospitalares e a uma maior satisfação relativa aos cuidados de saúde.

Com base no que já é conhecido, Margarida Dias, coordenadora de Medicina Geral e Familiar do Hospital CUF Descobertas, diz que "faz sentido pensar" que "como os utentes agudizam menos, têm menos complicações e morrem mais tardiamente". Admite "que a taxa de mortalidade possa ser menor", mas não será correto "dizer que isso está provado". São estudos observacionais, ressalva, "e só por isso já levantam questões".

Devido à "multiplicidade de problemas" de saúde que existem, "necessariamente, cada pessoa terá muitos médicos, mas sem dispensar um que assuma a função de coordenador de cuidados ao longo do tempo". E costuma ser o médico de família a assumir esse papel. "Só pelos benefícios que a continuidade dos cuidados proporciona às pessoas, devemos dar-lhes a oportunidade de serem preferencialmente seguidas por um clínico".

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Nuno Artur Silva

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