O prazer de desenvolver um modelo e vê-lo aplicado em dois meses

Hovione. Empresa exportadora de princípios ativos para a indústria farmacêutica já é o maior empregador privado de doutorados do país

Aos olhos de um leigo, a "máquina" assemelha-se aos tanques de inox utilizados na produção de bebidas alcoólicas. Mas Íris Duarte e Diana Fernandes observam e comentam o equipamento, recém-instalado, com o entusiasmo de um apreciador de automóveis que acaba de deparar-se com o último modelo da Lamborghini.

A "máquina" é um equipamento de spray drying - secagem por atomização -, técnica em que a Hovione, exportadora de princípios ativos para a indústria farmacêutica, foi pioneira no seu setor. As duas raparigas são engenheiras biológicas, Diana ainda a concluir o doutoramento, e fazem parte da geração de jovens altamente qualificados em que a empresa portuguesa aposta cada vez mais para continuar a afirmar-se nos mercados mais competitivos do planeta.

A empresa - que também tem unidades produtivas em Macau, Irlanda e Estados Unidos - já é o maior recrutador privado nacional de doutorados. Só em Loures, emprega 57, dos quais 17 contratados no ano passado. E muitos deles, como é o caso de Íris e poderá vir a ser o de Diana, formaram-se na própria empresa. Há oito anos, a Hovione começou a unir-se a instituições do ensino superior nacionais para oferecer bolsas de doutoramento empresa (BDE). Atualmente também já tem parcerias internacionais, incluindo com Cambrigde e o MIT. EM 2016, chegou a ter sete doutoramentos a decorrer em simultâneo e, recentemente, lançou um programa, chamado "9 ºW", que desafia a sociedade científica e académica a ajudá-la a superar determinados desafios tecnológicos.

Filipe Gaspar, vice-presidente com o pelouro de Investigação e Desenvolvimento (I&D), diz que estas apostas, quer nos programas doutorais quer na nova iniciativa, têm uma componente de "devolução ao país" do que este deu à empresa, fundada em 1959 pelo imigrante húngaro Ivan Villax. Mas é sobretudo uma forma de a Hovione "estar preparada" para acompanhar as exigências do mercado.

"Tem sido um modelo muito bom, para as pessoas que fazem os doutoramentos e para os nossos cientistas porque, ao orientarem estes trabalhos, mantêm-se ligados às universidades e ao estado da arte nas várias áreas", conta.

E a investigação produzida entre alunos e cientistas residentes já está a dar frutos: "Os trabalhos que são feitos pelos nossos alunos de doutoramento são muito de ciência aplicada", conta. "É muito usual eles desenvolverem determinado modelo, uma metodologia, uma nova técnica e passado um mês estamos a apresentar isto a nossos clientes e passados dois meses estamos a aplicar isto na prática".

João Vicente, já com o nome inscrito em quatro patentes, pode orgulhar-se de ter sido o aluno que deu origem a todo o processo. Há oito anos, quando estudava no Instituto Superior Técnico - também Engenharia Biológica - concorreu a um estágio na empresa. Correu tão bem que quiseram mantê-lo, criando a primeira BDE da Hovione. Sente-se no sítio certo, a fazer investigação e a vê-la materializar-se em técnicas e produtos."Este é um dos aspetos mais gratificantes do ponto de vista do aluno", conta. "Eu trabalhei também em investigação universitária e esta aplicabilidade é mais gratificante. O aluno investiga, cria qualquer coisa e está em uso rapidamente".

Também Íris, há sete anos na empresa, tendo defendido a tese de doutoramento no ano passado, se confessa "uma sortuda" por estar a fazer o que quer, numa área ainda muito específica, sem ter precisado de passar a fronteira para o conseguir: "Trabalho em Portugal, posso contribuir de certa forma para o meu país, estou numa empresa portuguesa, desafiante, o trabalho não é igual todos os dias, não há monotonia aqui", garante. "As pessoas podem não saber isto mas a Engenharia Biológica é uma área relativamente recente. Muitas empresas preferiam apostar em engenheiros químicos", acrescenta Diana.

Filipe Gaspar explica que, embora "tenha sido feliz" com os seus formandos, a empresa "não garante emprego ". Até porque este "depende das oportunidades de crescimento, que têm sido bastantes nos últimos anos". João, Íris e Diana têm a sorte - ou o mérito - de terem apostado numa área "estratégica" para a Hovione, que cresceu produzindo substâncias "de síntese química" mas espera entrar no mercado dos biofarmacêuticos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Investimento estrangeiro também é dívida

Em Abril de 2015, por ocasião do 10.º aniversário da Fundação EDP, o então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmava que Portugal "precisa de investimento externo como de pão para a boca". Não foi a primeira nem a última vez que a frase seria usada, mas naquele contexto tinha uma função evidente: justificar as privatizações realizadas nos anos precedentes, que se traduziram na perda de controlo nacional sobre grandes empresas de sectores estratégicos. A EDP é o caso mais óbvio, mas não é o único. A pergunta que ainda hoje devemos fazer é: o que ganha o país com isso?

Premium

Jan Zielonka

A política na era do caos

As cimeiras do G20 foram criadas para compensar os fracassos das Nações Unidas. Depois da cimeira da semana passada na Argentina, sabemos que o G20 dificilmente produzirá milagres. De facto, as pessoas sentadas à mesa de Buenos Aires são em grande parte responsáveis pelo colapso da ordem internacional. Roger Boyes, do Times de Londres, comparou a cimeira aos filmes de Francis Ford Coppola sobre o clã Corleone: "De um lado da mesa em Buenos Aires, um líder que diz que não cometeu assassínio, do outro, um líder que diz que sim. Há um presidente que acabou de ordenar o ataque a navios de um vizinho, o que equivale a um ato de guerra. Espalhados pela sala, uma dúzia de outros estadistas em conflito sobre fronteiras, dinheiro e influência. E a olhar um para o outro, os dois arquirrivais pretendentes ao lugar de capo dei capi, os presidentes dos Estados Unidos e da China. Apesar das aparências, a maioria dos participantes da cimeira do G20 do fim de semana não enterrou Don Corleone, mas enterrou a ordem liberal."

Premium

nuno camarneiro

Amor em tempo de cólera

Foi no domingo à tarde na Rua Heliodoro Salgado, que vai do Forno de Tijolo à Penha de França. Um BMW cinzento descia o empedrado a uma velocidade que contrariava a calidez da tarde e os princípios da condução defensiva. De repente, o focinhito de um Smart vermelho atravessa-se no caminho. Travagem brusca, os veículos quedam-se a poucos centímetros. Uma buzinadela e outra de resposta, o rapaz do BMW grita e agita a mão direita à frente dos olhos com os dedos bem abertos, "és ceguinha? És ceguinha?" A senhora do Smart bate repetidamente com o indicador na testa, "tem juízo, pá, tem juízo". Mais palavras, alguma mímica e, de repente, os dois calam-se, sorriem e começam a rir com vontade. Levantam as mãos em sinal de paz, desejam bom Natal e vão às suas vidas.

Premium

Joel Neto

O jogo dos homens devastados

E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia - cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

Premium

Opinião

NAVEGAR É PRECISO. Quinhentinhos

Os computadores, sobretudo os pessoais e caseiros, também nos trouxeram isto: a acessibilidade da "memória", através do armazenamento, cronológico e quantificado. O que me permite - sem esforço - concluir, e partilhar, que este é o meu texto número 500 no Diário de Notícias. Tendo trabalhado a tempo inteiro e colaborado em muitas outras publicações, "mais do que prometia a força humana", nunca tive, em quatro décadas de peças assinadas, uma oportunidade semelhante de festejar algo de semelhante, fosse pela premência do tempo útil sobre o "ato contemplativo" ou pela velocidade inusitada com que ia perdendo os trabalhinhos, nem por isso merecedores de prolongamento do tempo de "vida útil". Permitam-me, pelo ineditismo da situação, esta rápida viagem que, noutro quadro e noutras plataformas, receberia a designação (problemática, reconheça-se) de egosurfing.