Militares com segurança reforçada na República Centro-Africana

Repetidos confrontos envolvendo contingente ao serviço da ONU justificaram envio de mais viaturas blindadas

Mais cinco viaturas blindadas Humvee chegam na próxima semana à República Centro-Africana (RCA), elevando para 30 o número das utilizadas pelos militares que ali operam ao serviço da ONU, soube o DN. É a resposta ao que o Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, qualificou há dias como "delicadas situações" que têm vivido os paraquedistas, em confrontos contra os grupos armados que desestabilizam aquele país e que, desde março, já rondam as duas dezenas.

Em causa está o desgaste e os danos acentuados que as 25 viaturas enviadas em janeiro de 2017 para a RCA, com o primeiro contingente de tropas dos Comandos, têm tido em termos de utilização e, principalmente, ao nível da sua proteção balística devido aos múltiplos impactos de balas a que têm sido sujeitos. "Já levaram muitos tiros", salientou uma das fontes.

A necessidade do comandante da força destacada desde março como Força de Reação Rápida da ONU na RCA, em ter pelo menos 18 Humvees (HMMWV na designação de fábrica) disponíveis para intervir em permanência, justificou o envio das viaturas. Em rigor, precisaram as fontes, trata-se de garantir que haja mais de meia dezena delas prontas a usar além daquele número.

As viaturas em causa eram usadas no treino e preparação das tropas a enviar para a RCA, que agora passam a ter meia dezena ao seu dispor, adiantou um dos oficiais. Note-se que os primeiros Humvee chegaram ao Exército no início dos anos 2000 e quase sem proteção balística, para serem empregues na missão da ONU em Timor-Leste e foram depois enviados para o Kosovo. Em meados da década, com o início das missões no Afeganistão, quando foi adquirido um segundo lote já com proteção balística aos EUA, as primeiras viaturas foram enviadas para Israel a fim de serem blindadas antes de seguirem para Cabul.

O transporte das referidas cinco viaturas, conhecidas na gíria militar como Hummers, está a cargo de uma empresa civil que trabalha para a ONU e o processo iniciou-se na quinta-feira com a partida por via terrestre para a Bélgica, confirmou o Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA).

Com a chegada à capital belga, prevista para ontem (não confirmado até ao fecho da edição) ou hoje, a receção dos Humvee à capital da RCA está prevista para uma janela de tempo entre segunda-feira e sexta-feira da próxima semana, adiantou o porta-voz do EMGFA, comandante Coelho Dias.

"Um passeio no parque"

O atual contingente de 156 paraquedistas do Exército e três controladores aéreos táticos da Força Aérea é o terceiro enviado por Portugal para a RCA, desde o início de 2017 e por períodos de cerca de meio ano.

Uma das fontes ouvidas pelo DN recorreu à experiência vivida pelos paraquedistas nos muitos anos de presença na Bósnia - então ao serviço da NATO - para explicar que essa missão foi "um passeio no parque" comparado com a realidade que se vive na RCA.

A luta pelo poder e pelos recursos naturais (diamantes, ouro, gado) está na base da instabilidade que se vive na RCA desde 2013, embora os grupos armados invoquem motivações religiosas para justificar os seus atos e dar-lhes força mediática - incluindo alimentar rumores que depois podem originar notícias falsas.

A título de exemplo, o comandante Coelho Dias disse que não ocorreram os alegados confrontos que a Agence France-Presse noticiou terem ocorrido ao fim do dia de quarta-feira em Bambari. É nesta cidade, a cerca de 400 quilómetros de Bangui, que agora está estacionado o contingente português. Antes de ali chegarem, os militares entregaram donativos para três escolas carenciadas da região de Silbut e recolhidos no Regimento de Tomar.

PRINCIPAIS CONFRONTOS

31 de março de 2018

O primeiro dos grandes confrontos em que os paraquedistas se viram envolvidos desde a chegada à República Centro--Africana (RCA) ocorreu dias depois da sua chegada e cinco após a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Uma patrulha circulava ao princípio da noite no bairro PK5, muçulmano e considerado o pulmão económico da cidade maioritariamente cristã de Bangui, quando foi atacada por grupos armados que o controlam. Os soldados, que receberam reforços durante as quatro horas de combates, tiveram de usar armas pesadas e gás lacrimogéneo para fazer face aos atacantes. Não houve feridos nem mortos.

8 de abril de 2018

Uma semana depois, também em Bangui, um soldado português sofreu ferimentos ligeiros durante uma operação policial e militar no mesmo bairro PK5, no terceiro distrito da capital. O militar, um dos 120 paraquedistas destacados para o terreno, foi atingido na omoplata direita por estilhaços de uma granada ofensiva durante a chamada Operação Sukula, lançada pelo comandante operacional da Missão Multidimensional Integrada da ONU para a Estabilização da RCA (MINUSCA) para eliminar a presença de criminosos e radicais islâmicos no PK5.

29 de maio de 2018

Novo militar ficou ligeiramente ferido durante um ataque de "elementos armados" contra uma patrulha portuguesa na cidade de Bambari, a cerca de 400 quilómetros de Bangui. Além da troca de tiros, alguns "elementos da população" afetos aos grupos muçulmanos conhecidos como ex-Seleka - a que se opõem os chamados Anti--Balaka, cristãos - também apedrejaram as viaturas em que seguiam os soldados. Seguiram-se acusações da prática de "crimes contra a humanidade" contra os paraquedistas (por ex-Seleka) e a defesa da sua imparcialidade e permanência naquela região (Anti-Balaka).

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João Gobern

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