Nove hospitais avançam com projetos de redução de transfusões de sangue

O objetivo é que em 2019 estes projetos-piloto sejam alargados a todos os hospitais do SNS

Nove hospitais públicos portugueses vão iniciar um projeto-piloto para reduzir o número de transfusões de sangue, uma medida que se fosse aplicada a nível nacional diminuía para metade as transfusões, segundo peritos.

O médico imuno-hemoterapeuta António Robalo Nunes explica que a ideia de um programa de gestão de sangue do doente "tem vindo a ganhar relevo no panorama científico e médico internacional", dando agora os primeiros passos concretos em Portugal.

No sábado, especialistas vão juntar-se em Cascais para debater este conceito de 'patient blood management' (gestão do sangue do doente) a nível nacional e internacional.

O programa permitirá também poupar sangue, que é um bem escasso, mas esse não é o objetivo central. O foco reside na redução da exposição a transfusões e na melhoria de cuidados

Segundo António Robalo Nunes, o objetivo do programa é "preservar o sangue do doente como recurso único" e criar nos hospitais "estratégias concertadas para poder sinalizar doentes em risco de transfusão, sobretudo em contexto cirúrgico, para reduzir as transfusões".

O programa permitirá também poupar sangue, que é um bem escasso, mas esse não é o objetivo central. O foco reside na redução da exposição a transfusões e na melhoria de cuidados.

"A transfusão é salvadora de vidas e de maneira alguma é uma terapêutica de risco elevado, mas tem riscos, não está isenta de risco", afirma Robalo Nunes à agência Lusa, lembrando que as transfusões se associam a piores indicadores quanto a taxas de infeção e a aumento de dias de internamento.

Em contexto cirúrgico, que representa metade das transfusões, o objetivo é identificar previamente os doentes com risco de transfusão, como são os casos das pessoas com anemia.

Um dos objetivos deste programa é identificar no pré-operatório e em tempo útil os doentes com anemia, permitindo tratar a deficiência de ferro antes da cirurgia

Segundo o especialista, que é igualmente presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Anemia, a existência de anemia é o principal fator de probabilidade para uma transfusão de sangue, num país como Portugal, que tem cerca de 20% de população adulta com anemia.

Um dos objetivos deste programa é identificar no pré-operatório e em tempo útil os doentes com anemia, permitindo tratar a deficiência de ferro antes da cirurgia. O mesmo deve acontecer com a avaliação de deficiências de coagulação.

"Isto nem sempre é feito em tempo útil. A ideia deste programa é ir tornando esta gestão de sangue do doente uma cultura institucional e depois nacional", afirmou o médico imuno-hemoterapeuta à Lusa.

Um despacho do Ministério da Saúde publicado este mês determina que este ano vão ser iniciados projetos-pilotos de programa de gestão do sangue do doente em nove unidades hospitalares do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

O objetivo é que em 2019 estes projetos-piloto sejam alargados a todos os hospitais do SNS, refere o despacho.

Foi realizado já um estudo para estimar o impacto desta gestão de sangue do doente em Portugal, prevendo-se que, se fosse aplicada ao mesmo tempo em todo o território, poderia reduzir para metade as transfusões e ainda poupar num ano 67 milhões de euros, de acordo com Robalo Nunes.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.