"Portugal e Espanha são dois bons exemplos de superação das dificuldades"

Mariano Rajoy fala ao DN sobre relações luso-espanholas, recuperação económica e luta contra independentismos

Presidente do governo espanhol desde 2011, Mariano Rajoy aceitou dar esta entrevista por escrito ao DN por ocasião da visita de Estado do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que hoje se inicia em Madrid com uma receção no Palácio Real oferecida por Felipe VI. Pedida há vários meses, de início para constar na edição de aniversário do DN a 29 de dezembro de 2017, a conversa, que era para ser presencial, foi sendo adiada devido à agenda cheia de Rajoy, que, porém, fez questão de não perder esta oportunidade relacionada com a deslocação do Presidente, que surge na sequência da visita também de Estado efetuada pelos reis de Espanha a Portugal em novembro de 2016.

Espanha é o único vizinho de Portugal, também é o nosso principal sócio económico, ao mesmo tempo que um velho rival histórico que se transformou num amigo muito admirado. O que significa Portugal para os espanhóis hoje em dia?

Portugal para os espanhóis, mais do que um vizinho, é um irmão. Evidentemente existe uma relação geográfica, mas para além disso penso que em primeiro lugar partilhamos uma história; segundo, uns valores comuns em relação à democracia, à liberdade, aos direitos humanos; temos a mesma visão do mundo e da Europa; e temos de enfrentar uns desafios parecidos. No aspeto económico e comercial creio que temos uma relação verdadeiramente importante, sendo Portugal um dos nossos principais clientes no mundo e um dos nossos fornecedores mais destacados. Há mais de duas mil empresas espanholas com presença em Portugal e mantemos relações económicas de primeiro nível, algo que considero muito positivo para ambos. Espanha e Por-tugal são dois bons exemplos de superação das dificuldades. A mais recente delas é a crise económica que ambos sofremos. Somos dois países com um futuro muito importante no mundo. E quanto mais nos entendermos, melhor para ambos.

Que novidades pode trazer esta visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a Espanha? Vão ser preparadas novas formas de cooperação?

Estamos sempre a procurar novas formas de cooperar, é o nosso habitual habitat político. É importante continuar a colaborar nas questões que temos estado a realizar nos últimos anos. Estou a referir-me especialmente às interconexões, tanto as infraestruturas de comboios e estradas como as interconexões energéticas e tudo isto com o apoio da Europa, como ficou patente no ato a que assisti em Elvas no passado dia 5 de março com o primeiro-ministro, António Costa. Um ato muito importante em que assumimoso compromisso de continuar a tra-balhar para promover o corredor Atlântico. Penso que o importante nestes encontros é continuar a aprofundar a sintonia que já temos e nos projetos comuns.

As águas dos rios partilhados e a central nuclear de Almaraz são pontos de discórdia?

Bom, mais do que de discórdia são de diálogo. Construtivo, isso sim. Em relação a Almaraz penso que já esclarecemos as preocupações que existiam, graças precisamente às boas relações e à confiança entre ambos os países. No ano passado chegámos a um acordo amigável para troca de informação a nível técnico sobre o armazém e isso permitiu que os nossos colegas portugueses estivessem tranquilos. Com esse espírito resolvemos cada uma das questões que surgem entre ambos os países e penso que, além disso, com Por-tugal é fácil entendermo-nos.

Como vê a solução de governo apoiada pela esquerda em Portugal?

Não costumo dar opiniões acerca do que escolhem os cidadãos dos outros países ou sobre as alianças políticas que surgem. O importante é que Por-tugal tenha estabilidade para continuar a crescer e a deixar para trás uma crise que nos afetou notavelmente a ambos. Eu entendo-me muito bem com o António Costa, como também tinha uma boa relação com o Passos Coelho. Ao António Costa também lhe agradeço especialmente o apoio que nos deu na crise. É de grande senso comum.

Como está a saída espanhola da austeridade em termos de crescimento do PIB e da redução do desemprego?

Em Espanha passámos uns anos de crise terríveis. Quando chegámos ao governo o défice era de 9%; durante a crise destruíram-se mais de três milhões e meio de postos de trabalho, a economia estava a cair a pique em todos os indicadores, o prémio de risco estava nas nuvens, tínhamos enormes dificuldades de financiamento, era tudo preto. Desde essa altura até agora os espanhóis fizeram muitos esforços. O meu governo começou uma árdua tarefa de reformas e ajustamentos e os resultados agora, finalmente, estão à vista. A economia espanhola cresceu em 2017 acima dos 3% pelo terceiro ano consecutivo, encadeou quatro anos de crescimento; o nosso défice está nos 3,07%; o emprego aumenta a uma taxa anual próxima aos 3% e já recuperámos toda a riqueza destruída e mais de metade dos empregos perdidos. Ainda falta muito por fazer, mas Espanha está outra vez à cabeça da Europa no crescimento económico e na criação de emprego, e é para estarmos contentes, mas insisto que é preciso continuar a trabalhar para consolidar o crescimento e para que a recuperação chegue a cada lar espanhol. Apresentamos uns orçamentos que são o reflexo desta situação, uns orçamentos em que podemos gastar mais e melhor, em que, graças à recuperação económica que o meu governo promoveu, podemos melhorar as pensões, aumentar os ordenados aos funcionários e incrementar os investimentos em toda Espanha. São umas contas eminentemente sociais, que agora outros partidos têm de nos apoiar, mas espero que seja assim porque são uns orçamentos muito bons.

Catalunha, País Basco e a sua Galiza natal, Extremadura, Andaluzia, as duas Castelas, etc., etc. Como vai a Espanha diversa defender a sua unidade perante o desafio independentista?

Primeiro, com a lei, porque é o que nos faz a todos iguais. A Constituição ampara-nos e protege-nos dos abusos que alguns queiram cometer. E o governo, o meu e o de qualquer outra pessoa, tem como principal tarefa cumprir e fazer cumprir a lei. Os líderes independentistas catalães decidiram realizar os seus planos de rutura sem ter em conta uns e outros, e nem sequer são 50% da população catalã, que não quer cortar com Espanha. Para isso atropelaram as leis que estabelecemos entre todos para conviver, para ser solidários, para caminhar juntos, e não tivemos outra opção que não fosse aplicar o mandato constitucional que permite ao Estado defender-se em caso grave de deslealdade de uma autonomia. Espanha, como disse, é diversa e muito plural, e é provavelmente um dos países mais descentralizados do mundo; e essa é uma das nossas fortalezas, mas, como qualquer país sério, baseia-se no princípio fundamental que é o respeito pela lei. Nunca até agora se tinha questionado esse princípio por parte de nenhuma autonomia. Por isso, é de agradecer muito o apoio que tivemos e estamos a ter dos nossos sócios europeus. Toda a gente compreende que os planos dos independentistas, se tivessem tido êxito, significariam o fim do projeto europeu.

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