Portugal vai atualizar lista negra com novas drogas

Proposta do governo, que segue as recomendações da União Europeia e Nações Unidas, debatida hoje no Parlamento. Europa tem mais de 560 substâncias vigiadas

Portugal prepara-se para atualizar a lista de substâncias proibidas. A proposta de lei vai hoje a debate em plenário na Assembleia da República, seguindo as recomendações da União Europeia e das convenções Nações Unidas de controlo internacional de drogas. São sete novas substâncias - Portugal já só tem de acrescentar três à lista negra - sintéticas consideradas graves por estarem associadas a casos de morte em vários países europeus.

Portugal notificou uma morte ocorrida em 2015 associada a uma nova droga, caso que foi notificado ao Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência através do sistema de alerta rápido. As novas substâncias sintéticas são um motivo de forte preocupação entre as autoridades nacionais e internacionais: mais de 560 são vigiadas da agência europeia. Só no ano passado foram detetadas pela primeira vez 98 novas drogas psicoativas.

Esta será a 22ª alteração à lista portuguesa. São produtos sintéticos, alguns com efeitos semelhantes ao da cocaína, metanfetaminas, com efeitos mais potentes e duradouros, vendidos através da internet e por traficantes de rua. Há o caso de uma substância que é vendida como tendo fins de investigação ou como substituta legal do LSD e outra que tem um nome parecido com um medicamento e que está a associada a várias casos letais.

"Das sete substâncias que constam da Proposta de Lei n.º 35-XIII, quatro delas já constam da lista anexa à Portaria 154/2013 e estão já sujeitas a medidas contraordenacionais e não penais", explica João Goulão, presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). A atualização permitiu que muitas das drogas que eram vendidas como legais nas chamadas smartshops deixassem de o ser.

Mas o perigo permanece, sobretudo através da internet. O trabalho conjunto da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) passa pela "definição de perfis de risco de rotas atendendo a que o comércio se faz por meio digital e, consequentemente, distribuídas as encomendas por via área", adianta João Goulão, explicando que sempre que uma encomenda é intercetada, a AT comunica à ASAE e esta ao SICAD. Um trabalho que fica completo com a ajuda do Laboratório Científico da Polícia Judiciária (ver texto ao lado).

"No quadro desta atuação, em 2014 a ASAE, após a realização de análise, identificou a substância etilona que não se encontra abrangida na lista das substâncias psicoativas, apesar de ter uma estrutura e de ter efeito semelhante à metilona, que pertence à lista", refere o responsável. "A mimetização de substâncias abrangidas por legislação que proíbe ou criminaliza a produção e venda é uma característica das novas substâncias psicoativas, as quais são alteradas por via de uma simples mudança molecular e assim ficam (ainda que temporariamente) num vazio legal nos estados da União Europeia e países membros das Convenções das Nações Unidas."

Portugal também contribui para a deteção de novas drogas. E à semelhança de outros países tem registo de casos mortais. "Portugal tem registo de uma morte envolvendo a 2 - (3 - metoxifenil) - 2 - (etilamino) ciclo - hexanona (metoxetamina), ocorrida em 2015 na Comarca de Aveiro. Esta ocorrência foi reportada por Portugal no questionário do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodepência sobre novas substâncias psicoativas para o período de janeiro a dezembro de 2015" através do sistema de alerta rápido.

Números sempre a aumentar

O Observatório Europeu da Drogas e da Toxicodependências tem mais de 560 novas substâncias psicoativas em vigilância. Mas todos os anos surgem pela primeira vez no sistema novas drogas. E o número tem estado a crescer: 73 em 2013, 101 em 2014, 98 em 2015. Ainda não existem dados disponíveis deste ano.

Ao DN o organismo explica que também a deteção de novas drogas que já tinham sido notificadas está a subir na Europa: 299 em 2013 e 365 em 2014. "O mesmo tem acontecido com o número e a quantidade de novas substâncias psicoativas apreendidas", diz.

Em 2014 foram efetuadas "quase 50 mil apreensões de novas substâncias, equivalentes a quase quatro toneladas. Muitas destas substâncias são muito mais potentes do que as drogas controladas correspondentes", refere o Observatório, adiantando que "a lista de novas substâncias notificadas foi dominada pelos canabinóides sintéticos e pelas catinonas sintéticas. Em conjunto, os dois grupos representam quase 80% das 50 mil apreensões".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.