Ligações políticas de Nádia Piazza causam mal-estar em associação

Há um mês demitiram-se dois membros da direção e a alegada politização da associação é apontada como uma das causas. Convite para ajudar a elaborar programa do CDS aumentou coro de críticas

A presidente da Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande tem sido alvo de muitas críticas depois de ter sido anunciado no Congresso do CDS que iria integrar um grupo de trabalho do partido - que ajudará a concretizar o programa eleitoral para as próximas eleições legislativas. Nas redes sociais, é acusada de estar a politizar a Associação. E essa é apontada como uma das razões que levou à demissão de dois membros da direção, no mês passado. Dina Duarte, que era vice-presidente, (mulher do pintor João Viola, da aldeia do Nodeirinho) e Belmira Morgado (irmã de um bombeiro vítima do fogo, em Castanheira de Pêra) afastaram-se em fevereiro, alegando motivos de ordem pessoal. Mas apesar da recusa em falar abertamente sobre o assunto, o DN sabe que em causa estará a oposição à forma de atuação de Nádia Piazza ao leme da associação, o que inclui "a politização que foi fazendo, como agora se viu, ao aceitar um convite do CDS", conta uma fonte próxima deste processo.

Já esta semana, o jovem Marcelo Nunes (irmão da pequena Bianca, morta no incêndio), também ele uma presença assídua nos eventos da associação, sublinhou no grupo "Pedrógão Grande no Facebook" o seu desagrado . "Este tipo de discussões não devem ser efetuadas na Associação que é de todos e não só de uma pessoa. Estes debates têm espaços políticos adequados para o efeito, esta associação trata-se de um local cultural e que deveria prestar homenagem às vítimas mortais, não deveria abrigar quezílias políticas e não deveria dar-se tanto ao mau mediatismo político, nem ser confundida com uma espécie de "sede de partido"". Confrontado pelo DN, Marcelo reiterou a ideia defendida na rede social: "não discordo que a Nádia se envolva politicamente, mas não pode colar a associação a um partido, como parece estar a acontecer".

Na vice-presidência da direção está João Ângelo, que habitualmente é candidato nas listas do CDS no concelho de Figueiró dos Vinhos, concelho onde reside e trabalha Nádia Piazza, enquanto jurista num gabinete do município. Ali, o anúncio de que a presidente da associação iria fazer parte do grupo de trabalho do CDS, foi recebido com surpresa. Hugo Dias, presidente da comissão política concelhia, não escondeu ao DN a admiração: "Foi uma escolha pessoal da Assunção Cristas. Não tivemos intervenção nenhuma nisso. Se me perguntasse, eu escolhia outra pessoa", admite o líder local, apontando para "António Zuzarte, por exemplo", seu antecessor na estrutura concelhia.

Aliás, terão sido estes dois amigos que apresentaram Nádia Piazza à presidente do partido, num encontro particular, no final de uma missa, pouco depois de velados os corpos das vítimas - onde se incluem o filho de Nádia, de apenas cinco anos, o ex-marido, e a sogra. Mais tarde, já a título oficial, Cristas prometeu voltar ao território a cada dois meses, e tem cumprido. Dias antes do congresso, na última visita à Associação, terá formalizado o convite. António Zuzarte, por seu lado, nega as ligações ao partido, embora lamente "não ser verdade. Ela [Nádia] tem uma causa, é uma lutadora, uma pessoa influente, e não é por falta de interesse nosso que não está no CDS".

Nádia Piazza, natural do estado do Paraná, no Brasil, mora em Portugal há 18 anos. Veio estudar para Coimbra, licenciou-se em Direito, e chegou a Figueiró dos Vinhos pela via do casamento. A presidente da Associação das Vítimas de Pedrógão Grande refuta qualquer tentativa de politizar a instituição, tão pouco relaciona a demissão recente de dois membros da direção. Tanto mais que os motivos que lhe foram apresentados nas cartas de demissão são "de caráter pessoal". Dina Duarte não quis prestar declarações ao DN, Belmira Morgado justificou a saída com indisponibilidade, preferindo não comentar a entrada de Nádia na cena política. Para os lugares deixados vagos na direção entraram Luís Sanches e Tiago Ferreira, este último companheiro de Nádia.

"Se fosse outro, teria aceite"

"Ninguém tem partido, mas se tivesse não era problema", afirma a presidente. Nádia distingue bem o seu papel de líder da associação do outro que tem, enquanto cidadã. Se tivesse sido convidada por outro partido qualquer teria aceite? "Claro que sim". Ao DN, a jurista - que afirmou que "se o governo é de esquerda é a ele que tenho de pedir responsabilidade" - reforçou o que disse esta semana numa entrevista à revista Sábado: "Sou apartidária. Aceitei esse convite porque o importante é colocar o tema do interior na agenda política. Neste grupo de trabalho posso dar a minha visão e o que penso do interior. Eu acredito piamente no caminho da porta estreita e não da via larga. Todos os fóruns são poucos para o discutir, até porque o interior não vale votos. A minha ideia é trabalhar por dentro. É bom que haja ruído, porque dessa forma o tema da interioridade passar a ser concorrido", disse.

O Presidente da República tem sido o grande apoio público de Nádia Piazza, e ao seu gabinete terá chegado a denúncia da politização e da forma de trabalhar com que nem toda a direção se identifica. Questionado pelo DN, o Gabinete de Marcelo Rebelo de Sousa fez saber que o presidente não comenta associações, nem problemas internos.

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