O estranho caso da capela que toda a gente ia reconstruir

O povo da Adega anda revoltado. Um ano depois do incêndio de Pedrógão, a ermida de Nossa Senhora das Brotas continua em ruínas

Santa já há. José Joaquim, 80 anos, tem em casa uma Santa Teresinha que o filho lhe trouxe de França para pôr no altar da capela nova, quando esta estiver reconstruída. Há um ano, a ermida de Nossa Senhora das Brotas ardeu nos incêndios de Pedrogão Grande. "Entrou-lhe um ramo em chamas pelo telhado e depois rebentou a bilha de gás do aquecedor", conta o velhote com rigor mas à beira das lágrimas. "As paredes ficaram de pé, por dentro é que ficou tudo destruído."

Um ano depois do fogo, as gentes da Adega, um povoado de 25 almas na freguesia da Graça, andam zangadas. O 7 de julho, dia da procissão, está ao virar da esquina e ao contrário do que toda a gente lhes prometeu não vai haver capela para ninguém. "Toda a gente veio aqui anunciar que fazia as obras para receber os aplausos. A ovação levaram-na, mas depois ninguém fez nada", lamenta-se Júlio Santos, pároco de Pedrógão Grande.

Primeiro foi a câmara. Três dias depois do incêndio os técnicos municipais responsáveis pela reconstrução da região assinalaram a capela da Adega como obra de intervenção prioritária. Além de ser um espaço público, era a única igreja que tinha ardido no fogo de 17 de junho.

A Comissão de Coordenação do Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR-C), que liderou o programa de apoio à reconstrução, deu luz verde ao início dos trabalhos. A recuperação da ermida de Nossa Senhora das Brotas tinha, para efeitos oficiais, estatuto idêntico às 223 habitações destruídas em Pedrógão e Castanheira de Pera. A sua recuperação era urgente.

A santa no meio do trigo

Todos os anos, no dia 7 de julho, a história daquela ermida era repetida no sermão da missa. Ninguém aqui sabe o ano de construção exato, mas a origem da Senhora das Brotas é orgulho maior na terra.

"Foi no tempo da minha avó", conta Maria Rosa Dias, 93 anos feitos e uma dor no peito de ver aquele monte de tijolo no lugar do altar. Calcula que as fundações do edifício tenham sido lançadas entre 1840 e 1850.

"Havia um padre aqui na freguesia chamado António que se queria reformar. O objetivo dele era construir uma capelinha para poder rezar perto de casa."

Juntou-se o povo para fazer a vontade ao sacerdote. Pedra sobre pedra sobre pedra, depois as vigas de madeira, no fim tudo coberto a telha. Só faltava uma padroeira - e o aparecimento dessa teve contornos de milagre.

"Naquele tempo, o povo de Pedrógão fazia muitas campanhas de trigo no Alentejo e houve três rapazes que foram parar a Brotas, perto de Mora." Ali, repete a história toda a gente, encontraram uma santa de madeira no meio do trigo no final de uma tarde de ceifa.

Feita a monda trouxeram-na ao padre, que decidiu erguer-lhe a ermida em honra. Ficou capelinha de Nossa Senhora das Brotas, protetora dos animais. Abrigo estreito para bodas, batismos nunca houve nenhuns.

"Mas era aqui que o povo ia à missa e velava os mortos. Agora, pronto, ardeu tudo", e Rosa é o desalento inteiro. "Santa e tudo, quem é que havia de imaginar. Morreu Nossa Senhora para nos proteger as vidas e as casas. Se não lhe construirmos outra vez um abrigo, diga-me lá, quem é que nos protege?"

Capela vai, capela vem

Ia julho a meio quando o povo começou a juntar esforços para reconstruir o edifício. "Havia aqui na terra quem oferecesse o cimento e as telhas - e se a tínhamos levantado uma vez à força de braços estávamos dispostos a levantá-la de novo", diz Palmira Graça, uma das responsáveis pelas contas que iram parar à caixa de esmolas. "O que faltasse a gente havia de se amanhar."

Da câmara, no entanto, chegou o anúncio de que o povo não precisava de se preocupar. "Os técnicos disseram que iam tratar de tudo e que o povo podia ficar descansado: haveria ermida a tempo da procissão de Nossa Senhora", conta Palmira. A autarquia confirma, o processo avançava rápido.

No final de agosto chegou ao gabinete de arquitetos da Gulbenkian luz verde do CCDR-C. Podiam arrancar os trabalhos. A Fundação estava a administrar 3,6 milhões de euros de um total de 12 milhões do Fundo Revita. Esse dinheiro, cedido essencialmente por privados, pagava todas as obras de reconstrução e toda a intervenção social que era preciso fazer na região afetada pelos incêndios.

"Então depois vieram esses senhores da Gulbenkian ver o que era preciso fazer", continua Palmira Graça. São os próprios operacionais da Fundação a confirmar ao DN que a promessa foi feita, apesar de pedirem para não serem identificados nesta reportagem.

Em setembro entrou um novo ator em campo. A Fundação EDP juntou-se à equipa de apoio com um conjunto de arquitetos e projetistas. "Ficaram a nosso cargo os planos de 31 casas e da capela de Nossa Senhora das Brotas", diz André Habler Rente, porta voz da instituição. "Cumprimos a nossa parte."

De facto, o arquiteto Simão Botelho assinou o plano para o interior e para o exterior da ermida. Além da reedificação de telhados, altar e sacristia, acrescentava-se do lado de fora um novo telheiro, umas casas de banho, um velário para as alminhas e um memorial às vítimas do incêndio.

Todos esses trabalhos obrigavam a que alguns proprietários dos terrenos que rodeiam o edifício cedessem uma parcela para que o projeto rumasse a bom porto. "Ninguém hesitou. Dissemos à EDP que sim senhor, se era para pôr a capela mais bonita cá estávamos todos para contribuir", assegura José Joaquim, o homem que até já tem uma Santa Teresinha à espera de telhado.

O corpo de arquitetos da Gulbenkian, entretanto, deu parecer técnico positivo ao desenho, ainda que tenha alertado que envolveria uma despesa de monta: a obra dificilmente custaria menos de 150 mil euros. "Entregámos o projeto à câmara e ela disse que seria a Gulbenkian a pagar as obras". "O nosso trabalho", diz o responsável da Fundação EDP, "estava feito".

A urgência de alegria

Nenhum dos quatro habitantes de Adega que perderam a vida no incêndio de 17 de junho morreu na aldeia. "Fugiram com o pânico para a estrada e foram apanhados no Nodeirinho", conta Lurdes do Carmo, dona do único café das redondezas e ponto de confluência do povo ao domingo. "E agora pronto", diz num encolher de ombros, "não há sermão mas há petisco."

Lurdes e uma das vítimas tinham o turno de junho da limpeza da capela. "Havia dez mulheres a rodar todos os meses em grupos de duas para tomar conta da ermida. Mantínhamos tudo limpo, lavávamos e passávamos a ferro as toalhas, recolhíamos as moedas que deitavam na caixa de esmolas."

Guardado no escritório do café tem o dossiê onde se registavam saldos de conta e ofertas à igreja. A capela pode não existir, mas tem saldo positivo de 220 euros. Um par de meses antes do fogo recebera um conjunto de toalhas de altar bordadas à mão. Três anos antes disso, tinham-se feito obras de remodelação do soalho.

"Era aqui que devíamos ter velado os corpos de quem morreu na nossa aldeia", diz de trás do balcão. "No lugar deles, na capela deles." Falhar a procissão deste ano, que dá a volta a todo o povoado, é ainda desgosto maior. "Depois de tudo o que aconteceu, este povo precisava da sua festa. É a única altura do ano em que Adega tem alegria."

Em casa de José Joaquim estão as estampas que tinham sido preparadas para o 7 de julho de 2017. Nunca foram vendidas. De um lado a fotografia da santa que ardeu, do outro uma oração quase profética: "Nossa Senhora das Brotas, nós não dizemos adeus, queremos estar contigo, nós que somos filhos teus."

Trocavam-se aquelas figuras por umas moedas e tudo revertia para a Igreja. "Isto era do povo. Foi o povo que a levantou e era o povo que a guardava. Se eles não conseguem fazer, então que nos deixem a nós", diz do alto dos seus 80 anos. Rijo.

Águas de bacalhau

Porque é que um projeto que avançava ao ritmo das casas (60 por cento delas estão já construídas) parou de repente? Da câmara, da Gulbenkian e da Fundação EDP a resposta acaba por ir parar ao mesmo lado: aconteceu Mação.

Em julho e agosto do ano passado o fogo destruiu dezenas de habitações naquele concelho, obrigando o Fundo Revita, inicialmente circunscrito aos municípios de Pedrógão, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, a intervir em novas áreas.

Com os fundos administrados pela Fundação Calouste Gulbenkian a esgotarem-se, o projeto da igreja ficou para trás. "E isto é muito injusto", diz Palmira Graça. "Vemos que houve dinheiro para reconstruir currais, coelheiras, barracões que estavam abandonados há décadas e agora, para uma capela, já não havia nada."

O padre Júlio diz que anda agora a reunir-se com o presidente da junta de freguesia da Graça. "Se isto não avança, havemos de lançar uma angariação para levantar Nossa Senhora "

O povo queria pôr mãos à obra, reerguer o que é deles. Agora que há projeto de arquitetura ficaram com um problema entre mãos: sai simplesmente demasiado cara montar aquela ideia. "A festa de este ano podemos esquecer, a do ano que vem logo se vê", diz Rosa Dias. "Já tenho 93 anos, mas Deus me livre de morrer sem ter a capelinha da minha terra para os meus filhos me poderem fazer o velório."

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