Marcelo: história de La Lys deve ser alvo de "uma reparação moral"

No cemitério de Richebourg, na Flandres francesa, Portugal e França assinalaram o centenário da Batalha de La Lys. Marcelo Rebelo de Sousa, ao lado de Emmanuel Macron, disse que foi feita justiça aos soldados portugueses

Numa cerimónia inédita, com a presença de várias centenas de portugueses e antigos familiares de combatentes, no cemitério de Richebourg, na Flandres francesa, Portugal e França assinalaram o centenário da Batalha de La Lys.

O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou que a cerimónia, que contou com a presença demorada e dedicada do presidente Francês Emmanuel Macron, "foi uma reparação histórica, porque durante muito tempo se fez a história desta batalha de acordo com visão de outros. E essa visão não era justa para Portugal nem para os portugueses".

"Finalmente está a fazer-se a história do que se passou de facto, do sacrifício, da dedicação, da coragem dos nossos soldados", considerou Marcelo, salientando que "a história que foi escrita sobre os militares portugueses da Primeira Guerra, em muitos casos, não foi justa". O Chefe do Estado assume que a história da batalha de La Lys deve ser alvo de "uma reparação moral".

"Fez parte da própria lógica da ditadura apagar a história da Grande Guerra, uma vez que ela nasceu de um movimento militar, crítico da situação vivida em Portugal durante a ditadura, que não guardou uma boa memória dessa grande guerra", disse Marcelo, considerando ainda que "durante décadas essa memória não foi devidamente considerada, prestigiada e até mesmo contada".

O presidente português referiu-se ainda à aliança entre Portugal e França como o sinal de uma amizade entre as duas nações, assinalada desde há cem anos, quando os combatentes portugueses vieram defender a França nos pântanos de Pas de Calais. Marcelo deixou ainda uma mensagem de condenação ao terrorismo, considerando que se trata de uma das principais ameaças à paz "nos dias de hoje".

"É essa mesma paz que [o agente de polícia] Arnaud Beltrame defendeu há algumas semanas durante o atentado que também atingiu um dos numerosos portugueses que amam a França como a segunda pátria. É essa mesma paz que nos uniu na Europa que nos une contra o terrorismo de Estado", frisou.

Emmanuel Macron saudou estas palavras do presidente português, num raro momento em que o presidente de França se deixou levar na onda de Marcelo, no meio de "representantes do povo português".

"Viste? O presidente português prestou uma bela homenagem", comentou Macron com um jovem que se aproximou dele para o cumprimentar, para lhe agradecer a cerimónia e lamentar as vítimas do terrorismo em França. O presidente francês também agradeceu o gesto. Em certa medida, todo o discurso de Emmanuel Macron teve a gratidão como tónica.

"Neste cemitério repousam quase dois mil soldados mortos em solo francês, tal como o monumento de La Couture manifesta o reconhecimento do povo francês e do conjunto dos aliados para com o povo português, que levou a cabo um doloroso esforço e teve um custo pesado por se bater ao nosso lado", frisou.

A comitiva seguiu depois para a vila de Richebourg, onde visitaram uma exposição que tem como objetivo "contar as histórias dos militares que decidiram ficar e se casaram com francesas que conheceram durante a batalha. Aurore Rouffelaers é a comissária da exposição que resulta em vários retratos de antigos combatentes. Mas esta investigadora procura, na verdade, uma história pessoal, sendo bisneta de João Manuel da Costa Assunção, um soldado de Ponte da Barca que decidiu ficar depois da guerra.

Mais tarde, em Lille, António Costa referiu-se à diáspora portuguesa "do início do século, dos que, a seguir à guerra, decidiram ficar em França. Em Lille encontramos muitos netos e bisnetos desses soldados que aqui se estabeleceram. E é também a estes 30 mil portugueses e lusodescendentes que desejo prestar homenagem".

Antes, num discurso em La Couture, em frente ao monumento português, de homenagem aos soldados mortos, o primeiro-ministro referiu-se "aos combatentes de há cem anos", considerando que assim também se "homenageiam as nossas forças armadas e reafirmamos o compromisso de Portugal com aqueles que hoje servem o país como militares".

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