Rio promete descentralização mas já não fala em regionalização

Candidato à liderança diz que vai "começar por dentro", para que o PSD não seja mais "os mesmos a falar com os mesmos

"Regionalização" parece ter-se tornado uma palavra tabu no léxico de Rui Rio. O candidato à liderança do PSD apresentou esta noite, em Leiria, a sua moção de estratégia global para o partido - "Do PSD para o país" - e não se cansou de enfatizar a necessidade de uma "reforma do Estado" assente na descentralização.

Contudo, sobre regionalização que sempre defendeu, contra o sentido maioritário do partido - nem uma palavra no seu discurso. E mesmo na moção apenas consta uma referência à "experiência das Regiões Autónomas" como um "um exemplo de como se torna urgente contrariar o centralismo e a macrocefalia da capital."

Rui Rio sustentou num forte ataque ao Estado central a sua prioridade à descentralização: "Um Estado centralista é mais débil e mais vulnerável", é "mais desorganizado", "defende pior os cidadãos" (como, exemplificou, se viu nos incêndios de verão e no caso do assalto a Tancos) - enfim, "não há nada de bom num estado centralista e num Estado concentrado", a "boa gestão depende da proximidade". Além do mais, insistiu, há 20 anos a dívida pública era de 60% do PIB e hoje é mais do dobro (127%), ou seja, "centralizamos mais e mais do que duplicamos a dívida pública", por culpa de uma "administração central incompetente".

Num auditório (com capacidade para 250 pessoas) da Associação Empresarial de Leiria, e perante uma plateia cheia, Rui Rio apresentou a sua moção como "as margens da estrada" para o caminho que quer percorrer até à elaboração de um programa eleitoral, programa em que quer a participação de todo o PSD mas também de independentes que queiram colaborar.

Como não podia deixar de ser, o candidato voltou a apresentar a escolha em causa nas eleições diretas do PSD como uma escolha em que se deve valorizar o candidato que é melhor do ponto de vista dos eleitores e não do ponto de vista dos militantes. "O PSD não se pode divorciar dos portugueses, o PSD tem de estar em comunhão com os portugueses, nós temos de ser Portugal. É absolutamente vital que a escolha seja o mais consentânea possível com a vontade dos portugueses fora do partido", afirmou.

Para já, caso vença, o que importa, no seu entender, é "começar por dentro, o que até nem é muito difícil". Ou seja, "abrir o PSD à sociedade", "ter nas suas fileiras os mais capazes nos seus setores de atividade", "crescer em militantes e chamar os militantes à participação", "dar vida ao partido à escala local e à escala nacional" - tudo para que o PSD não seja o mesmo que é "há não sei quantos anos, os mesmos a falar com os mesmos". E, pelo meio, fazer uma aposta forte na "formação política" dos militantes.

Do ponto de vista da governação do país, definiu "três metas claras": primeiro, "contas equilibradas" - mas "não porque a UE diz que têm de estar equilibradas mas porque é necessário"; depois "redução da dívida pública" - algo que, admitiu, até "está a ser conseguido" - e tanto no valor percentual (face ao PIB) como no valor absoluto; por último, iniciar uma "trajetória de redução do peso da despesa pública", embora "paulatinamente, de forma sustentada e realista mas firme" e "não à machadada". Meta estratégia a prazo: pôr Portugal na metade mais rica da Europa (atualmente está na metade mais pobre), o que implica, segundo reconheceu, pôr "o PIB a crescer acima da média europeia".

Para a política externa, defendeu uma mudança de agulhas, com prioridade à visão atlântica. Recordando que navegadores portugueses descobriram ilha do Porto Santo há 600 anos e Portugal só é da UE há 30, o candidato explicou: "Somos os pioneiros da globalização e isso é fundamental para o que queremos fazer da nossa economia. [O PSD] quer um país europeu mas um país europeu de vocação atlântica" e "não pode desprezar o ativo de ter a língua mais falada do hemisfério sul", apostando portanto nas relações com África e com o Brasil. Precisa também, no governo, de promover políticas públicas "estáveis e coerentes" de incentivo ao empresários portugueses que investem no estrangeiro sendo que, segundo elogiou, os números até demonstram que esses empresários existem (em 2010 o peso das exportações no PIB era de 29% e em 2015 já ia em 41%, exemplificou).

Em síntese: "Temos de fazer a reforma do Estado na forma como é governado e na forma como é gerido."

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