Rui Durval: "Sai mais caro ao Estado não comparticipar a 100%"

Coordenador do hospital de dia do Júlio de Matos e diretor do internato médico chama a atenção para o facto de os médicos terem de prescrever um tratamento mais antigo, porque é mais barato. Não comparticipar a medicação antipsicótica a 100% implica, segundo o psiquiatra, mais internamentos

Que impacto teve o fim da comparticipação da medicação antipsicótica a 100%?

A maior parte das pessoas que sofrem das doenças que necessitam deste tipo de medicação são doentes muito graves, muitas vezes de níveis socioeconómicos baixos e, mesmo quando não são, a própria doença condiciona a diminuição do nível socioeconómico. Portanto, têm muita dificuldade em financiar uma coisa que, apesar de ser comparticipada pelo Estado a 90%, ainda é cara. Se alguém se dedicasse a estudar a farmacoeconomia destes medicamentos, perceberia que sairia mais barato ao Estado financiar a 100% do que arriscar a que o doente não faça a medicação porque não tem dinheiro e venha parar durante meses ao internamento.

Muitos doentes nem reconhecem que estão doentes...

Muitos têm de fazer tratamento compulsivo por razões judiciais, ou seja, estão obrigados pelo tribunal a fazê-lo. Não reconhecem que estão doentes e ainda têm de pagar na mesma pela medicação. Os doentes psiquiátricos normalmente são o parente pobre da saúde. A imagem da psiquiatria é como se fosse uma coisa que não é bem uma doença e que não precisa de medicamentos. Por outro lado, estes doentes são muito graves, mas são só 1% da população. Não têm capacidade de defender os seus direitos, e ainda por cima são poucos. Os doentes da hepatite C lutaram pelos seus direitos e o Estado resolveu comparticipar o tratamento, que é muitas vezes mais caro do que o da esquizofrenia. Os nossos doentes, infelizmente, não têm iniciativa em função da própria doença. Não há ninguém que defenda os direitos deles.

Conhece casos em que abandonam a medicação?

Há muitos doentes a abandonar a medicação porque não querem tomá-la. Se ainda por cima tiverem de a pagar, é mais um peso. A questão prende-se, muitas vezes, com os familiares e cuidadores, porque são eles que pagam a medicação, já que muitos destes doentes não têm rendimento próprio. Alguns trabalham, mas outros não conseguem. Têm de ser os familiares ou os cuidadores a tratar disso. E pode acontecer que estes não tenham meios para isso. Se a pessoa falha uma vez, fica doente. O tratamento é fundamental para os doentes não descompensarem. Mesmo com tratamento, às vezes descompensam. Do ponto de vista financeiro, sai mais caro ao Estado não comparticipar a medicação a 100%, arriscando a que, mesmo que haja só alguns que não a tomam porque não têm comparticipação, sejam internados.

Se o doente não tomar a medicação, como se vai sentir?

A maior parte destes doentes acham que estão a ser perseguidos por extraterrestres. Acham que não estão doentes. Jogamos logo à partida com o problema de perceberem a doença e aceitarem o tratamento. Por isso é que se inventaram estes medicamentos. Uma injeção regular mantém a pessoa relativamente bem. Infelizmente, nunca ficam completamente bem. Mas ficam quase iguais às outras pessoas, digamos assim. Cada vez que um doente destes não cumpre a medicação porque não a tem ou não a consegue comprar, é internado e agrava a doença, que fica mais difícil de tratar.

A solução é optar por um medicamento mais barato?

Isso é uma coisa um pouco injusta. O hospital fornece medicação mais antiga, que é útil na mesma, mas a mais recente tem menos efeitos adversos e oferece melhor qualidade de vida. Temos de fazer uma coisa indigna, que é, em vez de dar o tratamento que é o melhor para o doente, dar o mais antigo porque é mais barato.