Porto Editora. Destruição de gráfica pode atrasar livros escolares

Há uma semana que não saem livros das máquinas da impressão, numa estrutura que costumava produzir 80 a 120 mil livros por dia e respondia a 10 mil encomendas diariamente

A Porto Editora já anunciou que a sua unidade gráfica, na Maia, parcialmente destruída na semana passada devido ao mau tempo, o que provocou milhões de euros de prejuízo, deverá estar "totalmente reconstruída" até ao final deste ano. No entanto, com uma quota de mercado a rondar os 60% dos livros escolares, a operação poderá estar ameaçada.

Isto porque, conforme explicou ao Público fonte da Porto Editora, já se está na altura de começar a preparar o próximo ano letivo. Neste caso, o envio de amostras de livros para que as escolas possam escolher. Esta produção está ainda dependente do Ministério da Educação, que é "quem dá uma grandeza dos manuais que são necessários" e é também "determinante na fixação dos preços".

Ao mesmo jornal o responsável pela produção da Porto Editora admite que existe capacidade de produção em Portugal e Espanha, mas sem existir uma gráfica que dê uma resposta total à produção do grupo, o que afetaria também o "controlo de qualidade".

Desde a passada quarta-feira que não saem livros das máquinas de impressão, com uma produção média de 80 mil livros ou até 120 mil, quando funcionam três turnos. No pico da temporada escolar chegam a sair dez mil encomendas por dia, um número que se torna agora também bastante complicado para o grupo.

Afetada está também a capacidade da Porto Editora em responder às encomendas online da Wook e da Bertrand, o que vai continuar porque a logística estará "parada nas próximas semanas". "Têm o seu funcionamento condicionado, facto que, aliás, já foi comunicado diretamente aos respetivos clientes, sendo que todos os esforços estão a ser envidados para ultrapassar esta gravíssima situação no mais curto tempo possível", disse a empresa

Prejuízos de milhões de euros

A empresa refere que se deu "início à avaliação dos danos e do impacto do incidente, que, tudo indica, foi provocado por um fenómeno climatérico extremo, provocando o colapso de toda a cobertura da unidade gráfica e de uma parte da cobertura da unidade logística".

Salienta que os danos causados pelo referido fenómeno, que se verificou às 11:05 do passado dia 14 naquele local, causando três feridos ligeiros, "são de tal monta que tornam inevitável a demolição da parte gráfica, que foi inaugurada em 2000".

Os trabalhos preparatórios estão a ser iniciados, ao mesmo tempo que se procede à retirada de toda a maquinaria.

"Após o processo de demolição e limpeza, iniciar-se-á a construção de uma nova gráfica na mesma área de 7.000 metros quadrados, obra que se prevê que esteja concluída até ao final do ano", sublinha.

Esta realidade obrigará a Porto Editora a "um esforço suplementar na procura de soluções que deem resposta às suas necessidades de produção -- para se ter uma ideia, na Bloco Gráfico, onde trabalham 80 pessoas, imprimiram-se, em 2017, cerca de 15 milhões de livros", salienta.

O rescaldo do incidente permitiu identificar danos também numa das áreas de funcionamento da Zuslog, empresa responsável pela operação logística do Grupo Porto Editora que assegura o abastecimento do mercado livreiro.

"Ainda que os danos sejam de menor monta, o facto é que impedem o funcionamento de toda a estrutura durante as próximas semanas, o que significa que a presença das edições do Grupo Porto Editora nas livrarias poderá ser afetada", afirma.

Acrescenta que "em quase 74 anos de história, esta é uma das mais difíceis situações já enfrentadas pelo Grupo Porto Editora, que vem agudizar as grandes dificuldades que o setor do livro atravessa em Portugal - quer no plano editorial quer no plano das livrarias -- e ensombrar ainda mais as perspetivas da evolução deste setor no futuro próximo".

Com Lusa

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