O casamento para a vida entre Oeiras e Isaltino Morais

Fenómeno. Amor, hábito, falta de alternativa ou, como aventa uma entrevistada, "síndroma de Estocolmo"? A relação entre Isaltino e o concelho que só lhe deu vitórias conta 32 anos sem divórcio à vista.

"Acho que as pessoas perderam o sentido dos verdadeiros valores. Como é que se pode votar num tipo que cumpriu pena de prisão por corrupção?" O homem abana a cabeça. "São malucos." Malucos? Empresário, 58 anos, Douglas Gilmore ("Tenho este nome mas sou português") faz que sim. "Mas não me espanta, estava à espera. Porque ele pôs Oeiras no mapa, quando veio para a câmara da primeira vez." Então foi bom presidente? "Sim, mas é um vigarista. As pessoas não podem votar nele só porque fez um bom trabalho."

Faz um calor de ananases neste segundo dia de outubro, e na marginal de Oeiras dezenas chinelam para a praia, placidamente, de chapéu de sol ao ombro. Nos placards, os cartazes mantêm as cores vibrantes, como se não tivessem chegado ao fim da sua vida útil. O de Isaltino Morais mostra-o de sorriso esfíngico, quiçá trocista: "Dia 1, vota por ti."41,65%, maioria absoluta, votaram. Por si ou por ele, o homem que foi ininterruptamente presidente da Câmara, pelo PSD, de 1985 a 2002 (quando saiu para ser ministro do Ambiente e Ordenamento no governo de Durão Barroso) e depois de novo, já sem apoio dos social-democratas - recusado em 2005 pelo então líder Marques Mendes devido à constituição de Isaltino como arguido - mais oito anos, até 2013, quatro dos quais após condenado em primeira instância.

Sete mandatos a que se segue agora o oitavo, depois de cumpridos 427 dias dos dois anos de prisão efetiva a que foi sentenciado por fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva para ato ilícito e branqueamento de capitais. Douglas, que já não vive em Oeiras mas ainda tem aqui a sua empresa, não se conforma. "Acha normal?"

Maria, chamemos-lhe assim - trabalha na Câmara e não quer ser identificada - acha. "Em primeiro lugar creio que as pessoas não sabem ao certo porque é que ele foi condenado e os media não explicam da melhor maneira." Licenciada em Ciências Sociais, 38 anos, Maria está aliás convicta de que Isaltino está inocente. "E olhe que a grande maioria das pessoas que conheço que votaram nele têm formação superior, até acima de licenciatura. Porque ele foi um excecional presidente sem dúvida alguma, fez muito pelo concelho. E conheço-o pessoalmente, trabalhei com ele, sou fã."

Luís Fidalgo, 69 anos, teve a mesma experiência mas assume a posição contrária. "Estava aqui há bocado uma senhora com aquela conversa do "roubou mas fez". Perguntei-lhe: "Se eu fosse seu empregado e trabalhasse bem mas roubasse, como que moral me despedia?" Ela ficou sem argumentos." Informa que trabalhou na autarquia, no departamento de gestão urbanística, "diretamente com o Isaltino", e viu "muita coisa". Por exemplo? "Muitos envelopes de dinheiro a passar de mãos." Se viu, por que motivo não denunciou às autoridades? "Se denunciasse era despedido, não acha? Mas toda a gente sabe, até lhe chamavam o presidente dos 10%." Sorri, sarcástico. "Está a ver este largo?" Aponta a zona em frente, junto à igreja. "Ele fez esta obra, que é uma porcaria. E uma das promessas dele é remodelar o largo. Acha normal?"

É a segunda vez que alguém faz esta pergunta. O que é o normal? Uma referência ética que impõe, como o soldador reformado Armando da Silva Lino, de 86 anos, defende, que "ele nunca devia ter podido candidatar-se depois de condenado, a lei não devia permitir"? Ou aquilo que a maioria quer, aceita e faz acontecer?

Certo é que a relação de Isaltino Morais com Oeiras parece um casamento para a vida, daqueles para o bem e para o mal, para a alegria e a tristeza, na riqueza e na pobreza, na liberdade e na prisão, etc. E uma peça de Shakespeare, também: o atual edil, Paulo Vistas, era vice-presidente de Isaltino, tendo-se candidatado em 2013 como seu delfim. E agora, o mentor enfrentou-o e esmagou-o.

"Este concelho é estranho", sentencia, do outro lado do largo, Carolina Prata, 24 anos, trabalhadora estudante. "Ainda agora estava aqui a falar com a minha amiga sobre este resultado. Eu sou do Porto, estou cá a estudar design, mas nenhum dos meus amigos admite ter votado Isaltino. Para mim é um mistério isto que aconteceu. Como é que as pessoas votam nele? Se conseguirem descobrir, depois contem-me."

Armando encolhe os ombros: "Não sei explicar. as pessoas foram mais pela linguagem dele. Olhe, por exemplo o meu irmão votou nele. Porque diz que o senhor Paulo Vistas não fez nada. Mas confesso, nunca pensei que ganhasse por tanto." Ao contrário, Jorge Silva pensou e está triunfante. 50 anos, empregado de mesa num restaurante sobre a praia, tem a certeza de que "quem não gosta de Isaltino é porque não vive aqui." Ao contrário de Maria, porém, não crê que o eleito esteja inocente. "Acho que é culpado, mas foi condenado, já pagou. E acho que não volta a fazer porque o que ele queria já tem. Chegou aqui com uma mão à frente e outra atrás e fez crescer Oeiras e ele também teve de crescer." Sorri. "Toda a gente rouba, não é? Não acha?"

A resposta negativa não o desconcerta. "Acha que não? Pronto. Mas mesmo que volte ao mesmo aquilo que vai fazer compensa o que possa vir a tirar."

Relacionadas

Últimas notícias

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Portugal
Pub
Pub