Rio reúne-se com barões do PSD. "Notícia era se eu não falasse com ninguém nesta altura"

Ex-autarca do Porto convidou para um jantar em Azeitão figuras do PSD como Nuno Morais Sarmento e Ângelo Correia

Rui Rio vai mesmo avançar com uma candidatura à liderança do PSD. "Não há margem de recuo", garantem-nos fontes sociais-democratas. Em novembro do ano passado anunciou essa intenção numa entrevista ao DN. Nas últimas semanas intensificou os contactos políticos dentro do partido, mas a hecatombe nas eleições autárquicas aceleraram o processo. O ex-autarca do Porto convidou ontem para um jantar, numa quinta em Azeitão, alguns figuras importantes do partido, entre os quais Nuno Morais Sarmento, Ângelo Correia, Feliciano Barreiras Duarte e José Eduardo Martins para discutir a estratégia e a seguir.

Rui Rio confirmou ao DN que já há algum tempo tem vindo a falar com as principais figuras do PSD e que vai continuar a fazê-lo nos próximos dias. E acrescentou: "O que era notícia é que eu não falasse com ninguém nesta altura".

"As coisas mudaram na noite de 1 de outubro, com anunciada saída de cena de Pedro Passos Coelho. Um coisa era dizer que era diferente de Passos, com o Passos na corrida à liderança, outra é não haver Passos e ter de avançar com um programa à presidência do partido", comenta uma fonte do PSD.

Isto porque todas as fontes contactadas pelo DN, dos mais variados quadrantes do partido, acreditam que Passos Coelho irá anunciar hoje no Conselho Nacional que não será recandidato à liderança, assumindo os péssimos resultados eleitorais. "Passos vai dizer amanhã não me recandidato e abre-se o processo eleitoral e ele fica até vir o próximo líder no início de janeiro, não haverá uma demissão", assegura um destacado social-democrata.

Passos assim o verbalizou na noite eleitoral: "Não vou apresentar a minha demissão do PSD por causa de umas eleições locais . O que vou avaliar é se, politicamente, faz sentido recandidatar-me a um novo mandato".

Até os críticos internos ficaram surpreendidos com a catástrofe eleitoral, sobretudo em Lisboa, Porto e Aveiro. E como não a esperavam na dimensão que teve preparavam-se para desgastar a liderança de Passos Coelho. Foi por esse motivo também que o presidente social-democrata se apressou a anunciar em plena campanha eleitoral que era recandidato ao cargo.

Há uma semana um conjunto de críticos - entre os quais Manuela Ferreira Leite, Silva Peneda e João de Deus Pinheiro, todos próximos de Rui Rio - começaram a preparar uma carta aberta com um balanço crítico do consulado de Passos após ter saído do governo e em defesa de um novo rumo para o partido. Agora que acreditam que o líder está de saída, poderá nunca chegar a ser tornada pública, apurou o DN.

Ontem, à TSF, Manuela Ferreira Leite não precisou de nenhum texto de suporte para pedir contas a Passos: "A estratégia de um partido é sempre da responsabilidade do presidente"

Montenegro fora do timing

A noite das eleições e o day after foi já de ebulição no PSD, com as estruturas do partido a movimentarem-se para contar espingardas. Um dos mais movimentados, garantem-nos foi Miguel Relvas, que gostaria de ver o ex-líder parlamentar do PSD Luís Montenegro entrar na corrida à liderança. Contudo, afirmam as mesmas fontes, "o timing de Montenegro seria outro. Jogava num confronto Rio /Passos, com um deles a ir às legislativas de 2019 e só depois avançaria". Agora consideram também inevitável que Montenegro avance se não quiser desbaratar a máquina partidária de Passos Coelho.

Críticas de viva voz

Mauro Xavier demitiu-se em abril da concelhia de Lisboa dos sociais-democratas em protesto contra a forma como decorreu a escolha autárquica do PSD na capital. E se esse processo já não augurava um bom desfecho, " a campanha correu pior do que qualquer pessoa poderia esperar", diz ao DN.

Dos resultados finais, destaca que a lista que "teve menos votos foi a da Câmara" - a da Assembleia Municipal "esteve praticamente empatada" durante boa parte da noite [terminou cerca de 4000 votos atrás do CDS] e nas juntas de freguesia o PSD ficou "largamente à frente" do CDS, perdendo uma junta [Avenidas Novas], em que o partido optou por não recandidatar o atual presidente. Conclusão a retirar: as responsabilidades pelo desaire eleitoral vão diretamente para Teresa Leal Coelho e Passos.

Dos próximos dias, o antigo dirigente concelhio espera que o líder do partido não transforme a sua reflexão num tabu e que "clarifique o que vai fazer nos próximos cinco, 10 dias" no máximo. Quanto à decisão que Passos deve tomar, não tem dúvidas: o ciclo do atual líder "terminou"."Acho que já tinha terminado nas legislativas, no dia em que caiu o governo", acrescenta Mauro Xavier, sublinhando que Passos é "ativo importante" do PSD, mas o melhor agora "é afastar-se".

Até porque "isto não foi só Lisboa e Porto". "Pedro Passos Coelho recebeu um partido com 150 câmaras e entrega-o com menos de 75. O célebre "que se lixem as eleições" [expressão usada por Passos Coelho] foi o que se chama uma estratégia bem sucedida", ironiza Mauro Xavier que, para já, não avança apoio a ninguém no PSD.

Ângelo Correia diz ao DN que já esperava maus resultados, que acabaram por ser ainda piores que o esperado. E acredita que esta "não é uma reação conjuntural" num partido que tem de avançar para uma profunda reflexão, que tem hoje "problemas de identidade", que tem de definir qual é o seu eleitorado e "tem de repensar a sua estratégia política". Três indefinições a que se somam "demasiados erros e inconsistências" de um partido que tem sido "ausente" - "Não é mau nem bom, é ausente. E essa ausência transmite-se ao eleitorado".

Quanto a Pedro Passos Coelho, Ângelo Correia defende que "não devemos demonizar ninguém". Mas diz "achar bem"se as declarações de Passos na noite eleitoral significarem uma não recandidatura à presidência do partido. E se a decisão não for essa? "Acho que ele próprio sabe que a situação nunca lhe será favorável". Quanto ao futuro, diz-se convicto que Rui Rio vai candidatar-se à liderança do partido, mas não revela se apoiará o ex-presidente da câmara do Porto.

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