Saída de enfermeiros obriga Sta. Maria a fechar camas e setor de cirurgia

Apenas foram contratados 49 enfermeiros. A unidade de nefrologia pediátrica foi transferida para um piso com menos camas

Um setor de cirurgia encerrado, unidade da pediatria transferida para outro local com menos camas, serviços como o de otorrino e urgências assegurados por internos e consultas e tratamentos em risco por falta de profissionais. Este é o retrato de alguns dos principais problemas que afetam o Hospital de Santa Maria. As causas, grosso modo, vão sempre dar ao mesmo problema: recursos humanos, ou a falta deles.

Se há menos de duas semanas o diretor de serviço de oncologia do hospital se queixou da falta de médicos na unidade, dados consultados pelo DN mostram também que o número de enfermeiros está muito abaixo do necessário: só desde o início do ano, mais de cem enfermeiros abandonaram o Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN) e nem metade desse número foi contratado para compensar as saídas.

Os padrões internacionais de qualidade nos serviços de saúde apontam para um rácio de três enfermeiros por cada médico - e a média europeia até está acima dessa bitola, com um médico para cinco enfermeiros -, mas o Santa Maria apresenta linhas que praticamente se sobrepõem nesta área: tem 1521 médicos, já contando com 127 internos, e 1849 enfermeiros, o que resulta num rácio de apenas 1,2 profissionais de enfermagem para cada médico. Mas na prática, por vezes, até é inferior. "Por exemplo, na consulta de ginecologia há duas enfermeiras para quatro médicos, se alguma falta ou fica doente, o trabalho fica posto em causa", conta um médico do Santa Maria, que relata "uma diminuição geral do número de enfermeiros".

E os números no maior hospital nacional parecem confirmar esta tese. Desde o primeiro dia do ano de 2018, saíram deste centro hospitalar 103 enfermeiros, dos quais 64 para centros de saúde - ao abrigo de um concurso aberto pela Administração Central do Sistema de Saúde -, e 39 por rescisão de contrato para irem para o privado ou para outras unidades de saúde. Em sentido inverso, foram admitidos no mesmo período de tempo 49 enfermeiros, menos de metade dos que abandonaram. As consequências fazem-se sentir nas escalas, relatam profissionais ao DN, com o aumento de horas a trabalhar sem consentimento dos enfermeiros, falsas horas extraordinárias e o aumento de baixas médicas. E também, naquilo que toca mais diretamente os utentes, no funcionamento dos serviços.

Pediatria perdeu 15 enfermeiros

Um setor da cirurgia, denominado 1B, teve mesmo de ser encerrado - "temporariamente", garante fonte hospitalar - para permitir dar resposta aos cuidados de enfermagem da área cirúrgica em geral. Ao que o DN apurou, trata-se do fecho de 22 camas, que tinham uma ocupação média de 76%. E o próprio hospital admite também que teve de reestruturar a unidade de nefrologia pediátrica, que precisava de 11 enfermeiros para assegurar todos os turnos e mudou do 7.º piso para o 9.º, onde ficou junto à zona de gastro e de infeto e perdeu camas - passou de seis para quatro. Mas "tem dado resposta às necessidades nesta área e permitiu em simultâneo distribuir os enfermeiros por outros pisos da pediatria, de onde saíram na globalidade 15 enfermeiros", sublinha o hospital em resposta ao DN, falando em mera gestão de recursos humanos e assegurando que a situação será restabelecida quando for autorizada a contratação de igual número de enfermeiros saídos.

"Não se consegue cumprir o rácio médico/enfermeiro porque o número destes últimos no CHLN é muito abaixo do necessário para dar resposta às necessidades em horas de cuidados de enfermagem na nossa instituição", reconhece fonte do Santa Maria, que acrescenta que a aposta tem necessariamente de passar pela contratação de enfermeiros, porque há um défice destes profissionais e não excesso de médicos. Afirmações subscritas pela bastonária da Ordem dos Enfermeiros, que defende que "não há falta de médicos em Portugal, estão é mal distribuídos". "Em relação aos enfermeiros há um problema de falta de recursos humanos e os quadros estão fechados, não são autorizadas contratações", diz Ana Rita Cavaco.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.