Queluz vai ter contrato local de segurança. Ali, só o palácio é um oásis

Moradores e comerciantes da Avenida Miguel Bombarda, antigo coração nobre de Queluz, queixam-se de vandalismo e roubos. Junta de freguesia quer videovigilância

O Palácio Nacional de Queluz, monumento evocativo do barroco, marca uma fronteira naquela cidade do concelho de Sintra - de uma zona limpa, ajardinada e segura para o centro, a Avenida Miguel Bombarda, uma artéria nobre transformada, segundo os moradores, num "antro de insegurança, lixo amontoado e má iluminação", como descreve Maria, uma residente antiga da zona. "O foco do problema está nos cafés das pracetas da avenida abertos até de madrugada e que se enchem de bandos de jovens responsáveis por atos de vandalismo e roubos", acrescenta, sintetizando o que têm sido as várias queixas dos moradores e comerciantes da Miguel Bombarda para a PSP, para a junta de freguesia e também num fórum da internet que criaram para os desabafos.

Desde 1 de setembro, a PSP local registou 17 denúncias por ruído na via pública, 6 agressões e 3 roubos por esticão, segundo dados avançados ao DN pelo comissário António Lobato, que comanda a esquadra local com 54 efetivos.

A presidente da junta de freguesia Queluz e Belas (PS), que governa uma população de 52 337 habitantes, reconhece esses problemas, que até já foram levados a reunião de Câmara, mas desvaloriza a dimensão dada pelos moradores e garante que "não se trata de criminalidade organizada". "Tivémos uma reunião na Câmara de Sintra em que discutimos um contrato local de segurança (CLS) que abrange as zonas desde a estação de Queluz até ao bairro do Pendão, na parte alta, onde habitam várias comunidades", afirmou Paula Alves. O CLS é um instrumento que define parcerias entre a administração central, a polícia e as comunidades para garantir maior segurança.

Para além disso,a presidente da junta de freguesia Queluz-Belas ambiciona a instalação da videovigilância na zona. No concelho vizinho da Amadoraforam instaladas 103 câmeras, com o apoio declarado da população e dos comerciantes. Paula Alves diz que essa medida de dissuasão do crime para Queluz já constava do seu programa eleitoral. "Estou em contacto com a Câmara para virmos a ter videovigilância na Avenida Miguel Bombarda e outras zonas. Os comerciantes, que tenho recebido aqui na junta, queixam-se de os grupos de jovens que ali ficam à noite deixarem garrafas de vidro no chão, dejetos e de fazerem ruído".

"Festas de rua e pancadaria"

Quem atravessa a pé da estação de Queluz até à Avenida Miguel Bombarda constata como as comunidades guineense e cabo verdianas se fundiram com a antiga população da cidade, quer pelos jovens e trabalhadores africanos que se veem nas ruas quer pelas lojas e mercados africanos misturados com o comércio tradicional, as lojas lycamobile e os cafés de kebabs dos indianos e paquistaneses.

"Nas pracetas aqui da Avenida há uns cafés abertos até tarde de noite onde fazem festas de rua e de vez em quando há pancadaria", conta Vítor Bajoca, dono de um quiosque de venda de jornais situado a meio da Miguel Bombarda. "Esses jovens urinam na rua, de manhã temos garrafas de vidro para limpar, partem vidros das janelas", lamenta. "Já me levaram coisas do quiosque e até me tentaram passar notas falsas, uma vez".

Localizada em frente ao quiosque, a Praceta Major Aviador Humberto Cruz tem uma frutaria que já serviu de fachada para um bar - e que agora é apenas frutaria - e dois cafés que abrem ao fim da tarde e funcionam por vezes até de madrugada. A brasileira Marsele , de 30 anos, dona da frutaria, está ali há apenas 15 dias mas foi o tempo suficiente para tomar conhecimento de "uma briga entre dois rapazes há noite, ali à saída do bar, que acabou numa confusão com vários envolvidos". O café/bar ao lado tem os vidros da frente partido com fitas de cola castanha a remendar. No último fim de semana a PSP levantou cinco autos de contraordenação aos proprietários daqueles bares por incumprimento de horários, ruído, falta de licença ou de extintores, etc, como referiu o comissário Lobato. Mas essa atividade policial não é percecionada na zona. "A polícia raramente passa aqui", diz o dono da ouriversaria Cruz- que chegou a ser assaltada à mão armada seis vezes há já seis anos. "O crime violento passou mas continua a haver aqui roubos por esticão. Ainda outro dia vi uma senhora ser roubada quando atravessava a passadeira: levaram-lhe o colar", contou.

Numa deslocação do DN ao local com uma patrulha da PSP, o comissário António Lobato explicou que muitos das casas antigas da avenida Miguel Bombarda "vagaram e não foram ocupadas por famílias da zona mas por pessoas de etnia africana. Os residentes antigos são idosos que veem o seu espaço invadido. Mas não podemos expulsar os jovens".

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Quando se tornou evidente que o sistema tinha quatro partidos nacionais, as eleições andaluzas revelaram a irrupção de um antes moribundo Vox, um partido que apela a temas rotulados como de extrema-direita, e que as sondagens já veem no Parlamento nacional. Passarão a ser cinco? Como é que em poucos anos tudo mudou? Penso que há quatro fatores que ajudam a explicar esta transformação.A crise de 2008 Fundado a partir do movimento dos indignados (que liderou as manifestações contra os efeitos da crise), o Podemos concorreu às europeias de 2014 e teve 8%. Em 2015, nas legislativas, teve 20%. Nunca a esquerda anticapitalista, antissistema, adepta da democracia direta, tinha tido tanto voto. Mas enquanto o PSOE era a cara da crise e o PP aplicava a austeridade, Iglesias tinha tudo a favor: outsider, fora de casos de corrupção, podia prometer, dominava as redes sociais e não saía da televisão. Era o tempo em que o Podemos sonhava com o sorpasso. Parecia imparável. E é normal. Em tempos de crise, de desespero, não é possível exigir às pessoas que não cedam a discursos fáceis: as pessoas querem autenticidade e política - o economês deixa de relevar e as caras antigas soam a passado. Entretanto, o Podemos foi perdendo votos e vigor à medida que se foi revelando. O seu n.º 3 empregava precários, o seu n.º 2 recebia dinheiro da Venezuela, e Iglesias comprou casa de milionário, exigiu a tutela dos serviços secretos e ainda nesta semana pediu desculpa por coisas que disse há anos. O Podemos continua relevantíssimo, mas ninguém o imagina imparável. Não colhe a tese de que temos de nos converter ao populismo para ganhar. O maior inimigo do populismo é o tempo. Mas não podemos confiar apenas no tempo ou achar que o populismo surge inevitável em determinados contextos: o populismo tem de ser combatido diariamente. Porque o Podemos esteve quase lá.Uma corrupção entranhada Nem PSOE nem PP têm bom registo em matéria de corrupção. Mas durante a governação de Rajoy a sucessão de casos envolvendo o PP foi tal que o partido passou mais tempo a explicar-se do que a apresentar os resultados da economia. Foi um vendaval. O filão era bom demais. A cada caso, lá vinham Iglesias e Rivera falar de ética, apresentando o seu bom cadastro. O PSOE bem tentou, mas tanto vidro no telhado não ajudou. A corrupção entranhada, sistémica, é hoje mortal: expulsa os eleitores, empurrando-os para quem souber assumir a renovação, independentemente das suas ideias. Já não dá para esperar que passe. Tem de se agir depressa, e isso nem sempre é fácil, até perante o risco de judicialização da política. Um sistema político, por mais estável que seja, pode hoje ser transformado de alto a baixo por causa de um caso de corrupção. Uma má decisão judicial, uma errada avaliação administrativa, um qualquer caso que há anos passaria incólume, podem ser o gatilho de um movimento imparável, agregando o descontentamento. É bom que se tenha noção disso. Em 2011, o PP parecia destinado a governar oito anos sem problemas. Hoje, todas as figuras de 2011 estão na sombra. Uns presos, outros demitidos, outros no meio de escândalos. E nenhum partido é imune a casos destes - a diferença está na forma como se reage a eles.A reação ao independentismo O Ciudadanos nasceu na Catalunha em 2006, com um discurso contra o independentismo tão vigoroso que dirigentes nacionais do PP o elogiavam. Conseguiram dar o salto nacional em 2015, quando a questão catalã se tornou nacional graças às ameaças do governo autónomo, que preparava aventuras referendárias e provocações várias, muitas xenófobas. Para a maioria dos espanhóis, que é soberanista, o independentismo é uma ameaça ao seu mundo, ao seu modo de vida. A tibieza de Rajoy a lidar com os independentistas e de Sánchez a demarcar-se deles tornaram o Ciudadanos uma opção: ganhou as eleições na Catalunha e foi, além do soberanista Vox, o único a crescer na Andaluzia; a nível nacional, ficaram em quarto, atrás do Podemos, mas as sondagens mostram-no a crescer consistentemente. O tempo é um bom aliado. Rivera nunca precisou de ser extremista, o que é resposta aos que dizem que só os extremismos podem crescer. E percebeu que em questões políticas - o independentismo e a corrupção - as pessoas querem respostas políticas. Os bons resultados da governação não chegam para animar. É aliás visível que o novo líder do PP já percebeu isso, e ainda bem. Do que as pessoas precisam, num momento em que o seu mundo é colocado em causa, é de assertividade e de liderança política, e para isso não é preciso lunatismo. Mudança sensata era um dos slogans de Rivera. Não se deu mal com a afirmação da sensatez.A indignação com a influência dos radicais O atual governo do PSOE converteu-se numa normalização de partidos pró-ETA, de independentistas e de extrema-esquerda. Têm hoje um papel político e mediático mais central do que nunca. É impossível não esperar indignação, uma contrarresposta, não só dos moderados mas também de outros radicais que, nessa normalização, encontram legitimidade. Essa normalização começou antes de Sánchez. O Podemos conseguiu um relevo mediático ímpar desde a fundação, passeando-se pelo espaço público com uma superioridade moral inaceitável num simpatizante de ditaduras e ternurento com terroristas. O PSOE não soube o que fazer, temendo a pasokização: aproximar-se podia ser fatal, distanciar-se podia ser amuo. O PP ignorou-lhes o magnetismo, confiando que os resultados da economia bastavam. Deixaram-no a sós na arena. Foi um erro colossal. Por um lado, porque foi enganando muita gente, com o jeito manso que esconde o fanatismo. Por outro, porque o eleitorado moderado, atacado, acusado, caricaturado, por um Iglesias cada vez mais cheio de si e ofensivo, sentiu-se órfão. E quando os moderados se sentem órfãos, quando os seus partidos parecem não reagir, podem bem encontrar espaço noutros radicais. A relativização de um extremo é um erro que se paga caro, uma espécie de convite ao extremo oposto. A irrupção do Vox explica-se assim. E, sem o Ciudadanos, o Vox, que já existia, teria irrompido mais cedo.Portugal Não podemos extrapolar estes fatores diretamente para Portugal, mas eles podem ajudar a detetar tensões e movimentações, assim como podem servir de aviso ou guia de reação. Não penso que estejamos imunes a fenómenos destes. Há populismo de esquerda em Portugal, tão aceite e entranhado que há quem só esteja à espera de um gatilho para reagir. Mas sobre Portugal terei tempo de escrever noutra oportunidade.

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Crónica de Televisão

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É uma inevitabilidade clínica. Por muitos cuidados que tenha com a saúde, por mais que procure fazer exercício ou manter dieta equilibrada, há um risco a que qualquer televisão está sujeita: a estreia de um novo drama passado num hospital. Resistindo a todos os esforços para a erradicar, a "série sobre médicos" continua a florescer, irrompendo em surtos pontuais, tão ou mais comuns e incontroláveis do que os surtos das suas congéneres etiológicas, a "série sobre advogados" e a "série sobre polícias".