PSD de rastos fica sem Passos e PCP complica geringonça

As expectativas já eram muito baixas, mas a hecatombe do PSD superou todas as previsões

"O resultado muito pesado" levou Pedro Passos Coelho a assumir a responsabilidade política e a prometer uma reflexão, que é uma porta aberta à saída da liderança do PSD. Passos, como sempre disse, não se demite por causa das eleições autárquicas, mas admite que há uma leitura nacional a fazer. A reflexão será pessoal e não "demorará muito" a ser conhecida. De resto, pelo que foi dito ao DN por uma fonte que esteve ontem na São Caetano à Lapa, a intervenção que fez não foi acertada com os membros da Comissão Permanente. Entre os seus apoiantes já é dado como certo que Passos não vai recandidatar-se.

Sem Passos a vida fica mais difícil para os passistas, mas o mais provável é que apresentem um candidato. Luís Montenegro é visto como um futuro candidato à liderança, mas estaria guardado para mais à frente. Ontem, o ex-líder parlamentar não se fez ouvir. Em silêncio ficou também Rui Rio que está "obrigado" a candidatar-se, depois de ter dito em entrevista ao DN que um mau resultado do PSD o podia fazer avançar.

Na noite eleitoral, a derrota pesada sofrida pelo PSD ficou mais difícil de gerir, porque cedo se percebeu que a vencedora da noite era Assunção Cristas. Não foi a esquerda que derrotou a direita, foi o PSD que perdeu. Na derrota só teve a companhia do PCP. Manuela Ferreira Leite percebeu esse embaraço no primeiro momento e, na TVI, foi rápida a concluir que Pedro Passos Coelho "não tem condições" para continuar a liderar o PSD.

Pacheco Pereira, na SIC, também não teve dúvidas: "O facto da noite eleitoral foi a derrota do PSD." O mesmo tinha dito Marques Mendes, para quem Passos Coelho deve "sair de cena para que o partido faça uma reflexão". O ex-líder do PSD foi mais longe e garantiu que "a vida dele vai ser um inferno completo", se quiser continuar à frente do partido. E até Santana Lopes, que tinha defendido antes das eleições a continuidade de Passos Coelho, se mostrou surpreendido com a dureza dos resultados, considerando que há "uma desilusão eleitoral muito significativa".

A vitória de Cristas

António Costa quis falar de uma derrota da direita, mas Assunção Cristas e o CDS foram os primeiros a cantar vitória. Mais mandatos e mais câmaras, mas sobretudo um resultado histórico em Lisboa com quase o dobro dos votos do PSD, permitiram a afirmação definitiva da líder centrista.

A vitória do CDS também esteve na mais mediática das vitórias de uma candidatura independente. Sendo certo que Rui Moreira foi eleito até contra os partidos, o CDS foi o único a poder colar-se a esta vitória. Repetiu o apoio de há quatro anos, depois de se ver livre de uma coligação com o PS e que Moreira acabou por rejeitar.

Geringonça com uma roda empenada

O grande vencedor da noite foi o Partido Socialista que conquistou câmaras à esquerda e à direita, mas essa vitória tem um preço que os socialistas não pretendiam pagar. A transferência de câmaras dos comunistas para o PS vai dificultar as relações na geringonça.

Jerónimo de Sousa e o PCP, contrariando as expectativas, assumiram a derrota. Haverá ainda muito para analisar, mas para o PCP é já certo que a geringonça, tendo dado uma grande vitória ao PS, não teve o mesmo efeito junto do eleitorado comunista. Jerónimo foi claro a mostrar a sua desilusão: "As derrotas da CDU são sobretudo uma perda para as populações." A liderança comunista não percebeu que mesmo aqueles que com eles falam na rua, elogiando a atitude do PCP na geringonça, não lhes tenham dado o voto para reforçar a ação comunista.

António Costa bem tentou dividir os louros da vitória com os seus parceiros parlamentares, dizendo que ela representa um reforço do que foi iniciado há dois anos. E saiu mesmo em defesa do PCP, argumentando que "só há um derrotado nestas eleições, o PSD", acrescentando que não vale a pena "procurar outros derrotados". Mais claro ainda: "A vitória do PS não é a derrota de nenhum dos nossos parceiros parlamentares."

O problema para o líder do PS é que a sua vitória terá mesmo repercussão na vida interna do PCP. Os comunistas não perderam pequenos concelhos no Alentejo. Lidar com uma derrota dos comunistas em Almada, Barreiro, Peniche e Beja não será apenas um problema de Jerónimo de Sousa.

O terramoto político teve epicentro na São Caetano à Lapa, mas haverá réplicas que vão fazer-se sentir na Soeiro Pereira Gomes. Se a negociação do Orçamento do Estado já estão adiantadas, é certo que o que falta fazer tem agora dificuldades acrescidas. Mais difícil será gerir a geringonça nas próximas legislaturas. É provável que a contestação social e a luta dos sindicatos volte a ganhar força.

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