O one man show de Marcelo nas eleições que já estão decididas

Candidato diz que campanha não mudará sentido de voto

Um verdadeiro one man show. Marcelo Rebelo de Sousa define a estratégia política da campanha, decide ações em cima da hora e até viajou ontem para a Madeira - onde estará hoje em campanha - sozinho no avião, deixando no continente a entourage (incluindo os dois assessores de imprensa e o diretor de campanha). Para Marcelo os próximos dias já não vão decidir nada: os portugueses já sabem em quem votar.

A campanha é assim mais para cumprir calendário. Durante uma arruada ontem de manhã, em Portalegre, o candidato presidencial disse que "é muito importante a proximidade" com as populações, mas defende que "os portugueses já têm na cabeça o voto ou o não voto e já não vão mudar o sentido quando faltam 10 dias".

Mas não é por isso que Marcelo se empenha menos. E segue o instinto de político. Um verdadeiro "show" a solo, sem máquina, sem bandeiras, sem uma esteira de apoiantes significativa. Faz de tudo. Ontem passou a ferro, andou nos saldos, desejou "mau negócio" numa funerária, ouviu piropos no hospital, aviou-se na farmácia e comprou um livro para o neto. E isto tudo em menos de duas horas.

A estratégia é a de ser genuíno, o "avô" que os portugueses conhecem na televisão, ignorando os outros candidatos.

Numa livraria do centro de Portalegre, confidenciava que segue os conselhos do neto sobre as Presidenciais: "Eu digo-lhe: o "a" diz mal de mim, o "b" diz mal de mim, o "c" diz mal de mim. O meu neto deu-me um conselho que eu sigo: ó avô, deixa-os a falar sozinho. E eu digo, bem visto ó Francisco, e deixo-os a falar sozinho."

O candidato tem-se recusado a comentar os ataques de outras campanhas. Questionado sobre o facto de Marisa Matias ter dito que "candidato da esquerda da direita, só se for grouxista marxista", Marcelo insistiu que "há três meses que tenho dito que não me pronuncio sobre outros candidatos ou outras candidaturas. Não entro nesse diz que disse."

Também no café Sons&Sabores, e ao som de Johnny Cash, acusou os outros candidatos de se desviarem da linha. Do debate de ideias. Após o dono da loja solicitar que existam "debates sérios", Marcelo desabafou: "É o que eu tenho feito durante toda a esta campanha eleitoral. Mas passam a vida a discutir pessoas".

E continuando nas ruas de Portalegre, Marcelo ia aproveitando o "solinho", como o próprio referiu, para contactar com a população. Começou por entrar numa loja e pegou num frasco, lendo o rótulo: "perfume da felicidade". E diria depois - numa alusão às sondagens, que lhe são favoráveis: "Isto vai bem encaminhado, mesmo sem perfume."

De seguida, Marcelo voltou a procurar uma t-shirt para o neto. Até chegou a escolher uma, mas recuou no momento do preço. "25 euros é caro. Para uma criança de 12 anos é muito caro". Passou a tal imagem de avô, chegando a confessar que ainda iria ver os netos antes destes seguiram para o Brasil.

Acabou por chegar a uma farmácia, uma das suas perdições, onde não resistiu a gastar dinheiro, mas sempre com olho na poupança ("os genéricos foram uma ótima ideia"). Aproveitou para comprar comprimidos Omeprazol, para o estômago. E lá veio - em jeito de piada e após ser espicaçado por um jornalista - a ligação à campanha: "Em Belém, tem que se ter estômago para tudo, para muita coisa."

Durante a manhã, Marcelo entraria até numa funerária, onde disse à saída: "Não lhe desejo boa sorte no negócio porque para isso tinha de morrer muita gente".

Hoje, o show continua na Madeira, onde Marcelo fará campanha . Quando voltar ao continente a volta vai continuar dentro do mesmo estilo, mas, como o próprio confessa, "com novidades, para não ficarem com a sensação de repetição".