A inexistência de uma estratégia única e abrangente, que permita canalizar os contributos do sistema de educação, investigação científica e inovação em Portugal para o desenvolvimento, é um dos principais problemas apontados no diagnóstico do país feito por peritos da OCDE, os quais defendem a "adoção de uma Estratégia Nacional para o Conhecimento e a Inovação abrangendo e e fornecendo uma clara orientação para a educação terciária, financiamento da pesquisa e inovação e das organizações motoras" do setor..Em entrevista ao DN (em baixo), o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor - que pediu este relatório - relativiza o recado da organização internacional. Em vez disso valoriza outras recomendações, nomeadamente no sentido de se reforçar o investimento público na Ciência e Tecnologia em pelo menos mais cem milhões de euros anuais - com os privados a terem de quadruplicar os esforços - , promover melhores carreiras no superior, "onde continuamos a ter uma percentagem pequena de professores catedráticos e associados", e "reforçar a aposta no ensino politécnico", nomeadamente para garantir o aumento da qualificação das populações. Uma das fragilidades que a OCDE aponta ao país..No entanto, no relatório, os peritos internacionais insistem que, embora indispensáveis, o reforços de verbas e a maior valorização de profissionais e instituições não "não contribuirá de forma consistente" para a inovação e o crescimento da produtividade sem mudanças de fundo. "Um compromisso de financiamento público desse nível deve estar associado às reformas que foram identificadas neste relatório", alertam..[HTML:html|Invest.html|640|1066].Na análise realizada, na qual foram ouvidas centenas de personalidades ligadas ao meio académico e científico português, os peritos concluíram que existem no país múltiplos documentos e programas (nacionais, europeus), com diferentes objetivos políticos (desenvolvimento económico, inovação, investigação, saúde) e variados horizontes temporais (relativos ao orçamento anual, aos quatro anos de mandato do governo ou aos setes anos dos fundos estruturais dos programas comunitários), o que impede uma estratégia e uma ação concertadas nesta matéria..Ainda que o objetivo comum a todas estas estruturas seja o desenvolvimento do país baseado na economia do crescimento, dizem, estas acabam por não permitir o estabelecimentos de prioridades, enquadradas numa estratégia unificada. Em resultado, as diferentes instituições do sistema - universidades, politécnicos, unidades de investigação, organizações intermediárias e empresas - recebem sinais "contraditórios" acerca das prioridades em jogo..Outra caraterística que se destaca aos olhos dos avaliadores da OCDE - também refutada pelo ministro - é a falta de coordenação horizontal entre os vários departamentos governamentais que tutelam as várias áreas: educação, ciência e inovação, o que, dizem, "leva a duplicação de esforços, medidas inconsistentes e a fontes diferentes de financiamento, nomeadamente na investigação e no ensino superior". A dispersão de fontes de financiamento - apesar de a Fundação para a Ciência e a Tecnologia assegurar cerca de metade do orçamento do sistema - é outro obstáculo referido..No que respeita ao Ensino Superior, a OCDE defende que se continuem a valorizar as instituições. Dando continuidade a algumas medidas já em curso, nomeadamente os apoios aos doutoramentos, mas também melhorando as carreiras dos docentes, já que o País continua a ter - sobretudo no setor politécnico - uma percentagem reduzida de docentes que chegam aos patamares superiores nas instituições..É também apontada como crucial a aposta na qualificação das populações, não só entre os mais jovens mas também na população ativa. Uma recomendação que abrange não só o ingresso no superior como a a introdução de pós-graduações mais flexíveis. E que abrange não só os jovens como a população ativa, sobretudo por via dos politécnicos..Manuel Heitor: " Sem mais qualificações é impossível".O ministro da Ciência e Ensino Superior discorda da análise de que o país precisa de centralizar as políticas de ciência e formação mas admite reforçar coordenação. Aposta nas qualificações da população e investimento no superior e na investigação e desenvolvimento são fundamentais para concretizar metas até 2030, com o setor privado a ter de assumir um papel importante.A OCDE diz que a ausência de uma estratégia nacional, centralizada, leva à dispersão de esforços e objetivos contraditórios no superior e na ciência. Como comenta esta análise?.Esse aspeto já foi discutido quando foi apresentado o relatório preliminar. De uma certa forma, as pessoas do Conselho Coordenador do Ensino Superior opuseram-se a essa recomendação. É uma visão típica da OCDE, que é por natureza uma instituição muito centralizadora. Penso que o relatório tem muito mais conteúdo do que isso. Obviamente que vamos responder a essa crítica, no sentido de reforçar o esforço de coordenação, mas nunca reforçando a centralização de uma estratégia que, pelo contrário, tem de ser de maior participação pública. A OCDE também diz - e muito bem - que é preciso reforçar a autonomia das instituições científicas e do ensino superior, que é o que temos feito desde 2007..Também é defendida a criação de uma "task force interministerial", para garantir a coerência das medidas, nomeadamente entre o Superior e Ciência e a Economia. Essa articulação já acontece?.No fundo isso acontece. A inovação é o elemento importante de coordenação entre a Ciência e a Economia. O próprio programa Interface foi lançado pelo primeiro-ministro, com a participação ativa dos dois ministérios, exatamente para isso. Neste momento está bem coordenado e será um dos elementos reforçados na resposta política à OCDE. Esta avaliação serve para nos sujeitarmos a uma leitura externa de Portugal no contexto europeu. Claro que esses aspetos podem ser melhorados. Este relatório é o que os peritos da OCDE consideram depois de terem falado com centenas de pessoas. É natural que as pessoas sintam isso. Mas mais do que ser tudo coordenado, é importante que haja oportunidades para diferentes ações..Para Portugal cumprir a meta de ter 3% do PIB em investigação e desenvolvimento até 2030, o Estado terá de aumentar a dotação em cem milhões por ano. E os privados terão de quadruplicar o investimento. É viável?.Depois de cinco anos a divergir na Europa, 2016 foi um ano de retoma da convergência. A despesa pública aumentou e o privado também. A perspetiva é conseguirmos estar nestes doze anos consecutivos com um reforço. Num âmbito de esforços comunitários para uma economia baseada no conhecimento isto não é muito difícil. O setor privado conseguir, em doze anos, multiplica por quatro a despesa em investigação, é um desafio grande. Tal como criarmos dois mil postos de trabalho qualificado por ano, sobretudo nas empresas..A aposta nas qualificações da população é outra questão central....A OCDE vem chamar a atenção para que, sem mais qualificações e mais investimento nas qualificações, é impossível. Esse é também um desafio para os empregadores, para investirem nas qualificações mas também para as exigirem. Não apenas na formação inicial. É fundamental atrair mais jovens mas também a população adulta, com cinco ou mais anos de experiência.