Rui Rio, o homem que funciona melhor quando está furioso

Cultivou a ideia de austero na vida pessoal e política. E sente que tem mais força quando o atacam. Rui Rio quer liderar o PSD

Dele disse Miguel Veiga, fundador do PSD: "Piquem-no! É quando está furioso que funciona melhor." E Rui Rio, 60 anos, confirma que assim é. O homem que faz registo do deve e haver dos seus gastos pessoais, que gosta pouco de jornalistas, que só perde tempo a ler livros técnicos, adora carros e é agnóstico, sente-se bem quando picado.

"Quando a oposição ataca ou critica de forma maldosa e sem razão, dá-me força. Se vejo um jornal ostensivamente a fazer-me oposição, dá-me força. Se sou constituído arguido por isto ou por aquilo, dá-me força. Quando é "vamos lixá-lo", dá-me força", confessou à jornalista Anabela Mota Ribeiro, nas páginas do Jornal de Negócios, em 2009.

Que força é que agora leva Rui Fernando da Silva Rio a candidatar-se a presidente do PSD será o tira-teimas que o ex-presidente da Câmara Municipal do Porto (que dirigiu de 2001 a 2013, em três mandatos) vai ter nas próximas eleições diretas do partido, marcadas para 13 de janeiro.

Nasceu no Porto, a 6 de agosto de 1957, filho e neto de comerciantes abastados, frequentou o Colégio Alemão no Porto e desse tempo guarda a educação exigente do pai, que lhe pedia sempre mais, "nem era preciso bater": "Mantinha uma certa distância, cortava-me os brinquedos, estudava nas férias." Tinha na mãe o "refúgio" dos afetos, ele que perdeu um irmão na infância.

Do Porto não saiu, apesar do pai sonhar que, no final do Colégio Alemão, ia viver para a Alemanha, "viver para um país que tinha futuro". Licenciou-se em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto e, em 1978, aderiu ao PSD. Na sua biografia oficial, De Corpo Inteiro (2014), dele se traça o retrato de uma austeridade blindada num caráter à prova do "percurso sonhado por muitos "jotinhas"", dos "faz-tudo em voluntariado de campanha a cacique local" e "à grande viagem como assessor" até "chefe de gabinete e secretário de Estado" e daqui para os "grandes interesses e grupos de poder nacional". Rui Rio era o oposto, garante-se. "Desde cedo, entendeu seguir um caminho diferente, nunca abdicando da sua atividade profissional como economista."

Em sua defesa, lembra-se a marca que deixou quando foi secretário-geral do PSD, em 1996: o processo de refiliação de militantes, que lhe valeu críticas e críticos entre os seus pares sociais-democratas.

Nos 12 anos na Câmara do Porto deixou igual marca de rigor nas contas, como sublinham apoiantes, e atirou às malvas a cultura, valorizando antes as corridas de automóveis na Boavista, como lhe apontam detratores. E comprou uma guerra com o FC Porto e Pinto da Costa.

Depois de ter deixado a autarquia, em 2013, fez o seu caminho, à espera de "agir", como se apresenta. Para hino da campanha, recuperou Nós somos um rio das maiorias laranjas de Cavaco Silva, onde se cantava que se queria "fazer um país novo", para "cantar paz, cantar pão, liberdade". Ele que era visto como "o eterno segundo" quer agora ser o primeiro no partido. Em 2009, explicava-se ao Negócios, que se sentia bem a lutar pelas suas convicções. "Para ser consequente a lutar por elas, tenho de ter poder."

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