Novo Campus da Defesa poderá custar até 30 milhões de euros

As obras de adaptação do Quartel de Lanceiros nº2 no Campus da Defesa vão ser objeto de um concurso de ideias a lançar em breve.

O ministro Azeredo Lopes apresentou ontem o quartel de Lanceiros da Ajuda como a futura sede do Ministério da Defesa, depois de concluídas obras de adaptação que podem variar entre os 23 milhões e os 30 milhões de euros, soube o DN junto de fontes envolvidas no processo.

Esse investimento, que Azeredo Lopes disse esperar que "seja uma operação neutra do ponto de vista orçamental", será feito com verbas resultantes da alienação de imóveis como aquele onde agora está o Ministério da Defesa (no Restelo).

O projeto do chamado Campus da Defesa vai agora ser objeto de um concurso de ideias - a analisar por um júri presidido por Artur Santos Silva que inclui as faculdades de Arquitetura de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora - em fase final de conclusão, adiantou uma das fontes, sem avançar datas.

A apresentação contou com a presença, entre outros, do ministro da Cultura, dos chefes militares e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o qual elogiou a escolha como a "solução realista e possível" - cujas obras não carecem de autorização da autarquia por ser um prédio militar - para renovar "um espaço sem vida" que está numa importante zona turística da cidade e entre os palácios de Belém e da Ajuda.

A mudança de instalações do Ministério da Defesa começou a ser equacionada há uma década, quando o atual edifício, no Restelo, foi incluído na primeira lista de imóveis (novembro de 2008) a rentabilizar no âmbito da Lei de Programação de Infraestruturas Militares (LPIM). As verbas resultantes desse processo, por via da venda ou de outros mecanismos como o arrendamento, permuta ou parcerias, destinam-se precisamente a financiar obras como as que vão decorrer nesse quartel da Ajuda.

Note-se que a localização do Ministério da Defesa na Avenida Ilha da Madeira, com uma vista privilegiada para o rio Tejo desde o rés-do-chão até ao topo, permite potenciar a rentabilização financeira do edifício em função do seu uso futuro, admitiu outra das fontes.

O presidente da autarquia, Fernando Medina, exprimindo o seu reconhecimento pela disponibilidade das Forças Armadas em colaborar com a autarquia no sentido de encontrar as melhores soluções para o desenvolvimento da cidade, adiantou que a nova sede do Ministério da Defesa vai reforçar o caráter multifuncional do bairro da Ajuda, que sendo zona turística consegue manter espaços residenciais, de serviços e de trabalho.

Azeredo Lopes destacou a importância da escolha daquele edifício com cerca de dois séculos para sede do Campus da Defesa, desde logo por permitir mantê-lo na esfera pública, promove uma melhor gestão dos recursos financeiros (por via de uma menor fatura energética) e porque "favorece as sinergias" com a Cultura.

Com 70 mil metros quadrados, o espaço vai ter um núcleo museológico sobre a história da unidade.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.