O português que ensombra candidatura de Guterres à ONU

Mário David, ex-eurodeputado do PSD e ex-assessor de Durão Barroso, tem feito campanha pela búlgara Kristalina Georgieva.

A corrida ao mais importante cargo diplomático internacional colocou ontem na ribalta outro português, Mário David, que há meses promove a búlgara Kristalina Georgieva como rival de António Guterres ao cargo de secretário-geral da ONU.

Mário David está ligado aos países do Leste europeu há anos, como assessor de Durão Barroso na Comissão Europeia e como eurodeputado do PSD - integrado no Partido Popular Europeu, que pressionava o governo da Bulgária para retirar o apoio a Irina Bukova e propor Georgieva (o que se confirmou ontem).

O ex-eurodeputado do PSD e atual vice-presidente da Internacional Democrata do Centro (IDC), que o DN não conseguiu contactar ontem, tem uma página pessoal na Internet (www.mariodavid.eu) onde, ao lado da fotografia a meio corpo, surge uma mensagem por si assinada: "Convido-o a conhecer [...] os principais momentos que vivi, como membro do Parlamento Europeu, ao serviço dos Portugueses, de Portugal e da Europa."

PSD e CDS, que integram o PPE na Europa, criticaram ontem a formalização da candidatura de Kristalina Georgieva à margem dos trabalhos do Parlamento. Mas se o PSD não respondeu ao DN, quando questionado sobre o papel de Mário David, o deputado centrista Nuno Magalhães observou ao DN que "as pessoas são livres de tomar as decisões" que entenderem.

O embaixador Seixas da Costa, dizendo que "não há qualquer obrigação patriótica" de apoiar Guterres, estranha que "a figura central da ação externa do PSD no quadro do PPE, com o qual trabalha e de quem foi secretário-geral, esteja a ser o principal instrumento da candidatura" de Georgieva. Por ser alguém que "teve responsabilidades institucionais no partido de que faz parte, isso mereceria uma tomada de posição do PSD", acrescentou.

Mónica Ferro, ex-deputada do PSD e especialista em Nações Unidas, acrescentou: "Se é verdade, espero que [David] esteja convencido que [Georgieva] é a melhor candidata", quando as audições públicas dos candidatos e os resultados das cinco votações secretas realizadas pelo Conselho de Segurança "mostram que não somos só nós a dizer que António Guterres é o melhor e que não é por sentimento patriótico" que os portugueses o fazem.

Há dias, questionado pelo jornal Público sobre Mário David, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse: "Reconheço que a questão existe, mas não me preocupa, não me parece que haja qualquer regra escrita ou implícita segundo a qual um português está isento de proceder contra os interesses de outro português só por ser português."

Quanto à rivalidade entre Bukova (socialista) e Georgieva (direita), há disputas políticas internas e pressões do PPE, em especial da Alemanha - que vê o seu comissário europeu, Guenther Oettinger, assumir a pasta da ainda vice-presidente da Comissão com o pelouro do Orçamento e Recursos Humanos. Dimitar Delchev, da coligação búlgara de centro-direita Bloco Reformista, foi claro: "Acreditamos que a ONU deve ser liderada por alguém de direita com um pensamento de direita, como os que dirigem o Conselho da Europa e a Comissão Europeia."

Membros do Conselho de Segurança - como a Venezuela - disseram nas últimas semanas serem contrários a uma proposta de última hora, num processo que se procurou transparente: os candidatos foram entrevistados na Assembleia Geral da ONU, participaram em audições públicas, responderam a questões da sociedade civil, foram escrutinados cinco vezes por aquele órgão de cúpula da organização.

Quanto à candidatura de Georgieva, fonte diplomática ouvida sob anonimato pelo DN estranhou o facto de a búlgara só ter licença sem vencimento no mês de outubro: "Quem dá o salto a sério não fica com um pé dentro e outro fora."

Com o apoio já expresso a Guterres por pelo menos três dos membros permanentes do Conselho de Segurança - um dos dois que o desencorajam ou o neutro será da Nova Zelândia, que candidatou a sua ex-primeira-ministra Helen Clark -, esta fonte disse haver outro cargo vago desde finais de julho no Banco Mundial. Como Georgieva foi vice-presidente dessa instituição até entrar para a Comissão, corre nos bastidores diplomáticos que a búlgara, concluído o processo na ONU, poderá estar já a apontar para o cargo que foi ocupado pela agora ministra das Finanças indonésia, Sri Mulyani Indrawati: administradora executiva e diretora-geral.