"Para bem da associação e dos animais espero que atual direção não se recandidate"

Vice-presidente da Associação Zoófila esclarece que se demitiu no início do mês por "não achar normal" o que se passava. Atual direção está demissionária desde dia 20, após presidente ter sido acusada de "negócios consigo própria". Há já queixa-crime contra Ana Fernandes

"Apresentei o meu pedido de demissão formal a 1 de junho. Disse que não estava disponível para trabalhar com a Ana Fernandes [a presidente] nem ninguém da atual direção. Considero que não são as pessoas indicadas para estarem na direção de uma associação. No tempo em que estive ali, não vi nenhuma sincera preocupação com a causa animal. Apenas ganhar eleições, ganhar votos e aparecer."

Apesar de o seu pedido de demissão ter sido apresentado (e aceite) há praticamente um mês, o nome de Eulália Rocha da Silveira, 37 anos, ainda está no site da Associação Zoófila Portuguesa como vice-presidente, integrando a direção -- que está por sua vez demissionária desde 20 de junho, na sequência de várias acusações que foram feitas à respetiva presidente, Ana Fernandes, nomeadamente por ter uma empresa em seu nome a prestar serviços à AZP, e que se consubstanciaram já numa queixa-crime por abuso de confiança, apresentada pelo Conselho Fiscal da organização.

A informação da sua saída da direção, diz Eulália Rocha da Silveira ao DN, "foi omitida aos sócios da AZP". De facto, se a demissão da direção e da mesa da assembleia geral a 20 de junho foi objeto de comunicado no site da Zoófila e respetivo Facebook, a de Eulália não foi noticiada. Assim, ao confrontar-se com a notícia publicada ontem pelo DN, sentiu a sua reputação posta em causa, tendo contactado o jornal para repor a verdade: "Por me sentir, indiretamente mas ainda assim lesada, bem como o meu bom nome, venho desta forma esclarecer que, apesar de ter sido omitida essa informação aos prezados sócios da AZP, a minha demissão do cargo de vice-presidente foi apresentada ainda antes de dia 20 de junho pelo que a seguinte informação, que passo a transcrever: "Demissionária desde 20 de junho, assim como toda a direção e a Mesa da Assembleia Geral da AZP (...)", não se encontra correta visto que, à data, já não fazia parte desse mesmo órgão social."

Demissão por motivos éticos

A comunicação de demissão, que a ex-vice-presidente fez chegar ao DN e é dirigida a Adélia Costa, presidente da mesa da assembleia geral, em mail de 1 de junho, é eloquente quanto aos motivos da mesma: "O meu pedido de demissão é resultante do facto de, neste momento, não me rever minimamente em muitos dos comportamentos e decisões tomadas por alguns dos membros desta atual direção e, como tal, decido retirar-me por considerar já não existirem condições para me manter neste cargo, escolhendo assim manter intactas tanto a minha vida pessoal como a minha integridade moral e ética."

Eulália Rocha da Silveira tinha sido eleita a 7 de abril com a restante direção, depois de Ana Fernandes, que preside à AZP desde 2009, a ter convidado para integrar o órgão. "Mesmo em cima da eleição ela disse que tínhamos de reunir de urgência porque havia um problema". O problema, veio Eulália, que não conseguiu estar presente na reunião, a saber, tinha a ver com o mail, datado de 5 de abril, de uma sócia (Raquel Leite, que integrara a anterior direção) questionando a relação entre a AZP e a empresa Izumix. Mas, esclarece a ex-vice-presidente, "o mail da Raquel Leite não me foi mostrado, só soube dele depois." Na verdade, só soube, garante, das acusações a Ana Fernandes na assembleia geral extraordinária de 26 de maio, requerida por um grupo de sócios por causa das suspeitas e na qual a presidente do Conselho Fiscal, Luísa Coelho, apresentou o caso contra a presidente.

"O que me foi passado do que tinha sido dito na reunião foi que ela [Ana Fernandes] disse que a empresa Izumix era do marido. O que me foi contado foi muito superficial e por alto, e na minha ingenuidade achei que não havia problema tendo em conta que os valores pagos para a orientação da construção do hospital [o marido da presidente foi por esta proposto como a pessoa indicada para fazer a orientação da obra do hospital veterinário da AZP, em 2014] nem tinham sido muito elevados. Achei que não era grave." Com outra impressão ficou na assembleia geral extraordinária: "Só tenho conhecimento das outras coisas [continuação de pagamentos, no valor de 15 mil euros com IVA, ao longo de 18 meses, à Izumix, que afinal está registada em nome de Ana Fernandes, a compra de um telemóvel topo de gama pela presidente sem decisão colegial, a aquisição de ração importada pela empresa da presidente, fora de prazo, por mais de três mil euros] na assembleia e foi um dos motivos para ter saído. Não achei nada daquilo normal. E o que disse à Ana Fernandes quando a confrontei foi isso mesmo: que não achava normal. E por mais bem que se fizesse, por mais que ela tivesse feito coisas boas pela AZP, isso não podia justificar que se fizessem coisas incorretas."

"Espero que direção não se recandidate"

Também a decisão de pagar salário a três membros da direção - Ana Fernandes, 1000 euros; Gabriela Melo (tesoureira) e Bianca Santos (secretária) 580 euros --, com a qual concordou, e votou favoravelmente, quando foi proposta, lhe parece agora injustificável. "O que me foi passado foi que duas pessoas iriam estar a tempo quase inteiro na AZP e iriam receber o ordenado mínimo por isso; e a Ana Fernandes como iria estar mais lá também faria sentido receber. Não me fez confusão na altura, mas depois percebi que a maioria das pessoas que trabalham na AZP e no hospital estão a recibos verdes. Não me pareceu justo haver alguém da direção a receber o que quer que seja para fazer presença ou dar a cara e muitos bons colaboradores terem de sair porque não lhes davam condições. Isso aliado a compras de telemóvel de mais de 800 euros pareceu-me muito injusto."

Entretanto, a presidente da mesa da Assembleia Geral convocou eleições para 29 de julho. Eulália, que continua na AZP como voluntária, é cortante: "Espero muito sinceramente que as pessoas que estão nesta atual direção se se recandidatarem não sejam eleitas. Pelo bem da AZP e dos animais espero que não integrem a nova direção."

A presidente demissionária, Ana Fernandes, é deputada municipal pelo PAN e foi candidata deste partido à presidência da autarquia. Foi ouvida para a peça ontem publicada pelo DN sobre as irregularidades de que é suspeita e o conflito na AZP. Mas uma das vogais da direção, Cristina D'Eça Leal, acusou o DN, em comentário no site do jornal à notícia, de ter feito "uma reportagem encomendada". O DN entrou em contacto com Cristina D'Eça Leal e solicitou-lhe que explicasse a acusação. A resposta da vogal demissionária é de que "é uma dedução óbvia, não lhe sendo [à jornalista que assina] conhecida qualquer ligação à causa animal e sabendo que não é sócia da AZP nem esteve na última assembleia geral, parece-me muito pouco provável que tenha tipo uma epifania relativamente à associação e que lhe tenha surgido do nada a lista de perguntas que enviou. Mas admito que seja eu que nada sei de jornalismo de investigação." O DN certificou a este membro da direção da AZP que está disponível para publicar qualquer retificação ao artigo publicado.

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